A Móbile, a Revista do CAU/SP tem a seção de debates que é mais uma provocação em pensar arquitetura, na edição #2 o tema foi "O que é boa arquitetura?", ao olhar pelos lados e vivermos em cidades tão exclusivas e competitivas deixam dúvidas , os arquitetos e urbanistas Silke Kapp e abílio guerra aqui ajudam a pensarmos uma resposta, boa leitura.
arq. e urb. Victor chinaglia
coord. da móbile, a revista do cau/sp
o que
é boa
arqui
te
tura?
Afinal, a quem serve a arquitetura? Ela deve enfrentar de forma
inventiva a coletividade de determinada época ou abrir brechas nos mecanismos
de dominação da sociedade?
Admitamos,
por ora, que arquitetura seja coisa feita por arquitetos. Tal como a exercemos,
a profissão dos arquitetos pressupõe uma sociedade desigual, porque se funda na
separação entre trabalho material e trabalho intelectual e se institucionaliza
num processo histórico de especialização que Bourdieu chamou de “divisão do
trabalho de dominação”. Nesse sentido, não existe boa arquitetura.
No entanto,
a divisão do trabalho de dominação gera um aparato tão sofisticado e emaranhado
que seus agentes perdem a noção daquilo que realizam socialmente.
São levados a
tomar suas próprias fantasias e (boas) intenções subjetivas por resultados
sociais objetivos. Um passo na direção de uma arquitetura melhor seria
suspender tais ilusões e compreender os reais papéis sociais da arquitetura dos
arquitetos, isto é, as heteronomias que ela impõe ou para as quais contribui
substancialmente.
Penso que
essa empreitada crítica abrange pelo menos quatro dimensões. A primeira é a
heteronomia imposta à produção no canteiro, cuja teorização a partir de Marx
devemos sobretudo a Sérgio Ferro. A segunda é a heteronomia no ordenamento
espacial da sociedade, tal como analisada por Henri Lefebvre. A terceira é a
heteronomia das distinções simbólicas, que não apenas ilustram diferenças de
classes, mas são diferenças de classes, como mostrou Pierre Bourdieu. E a
última é a heteronomia do adestramento funcionalista de corpos e gestos, que
foi tematizada por muitos autores ao longo do século XX (talvez por ser a de
combate mais fácil). Sem as atividades que os arquitetos exercem agora, os
trabalhadores do canteiro talvez decidissem por sua conta o que fazer e como,
os cidadãos negociariam entre si o território coletivo, o repertório simbólico
seria fruto de imaginação e juízos livres, e não haveria cockpits e
Disneylândias em que cada movimento dos ‘usuários’ foi previamente determinado
por alguém.
Toda
arquitetura que abra brechas nesses mecanismos de dominação é boa – pelos menos
nos limites de uma sociedade não emancipada.
SILKE KAPP -
Professora da Universidade Federal de Minas Gerais
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| Campo de Concentração americano de Manzanar |
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| Condomínio Residencial Recreio do Pontal |
ARQUITETURA PARA HOJE
Na tradição
ocidental, a arquitetura é uma das três artes plásticas: como na pintura e na
escultura, a rotina e o intelecto convertem matéria em objeto artístico. No
século I a.C, Vitrúvio ressalta que além da venustas (beleza) e da firmitas
(solidez), a arquitetura tem compromisso também com a utilitas
(utilidade). Durante séculos, este elemento de distúrbio fica sob controle,
pois a função social da arquitetura era demasiado estreita.
A cena muda
com a Revolução Francesa. As artes ocupam papel ideológico estratégico na
conformação do Estado moderno burguês. A escrita das histórias nacionais vai
ter na arquitetura vigoroso sustentáculo na defesa de uma arte onde corre a
seiva da cultura nacional, enraizada no território. No início do século 20, as
vanguardas acusam a arquitetura de anacronismo: seus valores estéticos e rotina
artesanal são incompatíveis com a era da máquina; sua ambição social burguesa
não atende as demandas das camadas média e proletária emergentes. Surge a
arquitetura moderna.
O Brasil aristocrático
do início do século 20 vive de forma compacta a cena descrita. A incorporação
dos valores modernistas se sobrepõe aos desafios da nação jovem, recém saída do
Império e da escravidão. É necessário ser moderno, mas também brasileiro. As
agendas do universalismo moderno e do localismo romântico se amalgamam em uma
visão de mundo peculiar, matizada mas não superada pela ideologia de esquerda
dos anos 1960 e 1970. O moderno vira tradição, reiterada por um modus
operandi estabilizado por gerações de arquitetos e consagrado por
mecanismos culturais e ideológicos – teses acadêmicas, livros, bienais,
exposições, congressos etc.
Contudo,
desde os anos 1980 ao menos três elementos impedem a esterilidade desse
processo de formação. O primeiro é a voga pós-moderna, inicialmente caricata,
mas que leva a fundo a discussão sobre o contexto urbano e o respeito pela
cidade tradicional. O segundo é a entrada em cena da agenda hipertrofiada dos
grupos sociais de base, que se desdobra em experimentos técnico-construtivos na
área da habitação social. O terceiro é a sustentabilidade, pauta oriunda da Eco
92, que não só recupera como torna central a preocupação ecológica que habita a
arquitetura brasileira desde sua origem. Reciclagem de edifícios obsoletos,
proteção do patrimônio, reurbanização de favelas, experimentos de habitação
social e desenvolvimento sustentável das cidades são atividades em curso, mesmo
que incipientes. A obra de Lelé – inspiradora por seu engajamento
sociocultural, desenvolvimento tecnológico apropriado e preocupações ambientais
– é exemplo maior de uma arquitetura obrigada a renovar sua tradição.
É possível
agora responder a questão: a boa arquitetura é a que enfrenta de forma
inventiva as necessidades espirituais e materiais de uma coletividade em uma
determinada época. Ela é engenho e compromisso. A agenda e os bons exemplos
estão aí, mas a escala de nossas deficiências é enorme. E a responsabilidade?
Bem, esta é coletiva.
ABILIO GUERRA | Arquiteto, editor e professor da FAU Mackenzie



