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quarta-feira, 9 de julho de 2014

SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA, Arq. Hugo Segawa na Móbile, a Revista do CAU/SP

A Móbile. a Revista do CAU/SP  apresenta a coluna Debates em que dois pontos de vistas sobre um determinado tema é apresentado por dois colegas . O N°1 da Móbile teve como tema " A Arquitetura é arte ?"  onde os professores Hugo Segawa explica sua posição num texto intitulado "SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA". Belo e estimulante início para o que  teremos para os próximos números.

Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile 








SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA



Hugo Segawa

Não me recordo do motivo do bate-papo, mas lembro das palavras de Lucio Costa em nossa conversa: “Há uma distinção entre Beaux Arts e Fine Arts. Arquitetura é parte das Beaux Arts; na cultura anglo-saxônica, diz-se Fine Arts and Architecture”. Qualquer dicionário em inglês atual inclui a Arquitetura entre as Fine Arts. Todavia o Dr. Lucio tinha razão. Havia uma contenda entre Fine Arts e Applied Arts que deveria estar vigente nos seus anos formativos, nas primeiras décadas do século 20. Applied Arts como contraponto a Fine Arts porquanto útil, para além de simplesmente evidenciar a criatividade artística. O movimento Arts and Crafts e a Bauhaus estão entre os passos que lentamente dissolveram a querela que despontou com a escalada da indústria na segunda metade do século 19.


Um moderno como Lucio Costa tinha a consciência de seu tempo e de outros tempos. A arquitetura de arquitetos deve ser vista em seus contextos: no Japão, o daiku era o carpinteiro que concebia e executava a obra. Na Idade Média o arquiteto também era maçom (aquele que executa a obra, pedreiro); os arquitetos das catedrais góticas eram hábeis em erguer extraordinárias estruturas que precederam o tirocínio da engenharia do século 19, quando engenheiros e outros práticos construíram arquiteturas que desagradavam os arquitetos arraigados nos cânones Beaux Arts.



A responsabilidade e a complexidade da arquitetura hoje aproxima o arquiteto da concepção renascentista do criador imbuído de educação universal. Ou antes, Vitrúvio escrevia em seu Tratado de Arquitetura: “deverá ser versado em literatura, perito em desenho gráfico, erudito em geometria, deverá conhecer muitas narrativas de fatos históricos. Ouvir diligentemente os filósofos, saber de música, não ser ignorante de medicina, conhecer as decisões dos jurisconsultos, ter conhecimento da astronomia e das orientações da abóbada celeste.” Quem prosseguir na leitura do Livro 1 perceberá que Vitrúvio tratava de saberes que dois mil anos depois têm outras configurações. Mas a semântica fundamental prevalece. O arquiteto vitruviano tem seu lugar no mundo contemporâneo, com mais saberes e fazeres agregados.


Penso que João Filgueiras Lima, o Lelé, é um arquiteto vitruviano. Mas ele tem o perfil do homme d’usine na concepção de Jean Prouvé, ou do master builder pensado por Waltrer Gropius. Lelé também é aquele que oferece aos amigos um CD com músicas de sua composição e interpretação. Recordo de o pianista Marcelo Bratke contar-me de suas conversas com Daniel Libeskind, também um músico. Não caberia no limite deste artigo listar os cineastas, dramaturgos, escritores, artistas plásticos, performers e outros criadores que saíram das escolas de arquitetura, mesmo que nunca tenham realizado arquitetura no sentido convencional. Há um substrato na arquitetura que não se evidencia no edifício, na cidade, mas está imbricado naqueles que os concebem e realizam. Uma imbricação que permite dizer até que arquitetura é arte. Na realidade, arquitetura é arquitetura.


Hugo Segawa é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.