O Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado de São Paulo -SASP realizou reunião no dia 22 de abril com a nova Cônsul Geral de Cuba no Brasil Lic. Nelida Hernándes Carmona para estreitar laços de solidariedade e troca de experiências tecnológicas e científicas entre as instituições dos dois países. Numa conversa formal mas extremamente fraterna expusemos o projeto do concurso nacional do SASP cujo o prêmio estudante será uma viajem ao país caribenho e até relações de intercâmbio de conhecimento do papel efetivo do arquiteto e urbanista na sociedade.Essa matéria foi produzida pelo jornalista Paulo San Martim em exclusividade para nossa entidade e que merece a devida repercussão .
Arq. e Urb. Victor Chinaglia
Diretor Jurídico SASP
O modelo de apoio do governo de Cuba aos projetos de
construção, ampliação e reforma de habitações populares – com seus “arquitetos da
comunidade” – foi um dos principais temas debatidos no encontro entre o
presidente do SASP (Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo), Maurílio
Chiaretti, seu diretor Victor Chinaglia e a cônsul Geral de Cuba na Capital
paulista, Nelida Hernández Carmona.
O encontro foi
realizado a pedido da diretoria do SASP para propor projetos de intercâmbio
entre arquitetos brasileiros e cubanos e ocorreu na sede do Consulado Geral da
República de Cuba em São Paulo, na semana passada. Também participaram do encontro Viviane Prado,
que representará o SASP no encontro da Federação Internacional das Mulheres (FDIM),
em Havana, em novembro, e o doutor Ifrahim Miranda León, adido diplomático do
consulado cubano.
Os diretores do SASP
também solicitaram o encontro para comunicar oficialmente ao Consulado sobre o
concurso que o sindicato começa a promover entre arquitetos e estudantes de
arquitetura brasileiros para a construção da sede da Colônia de Férias do
Sindicato dos Jornalistas profissionais do Estado de São Paulo.
“O concurso será a
realizado em parceria entre os dois sindicatos e a premiação do vencedor categoria estudante será uma
viagem a Cuba, país que tem uma importante história de arquitetura
popular que nós, brasileiros, precisamos conhecer melhor”, afirmou Maurílio.
A cônsul agradeceu a
ideia do prêmio e lembrou que Cuba tem também fortes apelos turísticos,
valorizados no mundo inteiro, mas ainda pouco conhecidos no Brasil. Ela
prometeu fazer gestões com as autoridades do setor, para valorizar e estimular
a presença de arquitetos e estudantes brasileiros em terras cubanas.
ARQUITETURA CUBA E
BRASIL
As escolas de arquitetura
brasileira e a cubana mantiveram uma forte relação de intercâmbio e troca de
experiências, nas décadas de 1950 e 1960, mas ela foi gradualmente rompida a
partir do golpe civil militar de 1964 no Brasil. “Essa história, aliás, foi
brilhantemente relatada por um colega nosso, o arquiteto e urbanista César
Dorfman, em seu livro ‘Havana 63’, publicado pela Editora Movimento”, lembrou
Chinaglia.
Cuba, após a
revolução socialista de 1959, viveu uma ampla experiência de combate ao déficit
habitacional que, em poucas décadas, eliminou completamente milhares de
sub-habitações e favelas que existiam no país.
“Na década de 1960,
Cuba teve a mais desenvolvida indústria de construção de casas e apartamentos
das Américas e talvez do mundo. Hoje, as demandas de Cuba são outras, mas a
luta para vencer o nosso imenso déficit habitacional é crucial no Brasil”, afirmou
Chinaglia. “E a proposta de retomarmos o intercâmbio permitirá que absorvamos
um pouco do conhecimento tecnológico desenvolvido em Cuba nessa área”.
ARQUITETOS DA
COMUNIDADE
A moderna experiência
da arquitetura cubana de apoio às construções e reformas de habitações
populares também poderá fornecer “muitos subsídios”, segundo Chiaretti, para
projetos semelhantes aos que o SASP planeja implantar em cidades paulistas.
A cônsul cubana e seu
adido León relataram a experiência já amplamente consagrada em Cuba dos
chamados “arquitetos da comunidade”. Instalados em escritórios equipados, em
praticamente todas as cidades cubanas, os arquitetos da comunidade são pagos
pelo governo cubano e têm a missão de assessorar, elaborar projetos e
acompanhar as obras de projetos de edificação ou reformas, que podem ser
solicitados por qualquer cidadão cubano.
“O governo cubano
também fornece o material para as obras”, relatou a cônsul. Assim, o morador
será responsável apenas pelo pagamento da mão de obra da construção. “Mas como
toda a população cubana tem o hábito do trabalho em sistema de mutirão, o custo
de novas construções populares ou de reformas é quase zero para o cidadão”,
explicou León.
O projeto semelhante
que, segundo Chiaretti, o SASP estuda implantar – em parceria com outras
associações de arquitetos – em cidades paulistas pretende justamente dar apoio
à população de baixa renda em projetos de construção de habitações populares. “As
características aqui seriam diferentes, pois os escritórios teriam que atuar
também no apoio à regularização dos imóveis e, até, na orientação para a busca
de financiamentos habitacionais. Para nós, seria muito importante conhecer o
programa dos arquitetos comunitários em Cuba, para sabermos como ele atua nas
diferentes realidades geográficas e urbanas uma vez que temos a Lei 11.888, de autoria do saudoso arquiteto Zezéu
Ribeiro, que trata da da Assistência Técnica. A lei é de 2008, mas ainda não
foi regulamentada e implantada”, avaliou.
Chinaglia afirmou que, ao contrário do que aconteceu com
o Mais Médicos, o Brasil tem arquitetos e urbanistas dispostos atuar nessas comunidades mais distantes e
carentes. “Mas falta uma política de Estado para o setor. Uma política que
remunere os profissionais e trate a cidade como fonte de conhecimento e
tecnologia nacional”, afirmou.
MAIS MÉDICOS
A forma de atuação
dos arquitetos cubanos é, segundo León, muito semelhante a dos médicos, que
ficaram conhecidos no Brasil recentemente através do programa Mais Médicos. Para
ele, os médicos e a população cubana têm uma formação estritamente humanista.
“O médico cubano é formado com uma concepção diferente. É como um sacerdócio. Temos
muitos médicos em Cuba e o atendimento que eles dão à população é direto.
Qualquer pessoa que tenha um problema, à hora que for, à noite, bate na porta
do médico e é atendido”, relata.
Essa formação
humanista, avalia León, é que leva um grande número de médicos cubanos a rodar
o mundo para auxiliar países e comunidades que precisam e solicitam auxílio
médico, como ocorre no Brasil com o programa Mais Médicos.
“O balanço que
fazemos hoje dos médicos cubanos que estão atuando dentro do programa, em todo
o Brasil, é muito positivo. Eles têm sido bem acolhidos pela população que está
muito agradecida. A maioria da população atendida pelo Mais Médicos nunca antes
havia sido consultada por um médico, pois não possui recursos para isso e vivem
em locais sem assistência pública”, relatou a cônsul.
Nelida lembra que os
médicos cubanos têm atuado nas regiões mais pobres e desassistidas do Brasil,
inclusive em aldeias indígenas e povoados longínquos no meio da floresta, além
de bairros periféricos de centros urbanos. “É importante lembrar a forma como
se deu a participação dos médicos cubanos no programa. Primeiro, foi feito um
chamamento aos médicos brasileiros, depois aos médicos brasileiros formados no
exterior. Como faltaram inscrições para atender a estas áreas mais difíceis,
foi feito um chamamento aos médicos estrangeiros, ao qual um grande número de
cubanos atendeu”, explica Nelida.
ÁFRICA E ÉBOLA
León diz que, na
África, a atuação dos médicos cubanos também tem sido decisiva para conter a
atual epidemia de Ébola, que já matou mais de 10 mil pessoas, em diversos
países daquele continente. A epidemia já foi contida em alguns países, como
Nigéria, Senegal e Mali, e desacelerada em outros, como Libéria, Guiné e Serra
Leoa.
“A ajuda de vários
países foi fundamental para deter o ciclo da doença, mas os médicos que
realmente tiveram contado direto com os doentes foram os cubanos. A ajuda dos
outros países foi basicamente com medicamentos e tecnologia”, relata León. Ele
conta o caso de um médico cubano que chegou, diante de uma situação extrema, a
carregar nos braços, sem proteção, um garoto contaminado pelo vírus. “O médico
adoeceu, foi levado às pressas para a Suíça para se tratar e, uma vez curado,
decidiu voltar de novo para a África e continuar seu trabalho”, lembra.
A liberdade das mulheres cubanas
As mulheres cubanas vivem uma relação única de igualdade
de gêneros, diferente da situação da maioria das mulheres latino americano e
por isso uma representante cubana, Anícia Campos, foi eleita para coordenar na
América Latina, nos próximos dois anos, a Federação Internacional das Mulheres
(Fdim).
Essa avaliação sobre a eleição de Anícia, que ocorreu no
mês passado em El Salvador, foi relatada à cônsul Nelida Hernández Carmona por Viviane
Prado, que representará o SASP no encontro da Fdim, em Havana, em novembro.
“Cuba avançou muito nesta questão e os relatos,
experiências e informes apresentados nos últimos encontros da Fidim deixam
claro a grande diferença da situação das mulheres em Cuba. Esta foi uma das
razões pela qual decidiu-se fazer a comemoração em Cuba dos 70 anos da Fdim”,
informou Anícia.
Pelo fim do embargo
O fim do bloqueio econômico, estabelecido pelo governo
dos Estados Unidos na década de 1960, é uma das principais batalhas
diplomáticas que Cuba trava hoje e o apoio da população e de entidades de
classe brasileiras ajudará a sensibilizar a comunidade internacional sobre a
questão. A partir desta avaliação, a cônsul Nelida Hernández Carmona pediu,
durante o encontro, apoio do SASP nas gestões do governo cubano para o fim do bloqueio.
Em dezembro do ano passado, Estados Unidos e Cuba
reataram as relações diplomáticas que haviam sido rompidas unilateralmente
pelos Estados Unidos há 53 anos. No entanto o bloqueio foi mantido, embora os
dois países mantenham negociações para encerrá-lo, mas sem nenhuma previsão de
data.
“O reatamento das relações foi um avanço, sem dúvidas.
Cuba em uma situação melhor, na verdade ‘menos mal’ do que antes, mas o
bloqueio nos causa sérias dificuldades econômicas. O comércio internacional e
todos os ramos da economia – e da saúde, inclusive – têm sido duramente
atingidos pelo bloqueio”, afirmou Nelida.
SOCIALISMO
Nelida afirmou que Cuba tem agido com “a melhor
disposição” para o reatamento completo das relações diplomáticas. “Temos
demonstrado isso claramente em nossas ações, mas não vamos mudar o socialismo.
Somos dialéticos e como dialéticos estamos tomando medidas dentro da nossa
economia para mudar, para melhorar e viver este novo momento. Mas nossas
mudanças ocorrem dentro do socialismo”, garantiu ela.
A cônsul relatou que existem, no próprio Estados Unidos,
muitos empresários com intenções já definidas de realizar comércio com Cuba.
“Mas isso ainda não é possível porque o bloqueio não foi levantado”, disse.




