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sábado, 10 de outubro de 2015

A função social do arquiteto, Vilanova Artigas





Vilanova Artigas continua muito atual em seus ensinamentos, principalmente sobre o papel social do arquiteto. Apesar das divergências com os representantes da Arquitetura Nova, Sergio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefevre , estarem também na concepção do projeto em relação ao  canteiro de obra , tenho a singela impressão que tratava-se não de ruptura, mas também da transferência da luta fidagal e intensa dentro do próprio Partido Comunista Brasileiro-PCB com setores mais ativos entre estudantes e próximos de soluções como a resistência armada ao regime de exceção imposto em 1964. Não podemos esquecer que as duas concepções assemelham-se as decisões partidárias ou às  suas dissidências.
    A defendida pelos arquitetos em volta de Artigas , uma arquitetura libertadora dos conceitos imperialistas e enraizadas em  alianças com setores médios da sociedade e ao capital não monopolista  nacional-desenvolvimentista, defendendo o desenho como técnica a serviço da produção nacional e outra da Arquitetura Nova a posição  radical contrária com qualquer forma de aliança externa ao proletariado e suas formas de opressão, inclusive a hierarquia da produção e da técnica como referencial do mesmo.
    Também deixamos claro que   em nenhum documento apresentado pelas duas alas houveram ataques  nominais ao ponto que o próprio Flávio Império produzir o "Aprendi aprender com você" em 1985 ano do falecimento de Artigas, um ano antes desse primoroso texto auto crítico e que termina com a homenagem ao Rodrigo.
    Elucidador desse momento tão importante de nossa história, no qual defendo que são posições complementares tirando o dogmatismo tão presente naqueles tempos.
    Cabem aos que ficaram entender e evoluir esses pensamentos.
    
Arquiteto e Urbanista Victor Chinaglia




A função social do arquiteto.

Texto datado de 28 de junho de 1.984, de Vilanova Artigas




Para nós, o Brasil do período pós-45 tinha semelhanças com a década de 20 pós –revolucionária européia. Havia a oportunidade para fazer uma revolução social no Brasil, com a queda de Vargas. Talvez tenha sido um idealismo filosófico a postura que então abracei: conhecer os problemas do povo, consolidar a paz internacional, contrariamente aos que desejavam que a guerra se prolongasse, contra a URSS.

    É nessa época que participava politicamente, como militante do PC, desenvolvendo uma prática leninista; projetava o Edifício Louveira; idealizava o estádio de futebol do São Paulo. O que mostra que é possível ser cidadão e artista, ao mesmo tempo. É dessa época também o artigo “Caminhos da Arquitetura”.


     Nesse texto, parto da constatação da impossibilidade de o capitalismo resolver a temática social, e obter a harmonia entre as necessidades sociais, a arquitetura e o desenvolvimento histórico do país. Esse artigo é válido até hoje, e o final dele – onde afirmo que até lá, até que a arquitetura tenha a suma glória de ser discutida nas fábricas e nas fazendas, não haverá arquitetura popular – também é válido ainda. Afirmo a necessidade de uma atitude crítica em face da realidade. Mas reservo o direito do arquiteto pensar utopicamente.

    

     Utopia. Brasília cercada de favelas. De formulação tipicamente Ville Radieuse, década de 20,
 as quatro funções da Carta de Atenas. Mas onde o homem está nelas ? Qual homem ?
O que ele é ?

    A arquitetura brasileira não tem merecido a atenção dos intelectuais, exceto de um pequeno grupo que se interessa por arquitetura. Mas há, por exemplo, a bela análise do filósofo alemão Habermas, Modernidade versus Pós -Modernidade.

     Em 1962, fiz o projeto para o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, minha universidade, campo cultural onde sempre trabalhei. Este prédio acrisola os santos ideais de então: pensei-o como a espacialização da democracia, em espaços dignos, sem portas de entrada, porque os queria como um templo, onde as atividades são lícitas.

     Com o golpe de 1964, e vinte anos depois, os problemas do Brasil são de tal ordem, as cidades que dobrarão de população em vinte anos, o que significa o dobro de casas, o dobro de empregos, que o arquiteto exaspera-se, como profissional.

     Hoje, sou conservador. Penso que o simples diálogo casa/ edifício é suficiente para perceber o diálogo cultural de uma época . Creio que o desenho passa a extravasar o edifício, passa a ser desenho ambiental. E por isso sou conservador: não se deve demolir, mas conservar o patrimônio arquitetônico que já temos.

    Reafirmo as posições de 1953: só mudanças profundas, na estrutura em que vivemos, poderão trazer o equilíbrio entre as formas arquitetônicas.

Desejo dedicar esta aula a meu discípulo e amigo Rodrigo Lefévre, que morreu recentemente pela função social do arquiteto brasileiro.