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sábado, 28 de junho de 2014

Sergio Ferro, texto na "MÓBILE, A REVISTA DO CAU/SP"


    Móbile,a revista do CAU/SP N° 1 publicou   texto de nosso professor e colega Sérgio Ferro para a seção Tapume, espaço para  aprofundar os estudos sobre as relações do trabalho no canteiro de obra, no qual nós arquitetos participamos profundamente, cabendo  ao profissional entender seu papel   e a realidade da luta de classe na cadeia produtiva da construção civil , assim podendo dialogar com a sociedade com a coragem que criamos e formamos  nosso conselho, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo.  


Arq. Urb. Victor Chinaglia

Coordenador da Móbile







TAPUME




“A transformação do trabalho em capital é, em si, o resultado do ato de troca entre capital e trabalho. Esta transformação é posta apenas no processo de produção mesmo.”

K.Marx. Para a Critica da Economia Politica, Manuscritos de 1861-1863. Autêntica Editora, 2010, p 180.

       




   Para os de fora, o tapume provoca um efeito de caixa preta. Lá dentro, operações misteriosas encaminham os meios de produção na direção do produto final. Não vemos estas operações. O tapume as oculta apesar de sua função técnica – proteger o exterior do que pode ocorrer no interior e o interior das invasões do exterior – não implicar a barragem da visão. Ele impede, portanto, a observação da produção sem que haja nenhuma razão objetiva para fazê-lo. Invisível, pouco a pouco, o trabalhador coletivo, sempre numeroso na construção, da forma e consistência ao “jogo sábio dos volumes sob a  luz” e desaparece no fim do processo. Poderíamos quase destacar um principio que rege a retirada dos tapumes : ela ocorre quando, recheadas de muita mais-valia, as edificações não deixam mais ver que são o produto da mão do homem. Ou seja, a edificação somente abandona esta provisória pele encobridora quando adere definitivamente à mascara do desenho denegador, quando o tempo de sua gestação é imobilizado pela simultaneidade no jogo dos volumes. Sob a mascara passageira, não surge a verdade – mas outra mascara petrificada. E o que foi tempo vivo de produção (oculto) torna-se valor por um lado, por outro, um fetiche.  
        

  O tapume opera como fetiche: encobre o lugar em que a violência passada reproduz-se. Somente no canteiro a perversidade da troca aparentemente justa entre salário e força-de-trabalho revela sua injustiça. Somente então o pressuposto desta troca – a apropriação pelo capital de todos os meios materiais de produção e a transformação da força-de-trabalho obrigatoriamente em mercadoria – entra na efetividade. A subordinação do trabalho vivo, consequência da troca, posta pelo processo produtivo, desmascara a paz igualitária do ato jurídico: o intercâmbio “justo” entre trabalho e capital mostra-se como exploração desavergonhada da força-de-trabalho pelo capital. O momento concreto desta inversão entre a aparência justa da troca e a desigualdade que pressupõe, este salto entre a equidade abstrata e a subordinação efetiva seria revelador demais para aparecer sem mais. Em geral, o zoneamento territorial e a fortificação quase militar das unidades de produção afastam da vista da coletividade esta passagem à verdade. Mas a construção não pode ser isolada em zonas  especiais. Ela necessariamente espalha-se pela cidade. O tapume, então, faz as vezes do impossível zoneamento. Separa o espaço interno da produção do exterior pelo tempo em que ela dura.
      

     Mas no fetiche o que não deve ser visto contamina o que impede de ver. Sabemos ou pressentimos que atrás dele há alguma variante da castração. Somos tentados a procurar o buraco que permitira ver a verdade, como voyeurs. Se há o que esconder, deve haver alguma coisa sórdida do lado de lá. Mas a verdade não é visível. Nada exteriormente revela a trapaça. Sob o que impede de ver, não há nada a ver, a não ser o impedimento de ver: salvo exceção, a violência moderna esta interiorizada. E o impedimento de ver trai a fobia de deixar ver, com o que revela que ha algo a não ver. Somente a máscara denuncia o porque da necessidade de mascarar. 
       


  O tapume, em geral, é tosco, elementar – obviamente non-finito. Para a estética oficial indicaria o sublime, o insimbolizável, o que não tem nome, o real ou coisa do gênero. Muitas vezes, sobretudo nas obras menos sofisticadas, é mal feito. Le Corbusier poderia apor a  legenda que imaginou para a janelinha que saiu torta por causa de uma fôrma que cedeu em La Tourette: “por aqui passou a mão do homem”. A referência explícita ao trabalhador só é admissível quando ele falha. Expulso da obra pelo projeto encobridor (o qual em geral desenha uma obra imaginária sobre a real, para que o operário real desapareça sob um outro imaginário), ele, enquanto dura a produção, é indicado no exterior, no tapume, por um trabalho sumario, pouco qualificado e obviamente inadequado se sua função fosse realmente proteger o interior do exterior ou o exterior do interior. A aparência instável e efêmera do tapume desmente sua função declarada. Mas sua função latente tem sucesso: no único lugar em que o trabalho deixa vestígios evidentes sua suposta imperícia fica demonstrada. Poucos se lembram que, mesmo então, a força de trabalho está sob o regime da heteronomia. No mais, outros vestígios seus, temporariamente encobertos pelo tapume, sumirão no fim da obra. Como num passe de mágica, o escondido mostra-se na coisa encarregada de escondê-lo – mas de tal modo que o escondido, mostrado como não é, continue escondido sob sua desocultação. Surpresas do sublime.
     

    Do outro lado do tapume, há o outro, um outro anônimo, sem identidade. Encurralado, enjaulado (às vezes concretamente), ele nos parece ameaçador. O preso, à priori, tem ar suspeito. Mais ainda quando, no fim da obra, o tapume desengonçado, frequentemente feito de restos, é retirado e, com ele, os trabalhadores que passam de ocultos a ausentes. A obra então sai de seu invólucro obtuso como call-girl do bolo de aniversário do gangster, bem maquiada e com as rugas colmatadas, como se fosse novinha em folha, sem nem sinais de uso. Por abdução, o mais pobre dos automatismos do entendimento, a emergência festiva do produto acabado do duvidoso invólucro, o sombrio tapume, contrasta a limpeza do resultado visto como fruto do bom desenho com a sujeira caótica do canteiro, seguramente mal frequentado. Quando o tapume é retirado e a produção cessa, tudo se passa como se a ordem e a segurança voltassem a reinar para o bem de todos. E nada parece mais justo que a evacuação dos trabalhadores do local, agora impróprio para sua selvageria.
    
      Se não há nada terrível a ver no outro lado do tapume, assim mesmo o que não vemos tem parentesco com o monstruoso. O cidadão manufatureiro, teoricamente livre, tem que abdicar de sua liberdade – contrariando o cínico mandamento das constituições “democráticas” que declaram tal abdicação, a da enorme maioria da população, inconstitucional. A artimanha transforma o roubado em culpado pelo roubo. A oligofrenia imposta à força-de-trabalho, pressuposição para sua exploração, aparece como posta, auto imposta por ela mesma ao aceitar sua troca por salario, como se houvesse alternativa. A desgraça ganha o reforço da culpa. A mutilação do cidadão “livre” passa à condição de automutilação. Ele deve obediência total, surdez a si mesmo, enquanto a organização manufatureira impõe que escute sua própria competência. Em vez da elegância dramática do “ser ou não ser”, a questão passa a ser e não ser ao mesmo tempo, paródia de dialética. Como num lapsus, é esta tortura invisível que o tapume tenta inutilmente tirar da vista – com o que a indica.
    
      O tapume é um recurso eurístico: permite que a produção das obras, tal como ela ocorre hoje,  se apresente como um processo lógico e necessário e seus mistérios (porque as obras se fantasiam de outras obras ?) como sutilezas estéticas. Se seguíssemos a produção passo a passo, sua irracionalidade faria desconfiar destes argumentos. Nenhum canteiro resiste à interrogação lúcida. A anormalidade é sua norma. Isto sim, o tapume oculta. O mágico que serra a moça esconde o lugar em que aparentemente serra numa caixa. O empreendedor manufatureiro não serra moças. Mas serra o operário, entre a mão e o cérebro, exigindo, entretanto, que continuem unidos. Ainda isto o tapume pretende ocultar – mas somente os de dentro, por dentro, sentem o corte. O amontoado de operações ilegítimas e heteróclitas que requer a subordinação obriga a prudência de tudo esconder, com ou sem razão. Seria mais um absurdo supor que a irracionalidade procede sempre racionalmente.
        
  As grandes empresas cuidam da aparência do tapume. Ao contrário das que visitamos até agora, são mais apuradas e recobrem operários uniformizados com capacetes e equipamentos de segurança. Querem impressionar com a representação de progresso no processo de produção. Mas como este progresso limita-se em geral à passagem somente aparente da subordinação formal à real (na verdade substituição da manufatura serial pela heterogênea), a aparência é encarregada de fingir a passagem fictícia. O tapume deixa ver então estes operários uniformizados e guindastes transportando peças pré-fabricadas – o capital acredita ainda que todos esperamos o dito progresso das forças produtivas figurado por estes ersatz de industrialização. O momento produtivo escondido anteriormente agora aparece parcialmente em algumas vitrines que sugerem sábia organização de produção avançada. Uniformes e guindastes ocupam o lugar de máquinas. Mesmo quando deixa ver, o tapume mascara.
        

  O tapume, como o desenho de arquitetura, serve à denegação da produção. Ele antecipa seus efeitos. Por isto some quando o desenho cumpre totalmente sua missão.






Sérgio Ferro é arquiteto, pintor e professor da Escola de Arquitetura de Grenoble. Foi professor da FAU USP entre 1962 e 1970. É autor de O Canteiro e o Desenho (Editora Projeto, 1979) e Arquitetura e Trabalho Livre (Cosac Naify, 2006) entre outros livros.