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sábado, 24 de janeiro de 2015

O que é boa arquitetura? Silke Kapp e Abílio Guerra


    A Móbile, a Revista do CAU/SP tem a seção de debates que é mais uma provocação em pensar arquitetura, na edição #2 o tema foi "O que é boa arquitetura?", ao olhar pelos lados e vivermos  em cidades tão exclusivas e competitivas deixam dúvidas , os arquitetos e urbanistas Silke Kapp e abílio guerra aqui ajudam a pensarmos uma resposta, boa leitura. 

arq. e urb. Victor chinaglia
coord. da móbile, a revista do cau/sp



o que
  é boa
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Afinal, a quem serve a arquitetura? Ela deve enfrentar de forma inventiva a coletividade de determinada época ou abrir brechas nos mecanismos de dominação da sociedade?

Admitamos, por ora, que arquitetura seja coisa feita por arquitetos. Tal como a exercemos, a profissão dos arquitetos pressupõe uma sociedade desigual, porque se funda na separação entre trabalho material e trabalho intelectual e se institucionaliza num processo histórico de especialização que Bourdieu chamou de “divisão do trabalho de dominação”. Nesse sentido, não existe boa arquitetura.

No entanto, a divisão do trabalho de dominação gera um aparato tão sofisticado e emaranhado que seus agentes perdem a noção daquilo que realizam socialmente. 

São levados a tomar suas próprias fantasias e (boas) intenções subjetivas por resultados sociais objetivos. Um passo na direção de uma arquitetura melhor seria suspender tais ilusões e compreender os reais papéis sociais da arquitetura dos arquitetos, isto é, as heteronomias que ela impõe ou para as quais contribui substancialmente.

Penso que essa empreitada crítica abrange pelo menos quatro dimensões. A primeira é a heteronomia imposta à produção no canteiro, cuja teorização a partir de Marx devemos sobretudo a Sérgio Ferro. A segunda é a heteronomia no ordenamento espacial da sociedade, tal como analisada por Henri Lefebvre. A terceira é a heteronomia das distinções simbólicas, que não apenas ilustram diferenças de classes, mas são diferenças de classes, como mostrou Pierre Bourdieu. E a última é a heteronomia do adestramento funcionalista de corpos e gestos, que foi tematizada por muitos autores ao longo do século XX (talvez por ser a de combate mais fácil). Sem as atividades que os arquitetos exercem agora, os trabalhadores do canteiro talvez decidissem por sua conta o que fazer e como, os cidadãos negociariam entre si o território coletivo, o repertório simbólico seria fruto de imaginação e juízos livres, e não haveria cockpits e Disneylândias em que cada movimento dos ‘usuários’ foi previamente determinado por alguém.

Toda arquitetura que abra brechas nesses mecanismos de dominação é boa – pelos menos nos limites de uma sociedade não emancipada.

SILKE KAPP - Professora da Universidade Federal de Minas Gerais







Campo de Concentração americano de Manzanar



Condomínio Residencial Recreio do Pontal





ARQUITETURA PARA HOJE


Na tradição ocidental, a arquitetura é uma das três artes plásticas: como na pintura e na escultura, a rotina e o intelecto convertem matéria em objeto artístico. No século I a.C, Vitrúvio ressalta que além da venustas (beleza) e da firmitas (solidez), a arquitetura tem compromisso também com a utilitas (utilidade). Durante séculos, este elemento de distúrbio fica sob controle, pois a função social da arquitetura era demasiado estreita.

A cena muda com a Revolução Francesa. As artes ocupam papel ideológico estratégico na conformação do Estado moderno burguês. A escrita das histórias nacionais vai ter na arquitetura vigoroso sustentáculo na defesa de uma arte onde corre a seiva da cultura nacional, enraizada no território. No início do século 20, as vanguardas acusam a arquitetura de anacronismo: seus valores estéticos e rotina artesanal são incompatíveis com a era da máquina; sua ambição social burguesa não atende as demandas das camadas média e proletária emergentes. Surge a arquitetura moderna.

O Brasil aristocrático do início do século 20 vive de forma compacta a cena descrita. A incorporação dos valores modernistas se sobrepõe aos desafios da nação jovem, recém saída do Império e da escravidão. É necessário ser moderno, mas também brasileiro. As agendas do universalismo moderno e do localismo romântico se amalgamam em uma visão de mundo peculiar, matizada mas não superada pela ideologia de esquerda dos anos 1960 e 1970. O moderno vira tradição, reiterada por um modus operandi estabilizado por gerações de arquitetos e consagrado por mecanismos culturais e ideológicos – teses acadêmicas, livros, bienais, exposições, congressos etc.

Contudo, desde os anos 1980 ao menos três elementos impedem a esterilidade desse processo de formação. O primeiro é a voga pós-moderna, inicialmente caricata, mas que leva a fundo a discussão sobre o contexto urbano e o respeito pela cidade tradicional. O segundo é a entrada em cena da agenda hipertrofiada dos grupos sociais de base, que se desdobra em experimentos técnico-construtivos na área da habitação social. O terceiro é a sustentabilidade, pauta oriunda da Eco 92, que não só recupera como torna central a preocupação ecológica que habita a arquitetura brasileira desde sua origem. Reciclagem de edifícios obsoletos, proteção do patrimônio, reurbanização de favelas, experimentos de habitação social e desenvolvimento sustentável das cidades são atividades em curso, mesmo que incipientes. A obra de Lelé – inspiradora por seu engajamento sociocultural, desenvolvimento tecnológico apropriado e preocupações ambientais – é exemplo maior de uma arquitetura obrigada a renovar sua tradição.

É possível agora responder a questão: a boa arquitetura é a que enfrenta de forma inventiva as necessidades espirituais e materiais de uma coletividade em uma determinada época. Ela é engenho e compromisso. A agenda e os bons exemplos estão aí, mas a escala de nossas deficiências é enorme. E a responsabilidade? Bem, esta é coletiva.


ABILIO GUERRA | Arquiteto, editor e professor da FAU Mackenzie



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