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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Álvaro Cecchino , pioneiro de uma cidade camarada.

Álvaro Cecchino, o homenageado .



Ser socialista é ser o homem do séc. XXI
              Salvador Allende

   Álvaro Cecchino entra em contato com o Partido Comunista em 1934 durante sua gestão como diretor e fundador do Sindicato dos Bancários do Brasil ,com sua sede na capital federal e ele atuando em São Paulo.

  Combativo, agentes infiltrados tentavam difama-lo ao ponto de conseguir sua expulsão do PCB, em vão segue o relato encontrado por mim no Arquivo do Estado de São Paulo:

“ A directoria começa por encobrir o que se passou, aos seus associados, por ser Cecchino muito sympathizado à classe e no momento, julgam que seria uma catástrofe relatar o acontecimento. Na noite em que estive na ALN notei que não se conformaram com a notícia do facto acima citado....Hoje( dia 10) estive almoçando com Cecchino e notei que não é o mesmo enthusiasta de outrora- São Paulo 31/07/1935”.

  Equívoco dos verdugos e provavelmente Álvaro tenha sido o único americanense a participar da Aliança Nacional Libertadora- ANL, frente antifascista e protagonista da insurreição armada de 1935.

   Ação não concretizada, ele assume o cargo de chefe de secção do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários de 1935 à 1938, quando pede demissão e     decide retornar à Americana. Trabalha como comerciário e após alguns anos participa da fundação da CITRA- Cooperativa Industrial de Trabalhadores e que pregava a distribuição de lucros aos associados e ausência da figura do patrão.

  Funda a tecelagem DISTRAL, descrita novamente por agentes do governo como “foco de criação de autênticos líderes comunistas, como exemplo Paulo Morões , Alcides Dias Freitas, Romeu Sturari, Antonio Leão e Miguel Domingos da Costa” , segundo relato do DOPS em 1958.

  O PCB conquista a legalidade em 03 de setembro de 1945, Cecchino além de ser seu secretário político, oferece um imóvel para ser a sede da legenda, que assim ganha novos filiados e encabeça uma série de movimentos reivindicatórios na cidade.

  A cassação do PCB, apenas 20 meses depois, em 07 de maio de 1947, fez que a recente e já antiga sede fosse alugada pelo governo do Estado de São Paulo, cujo  governador Adhemar de Barros envia um patético telegrama entregue pelo delegado da cidade Joaquim Pupo ao  Cecchino , em agradecimento ao gesto patriótico em aluga-lo ao Tiro de Guerra.

 Visita a URSS em 1953, ao retornar promove palestras e debates com exibições cinematográficas, muitas vezes realizadas na rua de sua casa.

  Deixa a secretaria politica do PCB em 1958 para seu camarada Romeu Sturari e assume a secretaria de agitação e propaganda, chegando a financiar   publicações do partido e na mídia privada em defesa do socialismo.

  Sua capacidade de dirigir o capital e promover a organização do proletário, aumenta seu prestígio no PCB, ao ponto de hospedar Luiz Carlos Prestes em sua chácara em 1963, véspera do golpe militar.

Álvaro Cecchino com Prestes em Americana.

  Preso em 1964 é solto, mas sem antes tentarem humilha-lo levantando as difamações de 30 anos atrás e o chamando de velho e doente para ser um perigo à nova ordem. Vale lembrar que a idade média de um camponês nordestino na época era de 45 anos.

   Faleceu em 1966, fiel à suas ideias e ao Partido.


 Álvaro Cecchino representa o ser humano além de seu tempo, síntese do empreendedorismo proletário, forja da capacidade do povo em transformar uma vila em referência urbana, política e da indústria nacional ao mundo.   




A Escultura. 


     O projeto do paço municipal de americana apresentava uma grande praça onde os prédios da prefeitura era ladeado pela Câmara de Vereadores e um teatro, ao entrar ao prédio central teríamos um grande painel representando os trabalhadores.

       Ideia principal seria convidar o artista Elifas Andreato para sua criação.

                                          A grande praça ficaria limpa e livre.




A grande praça e na projeção do prédio o painel 




     O grande prefeito Dr. Tebaldi, o grande mentor do projeto elege seu substituto Erich Hetzl Jr. que me indica como interlocutor com o Dr. Oscar Niemeyer decorrente de minha amizade e vínculos ideológicos com o mestre. 



Eu, Oscar Niemeyer e Waldemar Tebaldi 


    A mim foi dada a missão de solicitar ao  Oscar Niemeyer um "novo projeto" em um novo terreno, o da União Operária.

   Ciente da importância política e os vínculos com o Dr. Tebaldi, aceitou em adequar o antigo projeto ao novo terreno, criação  no qual participei ativamente.   



Escritório de Oscar Niemeyer, onde trabalhávamos no novo paço
 

    Foi quando apresentei a proposta de homenagear Álvaro Cecchino com um  projeto de monumento  que o representa-se na  altura de sua dimensão  histórica, política e social.








   Seria composta de aço na forma que representasse a união de esforços dos trabalhadores rumo ao futuro, firme ,  participativo  na escala humana e servisse como um relógio de sol e marco  de  nosso desenvolvimento, mostrando o tempo e o norte de nosso desenvolvimento através das sombras compostas pela peça. Fiel ao lema de nosso escudo," Ex-labore dulcedo ",  do trabalho nasce  o prazer.











   Contávamos para tanto com a expertise dos profissionais de nosso observatório municipal, vontade das entidades sindicais ,  patronais e a  doação do novo terreno pela União  Operária e claro o a poio do autor do projeto, o mestre Oscar Niemeyer.












    Fiz questão de apresentar o projeto a ele, e firme como sempre achou mais que justa.

   O tempo passou, houve a alternância de poder e como Lênin escreveu "Um passo à frente e dois par'atrás " enquanto uns destroem o sonho.....


A maquete original do Paço, hoje destruída. 


Fazendo a maquete do monumento



        Nós a reconstruímos em maquete,  ....na certeza de sua construção na forja 
e luz, na leveza da utopia e a dureza da luta!! 







   

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A Pampulha, Dr. Oscar falou e a Bossa Nova tocou.

   O Dr. Oscar, sempre me falou que o inteiro de sua obra estava dividido em três etapas, a primeira da Pampulha à Brasília, sendo seus pontos a capela e a matriz, e daí para o Memorial da América Latina, indo aos dias atuais.



  
    Impossível conhecer todas as obras desse mestre, que foi do Brasil para Argélia, Europa ao Cazaquistão, cuja produção, longe das estrelas atuais da propaganda globalizada, é comparada em importância ao Michelangelo.

   Conheci pessoalmente a Capela da Pampulha na última sexta dia 13, ao me aproximar tive uma sensação diferente, tive a certeza que tinha encontrado o elo perdido da arquitetura moderna, a lembrança fala do mestre me guiava.

   Não a vi como fã do arquiteto apenas, mas numa leitura de nossa história, do povo e do país.

   Sua construção da capela se deu entre 1942 e inaugurado em 16 de maio de 1943 com a presença de Getúlio Vargas e o prefeito Juscelino Kubitschek. O complexo inteiro atual foi em 1944, período da virada e vitória aliada na 2° Guerra Mundial, distencionamento político entre as potencias liberais e socialistas.

   Comunhão artística da vanguarda do mundo progressista, final do horror fascista e seus monstros, inclusive na arquitetura.




O profano e público- Painel Portinari 
O religioso - cultural e privado- Portinari



O uso de abóbodas rompendo o registro previsível da alvenaria, telhado e relevos desnecessários nas construções.A divisão  entre o público e o privado, o profano e sagrado, do desenho  de tradição burguesa foi rompido. 


Portinari em primeiro plano


Painel de Paulo Werneck

   A estrutura simples calculada por Joaquim Cardoso, longe das vigas, pilotis e todos os formalismos da arquitetura estilo internacional de Corbusier e companhia, trouxe o início da arquitetura genuinamente brasileira atrelada à necessidade desenvolvimentista da tecnologia e da engenharia, no caso, o concreto, soberba nacional revelada ao mundo.

  O jogo de luzes provenientes dos trópicos, a religiosidade como tradição cultural e narrativa, o poder de criação positiva frente à adversidade social e econômica do povo aí estão descritas com muita sensibilidade.




   O planejamento realizado por marcos arquitetônico, fugindo do quadrado da praça com seu palácio, cadeia e igreja são substituídas pelo cassino, clube, capela, casa do baile e hotel devidamente projetados sobre o jardim tropical de Burle Marx. Símbolos dos novos poderes econômicos, nacional e aberto ao mundo,  e que seria sonorizado pela Bossa Nova 10 anos depois. 






   Encontro  que poderia ser reduzido em tempo, se não fosse pela tragédia da eleição de Dutra, que proibiu o jogo e as liberdades políticas em 1946, colocando o partido de Oscar Niemeyer e Portinari na ilegalidade.

   Somente em 1959 houve uma missa católica no local, pois o padre achava que a forma era uma provocação dos comunistas e alusão à foice e o martelo.
   
   A Casa do Baile fechou dois anos após o cassino em 1948 e o Hotel nunca foi construído.


Será??? Onde esta a foice e o martelo??


  Do país do futuro nos transformamos numa província nos anos que se passaram entre 1964  e 1985 , narrada esplendidamente em Saramandaia de Dias Gomes, nas peças de Ariano Suassuna e em filmes de Gláuber, claro, ao som da Bossa. 

  Cabem-nos narrar uma nova história, que apesar de breve e interrompida é nossa e com lastro cultural intenso, como o Dr. Oscar falou.


sábado, 7 de setembro de 2013

Arquiteto Victor Chinaglia, fala durante a abertura solene da 1ª Conferê...




  A 1° Conferência do CAU/SP representou a retomada do debate sobre o papel social do arquiteto e urbanista na produção de tecnologia e de capital, seu papel no campo do trabalho e sua aliança estratégica com os demais trabalhadores dentro do canteiro de obra e sua contribuição na construção de sociedade mais igualitária capaz de gerir uma cidade justa, desenvolvimento nacional soberano e tecnologia independente.

  Para tanto é necessário  não desassociar o trabalho intelectual do braçal ,  a arte do ofício e o desenho da produção, fortalecendo assim a aliança os que realmente produzem as riquezas nacionais, os trabalhadores.

  Intensos debates tratados nos dois dias da Conferência, trouxeram de volta os nomes de Artigas, Sérgio Ferro,  Rodrigo Lefévre, Lelé Figueiras que foram citados com insistência e temas como reforma urbana, canteiro de obras, moradia social e cidades democráticas foram exaustivamente  aprofundados. 

  O reencontro do arquiteto e urbanista com a sociedade!