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domingo, 29 de junho de 2014

Paulo Mendes da Rocha, sem entre linhas- Móbile, a Revista do CAU/SP


Móbile, a Revista do CAU/SP n°1 tem como tema "As Cidades" e ninguém menos que o nosso maior arquiteto em atividade para falar sobre o tema. Numa entrevista cheia de bom humor e muitas, mas muitas críticas aos arquitetos desde  seus vícios de linguagem originada pela  soberba sobre a "criação" das cidades, eu , o jornalista Roney Rodrigues e a equipe de comunicação do CAU/SP tivemos o enorme prazer de realizarmos esse trabalho focado no tema central da Móbile!Novos bate-papos com nossos colegas estarão nos próximos números, aguardem!!!

Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile


  








SEM ENTRELINHAS


SEM MEIAS PALAVRAS, O VENCEDOR DO PRÊMIO PRITZKER ANALISA A INFLUÊNCIA DO COLONIALISMO NO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL, CRITICA A QUALIDADE DO TRANSPORTE PÚBLICO, O CRESCIMENTO DAS METRÓPOLES E DISPARA: “TEMOS QUE INVERTER A ROTA DE DESASTRE DAS CIDADES”





Buzinas, gritos, motores roncando, algaravias urbanas. “Para uma conversa sobre São Paulo, essa música de fundo é bem apropriada”, afiança o renomado arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, 86 anos, antes de fechar a janela de seu escritório, localizado no centro da cidade. Com o ambiente silenciado, ele se debruça sobre uma maquete de papel: o Cais das Artes, na Enseada do Suá, em Vitória, sua cidade natal.

“Olha só, o café do teatro se comunica com essa calçada aqui, você pode frequentar o café mesmo sem espetáculo”, explica o arquiteto. “A técnica só revela uma monumentalidade que já havia”.

“Mas tem que ter sensibilidade para captar”, alguém sugere.

“Não é sensibilidade, meu bem” interpela. “É sabedoria e raciocínio! Assim, você transforma a dimensão artística em uma frescura”.

Com essa “urgência de discurso” – “eu já estou velho”, explica – Mendes da Rocha é incisivo em suas opiniões: acredita que o transporte com carros é uma “tolice”, defende a criação de uma rede hidrográfica para integrar a América Latina e afirma que o arquiteto tem obrigação política de alterar a “rota de desastre” nas cidades.

Mendes da Rocha é considerado um dos maiores arquitetos brasileiros. Vencedor do prêmio Pritzker em 2006, o mais importante da arquitetura mundial, é autor de grandes projetos, entre eles, a reforma e intervenção da Pinacoteca e da Estação da Luz, do pórtico e da cobertura na Praça do Patriarca e do Museu Brasileiro da Escultura (MUBE).

A convite de João Batista Vilanova Artigas [1915-1985], também encabeçou, na década de 1960, a chamada Escola Paulista, que propunha uma nova arquitetura com seus pontos de vista sociais e humanistas, em oposição à arquitetura racionalista.

Hoje, Mendes da Rocha não disfarça o saudosismo. “A vida é muito curta e não se pode pretender fazer nada aos 70 ou 80 anos de vida, portanto, só podemos ter um alento, digamos, no que vai continuar além de nós”, diz ele.


MÓBILE: Como a arquitetura contribuiu para o processo de civilização?


PMDAROCHA: (Longo silêncio) Civilização de quem?

MÓBILE: Da Europa e da América, por exemplo. O processo como um todo.

PMDAROCHA: Pode-se dizer que a primeira manifestação do homem encontrada em arqueologia e em estudos, é a arquitetura, afinal, é o modo de ficar no lugar. Quando o homem começou a se fixar, teve que organizar a natureza: ocupou cavernas, empilhou pedras, dominou o fogo. Esse lugar, essa repetição de atos e manobras que garantam a sua vida, constitui o que poderíamos chamar de genealogia da construção da cidade e o estabelecimento de uma linguagem que descreve as coisas. Estamos falando de milhões de anos. Mas vamos dar um pulo no tempo, senão vai demorar muito. Existe um quadro famosíssimo [Vulcano ed Eolo maestri dell'umanità, de Piero di Cosimo, cerca de 1500-1505] e discutido de uma maneira muito especial por Erwin Panofsky [1892-1968, crítico e historiador da arte alemão, um dos principais estudiosos em iconografia], em que ele comenta a passagem da Idade Média para o Renascimento. Esse quadro é lindo porque, em primeiro plano, há dois velhos sentados no chão, em torno de uma fogueira, e se percebe que um deles tem a perna “estropiada”. Mais ao fundo, uma nítida e esquemática construção, como se fosse uma casinha: dois pilares de madeira, telhado e uma arquitrave em forma de tesoura. Um burro ao lado. Os dois velhos são Vulcano [deus do fogo], expulso do Olimpo porque ousou usar o fogo como instrumento, e Éolo [deus do vento], que juntos produziram a forja. Com o vento e o fogo conseguimos tornar maleável o ferro e produzir a ferradura para o cavalo. Ou seja: transformamos o cavalo em máquina. Veja a genealogia da imaginação. É a fábrica, a forja, a máquina, a casa! É tudo arquitetura. A natureza não é habitável, é uma droga, um inferno com vulcões e tsunamis. Um de nós não sobrevive 15 dias na floresta. Transformar a natureza e torná-la habitável: eis a questão da arquitetura. Portanto, a arquitetura não contribuiu para o processo de civilização, ela é esse processo. Veja o ensino da arquitetura, as universidades, o país atrasado, a América, o colonialismo, o rio Amazonas. Temos a obrigação de influir politicamente para inverter essa rota de desastre e fazer brilhar o êxito da técnica.


MÓBILE: O senhor tocou num ponto interessante em sua obra: a análise da interferência do colonialismo em nossas vidas. Quais foram as consequências da colonização em nossa concepção de cidade?

PMDAROCHA: Mencionei o colonialismo porque, na época em que a América foi descoberta, se dizia que o Sol girava em torno da Terra. E o senhor Galileu [Galilei, 1564-1642, cientista italiano] disse que o nosso planeta girava em torno do Sol e foi condenado à fogueira. Inauguramos algo aqui muito mal inaugurado, não soubemos fazer a justa réplica às tolices que o colonialismo impunha, tornando o Brasil próspero, como tinha que ser. Na América não se aplicou o melhor do conhecimento, ao contrário, foi colonizada com dogmas e princípios tolos, com uma visão espoliativa de consumir a riqueza do outro. Para falarmos das coisas de hoje, é preciso lembrar a monumentalidade daquele momento. No Brasil se inaugura o Ministério das Cidades justamente para fazer com que o governo ouça a voz daqueles que dizem que temos que providenciar a construção do espaço habitável, não simplesmente entregá-lo ao mercado, que é a visão colonialista. O êxito da técnica é uma maravilha e é isso que a cidade deve ser. O CAU e o Ministério das Cidades existem para que se ouça essa visão política de transformação inexorável para garantir o nosso futuro e para alimentar a nossa vida. É por isso que contei a história de Vulcano e Éolo: a coisa é séria para fazer a forja. Um pagou caro e foi expulso da morada dos deuses.

MÓBILE: Na década 1960, houve um esforço para pensar o Brasil e a arquitetura teve papel fundamental nesse projeto. No contexto de hoje - com o desmonte do Estado, a falta de políticas públicas e a terra ligada ao mercado - como pensar a arquitetura brasileira?

PMDAROCHA: Não precisa abolir a ideia de mercado, mas não se pode entregar a construção do espaço de uma cidade exclusivamente à iniciativa privada. O país, a cidade e o espaço precisam ser planejados. O território brasileiro talvez seja o espaço mais extraordinário em rede hidrográfica do planeta e possui um projeto antiquíssimo de ligação no miolo do país, um canal que ligaria a Bacia Amazônica à do Prata, na Argentina. Teríamos que nos associar com outros países, portanto, seria um instrumento para a paz na América Latina. Enquanto isso, ainda estamos falando besteiras como quais as formas de vender apartamento. O Ministério das Cidades tem que sair à frente com um discurso de valor político, uma consistência política sobre a transformação desse trabalho, para que ele tenha sucesso e não produza desastre.

MÓBILE: O senhor poderia falar sobre o fenômeno da metropolização e os desafios enfrentados pelas cidades?






PMDAROCHA: Eu estou velho e não tenho tempo para muitas entrelinhas: a metropolização não é fenômeno, é uma ação política feita pelos homens que têm poder. Os fenômenos não podem ser impedidos e chamar o crescimento de São Paulo, que em pouco tempo chegou a 20 milhões de habitantes, nem sequer é metropolização. Foi um projeto que se deixou atrasar tanto que só havia trabalho aqui. Outra coisa, não precisa ser amarrar em dividas de 20 ou 30 anos para dizer que a “minha vida” é uma casa. É tolice a fixação na propriedade e na dívida, uma amarração com uma forma vil de capitalismo, embora não ache oportuno discutir capitalismo ou não capitalismo, porém ele não precisa ser vil. Esse crescimento desorganizado - ou simplesmente entregue à especulação do mercado imobiliário - só pode dar desastre. Não sou eu que estou dizendo: é a fotografia que se pode tirar agora do alto do Edifício Itália, o helicóptero que está irradiando ou a televisão que sempre diz que “a Marginal tem 48 quilômetros de congestionamento”. O rio Tietê foi transformado em esgoto. Porém quem tem dinheiro está livre de qualquer mal e vai aos fins de semana se divertir nas praias de São Paulo. Mesmo assim, nos últimos fins de semana, eles têm levado de 12 a 24 horas até a Baixada Santista, que tem menos de 50 quilômetros de distância de São Paulo. Não te parece uma tolice isso tudo?

MÓBILE: E como resolver os problemas de mobilidade urbana?

PMDAROCHA: Por que não se diz transporte público? Nada se mexe mais do que o universo urbano. Suponhamos que ficássemos três dias, numa experiência absurda, sem ninguém sair de casa. Não houve, então, “mobilidade urbana”. É uma expressão ampla, uma forma de abordar uma questão sem dizer nada. O transporte público foi a melhor maneira que me pareceu, física e mecânica, de desfrutar do pouco que a cidade já tinha, por que não ia dar tempo de fazer nada. Hoje, o grande problema da cidade é o transporte individual, particularmente o automóvel. Um cretino, como nós, pesa 60 quilos, em média, e um automóvel pesa 700 quilos. É uma estupidez carregar 700 quilos de lata, queimando petróleo, e dizer que se está transportando alguém. O transporte individual é uma estupidez, já fazem apartamentos menores que um automóvel. Nada mais monumental que o sistema - que se poderia dizer brilhante - de transporte público. Acabo meu trabalho e sei que passa um trem, de três em três minutos, que me leva pra casa. Encontro você e vamos tomar uma cerveja, um torneiro mecânico passa e conversamos com ele, outra pessoa diz que há uma peça maravilhosa e eu ligo para uma amiga vir assistir comigo e voltamos para casa às onze da noite. É monumental a imagem do transporte público. A cidade é uma universidade. O êxito da técnica é uma maravilha, não um desastre que não anda para lá nem para cá.

MÓBILE: E o senhor acredita que, desde as manifestações de junho, houve mudança nesse panorama da cidade?

PMDAROCHA: Sobre as manifestações já foi dito tudo o que se tinha que dizer. Coisas, às vezes, muito interessantes, mas também muita asneira. O único aspecto que não se pode discutir é a ideia de manifestação em si, porque é a formação de consciência. Quantos estudantes têm no Brasil hoje, incluindo primário, secundário e universitário? Milhões. Seja no primário ou na Universidade, muitíssimas horas de aulas são dadas por dia e o professor tem quarenta cretinos calados por obrigação, prestando atenção no que ele diz. Já imaginou a monumentalidade dessa manifestação? Podemos tornar melhor muitas coisas que já existem. Arquitetura, no fundo, é essência do conhecimento. Não é a arquitetura que desfruta da técnica, mas ela solicita da técnica - com essas reflexões - aquilo que se deve fazer.  É a escola mais importante da Universidade porque estabelece, no contraponto e na concretude, a um tempo só, arte, ciência e técnica. Não é uma somatória de conhecimento, é uma forma especifica de conhecimento arquitetônico. Nossos queridos mestres da FAU/USP diziam sempre: não se pode ensinar arquitetura, mas pode-se educar um arquiteto.

MÓBILE: E os arquitetos brasileiros estão preparados para dar essa contribuição tão importante e desejada?

PMDAROCHA: Tomara que não sejam apenas os arquitetos, coitados (risos). Quem deve resolver esse problema tão sério é toda a população. A arquitetura é uma forma peculiar de conhecimento que cogita essas questões no âmbito da Universidade e não são os arquitetos que vão resolver, mas a política. O arquiteto exerce uma profissão de desenvolvimento de projetos que tem uma dimensão social, não para resolver como faz ou não uma casa. Inclusive, nem precisa saber projetar, basta pensar e ajudar a construir a política que faz a cidade. Fazendo isso, o arquiteto já faz um trabalho brilhante.

MÓBILE: E o que, apesar de todos esses problemas, ainda mantém esse desejo das pessoas estarem juntas?


PMDAROCHA: Qual seria o outro desejo, estar sozinho? Nós temos que estar juntos. Você tem que aplicar a dimensão lírica e poética do significado das palavras. Necessidade é necessidade, mas você pode desejar o impossível. A concomitância de necessidades e desejos é que deu a nós, enquanto animais, o que chamamos de dimensão humana, inclusive na formação de linguagem. Ela nunca resolve estritamente o desejo, mas concomitantemente exprime também desejos, o que se chama de altos ideais do gênero humano. Mais ou menos tentamos compreender o que somos. A vida é muito curta e não se pode pretender fazer nada aos 70 ou 80 anos de vida, portanto, só se pode ter um alento, digamos, no que vai continuar além de nós e, para nos exprimir, introduzimos a dimensão dos desejos, as visões utópicas e falamos do curso de nossas vidas. Isso quer dizer que sabemos que vamos morrer. Mas você poderia me perguntar: “por que, então, você está tão entusiasmado e animadinho?”. É porque sabemos também que não nascemos para morrer, mas para continuar. Essa é a essência da minha urgência do discurso. Eu não passo de um pobre capixaba...




sábado, 28 de junho de 2014

Sergio Ferro, texto na "MÓBILE, A REVISTA DO CAU/SP"


    Móbile,a revista do CAU/SP N° 1 publicou   texto de nosso professor e colega Sérgio Ferro para a seção Tapume, espaço para  aprofundar os estudos sobre as relações do trabalho no canteiro de obra, no qual nós arquitetos participamos profundamente, cabendo  ao profissional entender seu papel   e a realidade da luta de classe na cadeia produtiva da construção civil , assim podendo dialogar com a sociedade com a coragem que criamos e formamos  nosso conselho, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo.  


Arq. Urb. Victor Chinaglia

Coordenador da Móbile







TAPUME




“A transformação do trabalho em capital é, em si, o resultado do ato de troca entre capital e trabalho. Esta transformação é posta apenas no processo de produção mesmo.”

K.Marx. Para a Critica da Economia Politica, Manuscritos de 1861-1863. Autêntica Editora, 2010, p 180.

       




   Para os de fora, o tapume provoca um efeito de caixa preta. Lá dentro, operações misteriosas encaminham os meios de produção na direção do produto final. Não vemos estas operações. O tapume as oculta apesar de sua função técnica – proteger o exterior do que pode ocorrer no interior e o interior das invasões do exterior – não implicar a barragem da visão. Ele impede, portanto, a observação da produção sem que haja nenhuma razão objetiva para fazê-lo. Invisível, pouco a pouco, o trabalhador coletivo, sempre numeroso na construção, da forma e consistência ao “jogo sábio dos volumes sob a  luz” e desaparece no fim do processo. Poderíamos quase destacar um principio que rege a retirada dos tapumes : ela ocorre quando, recheadas de muita mais-valia, as edificações não deixam mais ver que são o produto da mão do homem. Ou seja, a edificação somente abandona esta provisória pele encobridora quando adere definitivamente à mascara do desenho denegador, quando o tempo de sua gestação é imobilizado pela simultaneidade no jogo dos volumes. Sob a mascara passageira, não surge a verdade – mas outra mascara petrificada. E o que foi tempo vivo de produção (oculto) torna-se valor por um lado, por outro, um fetiche.  
        

  O tapume opera como fetiche: encobre o lugar em que a violência passada reproduz-se. Somente no canteiro a perversidade da troca aparentemente justa entre salário e força-de-trabalho revela sua injustiça. Somente então o pressuposto desta troca – a apropriação pelo capital de todos os meios materiais de produção e a transformação da força-de-trabalho obrigatoriamente em mercadoria – entra na efetividade. A subordinação do trabalho vivo, consequência da troca, posta pelo processo produtivo, desmascara a paz igualitária do ato jurídico: o intercâmbio “justo” entre trabalho e capital mostra-se como exploração desavergonhada da força-de-trabalho pelo capital. O momento concreto desta inversão entre a aparência justa da troca e a desigualdade que pressupõe, este salto entre a equidade abstrata e a subordinação efetiva seria revelador demais para aparecer sem mais. Em geral, o zoneamento territorial e a fortificação quase militar das unidades de produção afastam da vista da coletividade esta passagem à verdade. Mas a construção não pode ser isolada em zonas  especiais. Ela necessariamente espalha-se pela cidade. O tapume, então, faz as vezes do impossível zoneamento. Separa o espaço interno da produção do exterior pelo tempo em que ela dura.
      

     Mas no fetiche o que não deve ser visto contamina o que impede de ver. Sabemos ou pressentimos que atrás dele há alguma variante da castração. Somos tentados a procurar o buraco que permitira ver a verdade, como voyeurs. Se há o que esconder, deve haver alguma coisa sórdida do lado de lá. Mas a verdade não é visível. Nada exteriormente revela a trapaça. Sob o que impede de ver, não há nada a ver, a não ser o impedimento de ver: salvo exceção, a violência moderna esta interiorizada. E o impedimento de ver trai a fobia de deixar ver, com o que revela que ha algo a não ver. Somente a máscara denuncia o porque da necessidade de mascarar. 
       


  O tapume, em geral, é tosco, elementar – obviamente non-finito. Para a estética oficial indicaria o sublime, o insimbolizável, o que não tem nome, o real ou coisa do gênero. Muitas vezes, sobretudo nas obras menos sofisticadas, é mal feito. Le Corbusier poderia apor a  legenda que imaginou para a janelinha que saiu torta por causa de uma fôrma que cedeu em La Tourette: “por aqui passou a mão do homem”. A referência explícita ao trabalhador só é admissível quando ele falha. Expulso da obra pelo projeto encobridor (o qual em geral desenha uma obra imaginária sobre a real, para que o operário real desapareça sob um outro imaginário), ele, enquanto dura a produção, é indicado no exterior, no tapume, por um trabalho sumario, pouco qualificado e obviamente inadequado se sua função fosse realmente proteger o interior do exterior ou o exterior do interior. A aparência instável e efêmera do tapume desmente sua função declarada. Mas sua função latente tem sucesso: no único lugar em que o trabalho deixa vestígios evidentes sua suposta imperícia fica demonstrada. Poucos se lembram que, mesmo então, a força de trabalho está sob o regime da heteronomia. No mais, outros vestígios seus, temporariamente encobertos pelo tapume, sumirão no fim da obra. Como num passe de mágica, o escondido mostra-se na coisa encarregada de escondê-lo – mas de tal modo que o escondido, mostrado como não é, continue escondido sob sua desocultação. Surpresas do sublime.
     

    Do outro lado do tapume, há o outro, um outro anônimo, sem identidade. Encurralado, enjaulado (às vezes concretamente), ele nos parece ameaçador. O preso, à priori, tem ar suspeito. Mais ainda quando, no fim da obra, o tapume desengonçado, frequentemente feito de restos, é retirado e, com ele, os trabalhadores que passam de ocultos a ausentes. A obra então sai de seu invólucro obtuso como call-girl do bolo de aniversário do gangster, bem maquiada e com as rugas colmatadas, como se fosse novinha em folha, sem nem sinais de uso. Por abdução, o mais pobre dos automatismos do entendimento, a emergência festiva do produto acabado do duvidoso invólucro, o sombrio tapume, contrasta a limpeza do resultado visto como fruto do bom desenho com a sujeira caótica do canteiro, seguramente mal frequentado. Quando o tapume é retirado e a produção cessa, tudo se passa como se a ordem e a segurança voltassem a reinar para o bem de todos. E nada parece mais justo que a evacuação dos trabalhadores do local, agora impróprio para sua selvageria.
    
      Se não há nada terrível a ver no outro lado do tapume, assim mesmo o que não vemos tem parentesco com o monstruoso. O cidadão manufatureiro, teoricamente livre, tem que abdicar de sua liberdade – contrariando o cínico mandamento das constituições “democráticas” que declaram tal abdicação, a da enorme maioria da população, inconstitucional. A artimanha transforma o roubado em culpado pelo roubo. A oligofrenia imposta à força-de-trabalho, pressuposição para sua exploração, aparece como posta, auto imposta por ela mesma ao aceitar sua troca por salario, como se houvesse alternativa. A desgraça ganha o reforço da culpa. A mutilação do cidadão “livre” passa à condição de automutilação. Ele deve obediência total, surdez a si mesmo, enquanto a organização manufatureira impõe que escute sua própria competência. Em vez da elegância dramática do “ser ou não ser”, a questão passa a ser e não ser ao mesmo tempo, paródia de dialética. Como num lapsus, é esta tortura invisível que o tapume tenta inutilmente tirar da vista – com o que a indica.
    
      O tapume é um recurso eurístico: permite que a produção das obras, tal como ela ocorre hoje,  se apresente como um processo lógico e necessário e seus mistérios (porque as obras se fantasiam de outras obras ?) como sutilezas estéticas. Se seguíssemos a produção passo a passo, sua irracionalidade faria desconfiar destes argumentos. Nenhum canteiro resiste à interrogação lúcida. A anormalidade é sua norma. Isto sim, o tapume oculta. O mágico que serra a moça esconde o lugar em que aparentemente serra numa caixa. O empreendedor manufatureiro não serra moças. Mas serra o operário, entre a mão e o cérebro, exigindo, entretanto, que continuem unidos. Ainda isto o tapume pretende ocultar – mas somente os de dentro, por dentro, sentem o corte. O amontoado de operações ilegítimas e heteróclitas que requer a subordinação obriga a prudência de tudo esconder, com ou sem razão. Seria mais um absurdo supor que a irracionalidade procede sempre racionalmente.
        
  As grandes empresas cuidam da aparência do tapume. Ao contrário das que visitamos até agora, são mais apuradas e recobrem operários uniformizados com capacetes e equipamentos de segurança. Querem impressionar com a representação de progresso no processo de produção. Mas como este progresso limita-se em geral à passagem somente aparente da subordinação formal à real (na verdade substituição da manufatura serial pela heterogênea), a aparência é encarregada de fingir a passagem fictícia. O tapume deixa ver então estes operários uniformizados e guindastes transportando peças pré-fabricadas – o capital acredita ainda que todos esperamos o dito progresso das forças produtivas figurado por estes ersatz de industrialização. O momento produtivo escondido anteriormente agora aparece parcialmente em algumas vitrines que sugerem sábia organização de produção avançada. Uniformes e guindastes ocupam o lugar de máquinas. Mesmo quando deixa ver, o tapume mascara.
        

  O tapume, como o desenho de arquitetura, serve à denegação da produção. Ele antecipa seus efeitos. Por isto some quando o desenho cumpre totalmente sua missão.






Sérgio Ferro é arquiteto, pintor e professor da Escola de Arquitetura de Grenoble. Foi professor da FAU USP entre 1962 e 1970. É autor de O Canteiro e o Desenho (Editora Projeto, 1979) e Arquitetura e Trabalho Livre (Cosac Naify, 2006) entre outros livros.