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sábado, 14 de dezembro de 2013

Significado da palavra arquiteto.

    A origem da palavra arquiteto é grega e vem de ARKHITEKTÔN, ou seja, ARKHI = PRINCIPAL e TEKTÔN = CONSTRUTOR.      
  No início  dominávamos  as informações do ofício,  sendo artista, operário e técnico, frequentando o campo, ele operava e, portanto um operário.
   Dominava o canteiro de obra dos templos e palácios das idades antiga e média, sua técnica construtiva e arte das riquezas dos detalhes.
   Com a revolução burguesa e toda sua divisão de tarefas correlatas ao mundo do trabalho, coube ao arquiteto apranchetar-se (sic) e conquistar seu status, distanciando-se do canteiro de obras e aproximando-se de sua nova função de dono de escritório proprietário intelectual e muitas vezes dono material dos meios de produção.
     No Brasil historicamente, a elitização da profissão acompanhou as outras carreiras, pela dificuldade de adentrar ao curso superior acentuada ao precoce ingresso  dos filhos de trabalhadores  no mercado de trabalho , difíceis processos seletivos das melhores escolas públicas e as  poucas vagas nas faculdades de ponta, transformaram   estrategicamente as universidades em  formadoras de quadros da burguesia.
    Prevaleceu o arquiteto com atribuições de projeto desassociado ao canteiro e preso ao estilo eclético europeu, importantes prédios representam esse período que tinha Paris como exemplo de cidade moderna.    
   Esse ciclo profissional em São Paulo foi de 1893 com a fundação da Escola Politécnica a 1948 ano da criação  da FAU-USP.

      A segunda etapa da arquitetura nacional foi marcada pelo modernismo e o advento tecnológico do concreto armado.
     No Brasil, o prédio do Ministério de Cultura  e Saúde de Le Corbusier inicia o debate sobre o estilo internacional de 1936. Brasília e a arquitetura paulista sintetizam  a arquitetura moderna brasileira, inicialmente formalista e em pouco tempo extremamente criativa, trazendo o desenvolvimento tecnológico atrelado à marca do desenvolvimentismo.
     Arquitetura musicada pela Bossa Nova!

     Os debates sobre o papel social do arquiteto eram realizados com fervor, que perduraram fraternalmente até o fatídico golpe civil-militar de 1° de Abril de 1964 onde  os dilemas internos   do Partido Comunista  influenciaram e aguçaram as divergências e inicia a terceira fase da arquitetura brasileira.
     Racha  teórico sobre o tema colocara  de um lado Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Fabio Penteado, Guedes e outros arquitetos filiados ou próximos ao PCB e Sérgio Ferro, Rodrigo Lefevre e tantos outros que optaram pela resistência armada.
     Resumidamente, os primeiros defendiam o papel dos arquitetos  para responder a demanda do desenvolvimento industrial nacional, independente dos retrocessos políticos de momento, deveriam assegurar a tecnologia necessária para preparar o terreno da revolução nacional burguesa. O segundo grupo pregava a necessidade urgente de substituir o desenho distante da  técnica produzida pela prática em conjunto com todos os trabalhadores e a partir daí avançar a luta social.


  O regime interviu em universidades, matou, exilou e prendeu centenas de arquitetos de todos os lados da resistência, afastando-os dos trabalhadores de um setor vital da ditadura, a construção civil.   Debate prejudicado,  mas visões que mostram-se convergentes e complementares nos dias atuais, como veremos.
    

   Enquanto isso, o  falso milagre brasileiro produziu uma nova elite na arquitetura e as diversas crises que o sucederam,  empurraram a maioria de nossos colegas a procurar buracos no mercado de trabalho para atuação, quase sempre longe de nosso real papel social.
    Longe da produção da construção civil, coube a muitos colegas aderirem à nova realidade do campo de trabalho.  
    A hegemonia  do arquiteto decorador, que Le Corbusier já na década de 20 e Artigas nos anos 40 no Brasil criticariam tanto, não imaginavam que  esse cenário fosse tão longo, e até hoje os poucos produtos industrializados de qualidade, enfeitam as casas de nossa concentrada burguesia, ao invés de ampliar o conforto dos trabalhadores.



  Os caminhos atuais do capitalismo global impõem uma quarta fase da arquitetura nacional, estabelece a figura do arquiteto alinhado ao projeto global de produção sem fronteiras, de preferência sem leis trabalhista, licitações frágeis regulados pelo mercado, produzindo projetos em escala mundial e de puro espetáculo e fantasia, o arquiteto prêt à porter, a marca !
  Sucesso de investimento, Cidade das artes no Rio de Janeiro, Complexo cultural da Luz, Guggenheim Rio, estádios da copa etc., trazem as marcas de Portzamparc, Jean Nouvel e outras estrelas  globais para  passearem  pelo Brasil.










    Quanto aos mortais profissionais restam   resistir a esse macabro passeio   que atrai  junto  o capital internacional com uma  estratégia bem definida, formar  mentes,   incentivar o consumo e impor a urbanização incompleta,  como fatores de dominação.
O sotaque baiano de uma indústria transnacional de tubulações,  o BRAS de outra de caixa d’água e telhas, as mantenedoras de faculdades com facilidades de intercâmbios internacionais, não desmentem essa estratégia.
Mas enganam-se, nessa etapa atual de democracia e liberdade de organização, arquitetos e urbanistas entram em  novo ciclo de atuação, onde os  investimentos públicos são essenciais para aquecer o mercado de trabalho e definir nossa política dentro de um país ha ser construído.
Conscientes de nossas forças produtivas e organizados, reivindicarmos investimentos na formação, acesso à produção tecnológica e valorização profissional,  proporcional a nossa importância na cadeia produtiva e no PIB nacional e indicar outros caminhos.
Traduzindo, assistência técnica gratuita, carreira de estado, investimento em educação e aumento de recursos na demanda social das cidades com altos investimentos públicos.

  A nossa verdadeira marca esta intrinsecamente  atrelada às cidades, seus problemas, soluções e seus habitantes. 
Resumindo, rompermos a máxima que sempre estivemos a serviço de pequenos reis e falsos deuses de longínquos impérios.


  



                                O futuro esta nas URBI ET ORBI.  




 



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Entre a cruz e a espada, o novo !

   Ano 1997 em seu mês de maio, fui morar na cidade de Americana para trabalhar como assessor parlamentar e presidir o Partido Comunista do Brasil-PCdoB que tinha elegido seu primeiro vereador na cidade.
     Assumindo a nova tarefa partidária fui apresentado ao prefeito Waldemar Tebaldi, muito solicito e vendo minha tenra idade, me pôs a contar histórias sobre a resistência à ditadura militar e entre várias, uma me aparentava conhecida e relatada por um velho comunista, que falava-me durante minha  infância ter sido  preso nessa triste época, quando de seu interrogatório,  o milico entre porradas e humilhações  afirmava ser ele comunista desde  1936 e portanto conhecedor de sua ficha , com firmeza e uma certa dose de humor impensável naquele momento  corrige-o  a  data , sendo 1933 sua entrada ao PCB e  indicando ter participado do levante de 35. Provocação de corajosos.
     Foi quando perguntei ao prefeito se ele tinha conhecido Victorio Chinaglia, ele iniciou um choro contido e afirmou “esse homem que te falo é o seu avô”.
   Daí a diante sempre tive as portas abertas de seu gabinete numa gratidão que nunca deixei de respeitar, até por que esse vínculo de amizade com ele não foi iniciado e realizado por mim.

    Dentro desse relacionamento intenso com ele, uma história é curiosa e marcante.
     Quando recebi os cartões de visita da Câmara Municipal algo que me incomodava era o brasão da cidade que continha à bandeira dos confederados.

     Estávamos saindo das olimpíadas de Atlanta, a primeira sem os estados socialistas da Europa, mas que a população resistente obrigou os governantes do Estado da Geórgia a mudar sua bandeira por referir-se a dos antigos Confederados e que em nossos dias ainda é usada pomposamente como símbolo de grupos racistas e claro fascistas de todas as denominações.

    Americana não era a cidade dos Confederados derrotados que vieram se estabelecer no Brasil escravocrata.
    Nascemos de núcleos urbanos em 1875, um deles em torno da estação ferroviária da Cia. Paulista que fazia o entroncamento para a cidade de Santa Barbara e que ficou conhecido como vila dos americanos decorrente do comercio realizado pelos americanos que lá moravam e o outro pela fábrica têxtil Carioba de propriedade de alemães que instalaram uma vila operária com iluminação e asfalto nas ruas, comercio, igreja e cine teatro alimentada pela energia de uma usina hidroelétrica e pela força de trabalho de centenas de imigrantes, a maioria europeia.
    Para contar-me essas e outras histórias apareceu a figura emblemática de um senhor com forte sotaque italiano chamado Hercule Giordano, narrador da historia de Americana sob o ponto de vista do operário da Villa Carioba.


    Ele simplesmente fez o trabalho de informar-me sobre a cidade que eu estava escolhendo para viver.
    Textos escritos por ele no mais antigo jornal da cidade a mim foram entregues para cópia, além de centenas de horas de conversa em que eu fluía bem no seu edialeto.
     Foi entre essas e outras, comentei sobre o horroroso brasão que tanto me incomodava, quando ele contou-me que havia existido uma comissão indicada por decreto que concluiu os trabalhos apresentando um desenho do brasão que o prefeito anterior não acatou e ainda apresentando à Câmara Municipal outro projeto que aprovado, ele sancionou tal despautério heráldico.

    Com minha prepotência jovial lhe propus uma aposta, caso conseguisse mudar o brasão e a bandeira ele entraria no Partido, ironizando - me e dizendo ser quase impossível ele aceitou.
    Ao perguntar ao Hercule quem eram as pessoas que estavam no decreto da comissão, ele citou uma geração muito respeitada e que incluía um pai do presidente da época da Câmara e cujo passado era de militância do PCB. Um prato cheio.
    Pedi para o vereador que assessorava e outro parlamentar para acompanhar-me em uma audiência com o prefeito Waldemar Tebaldi.
    Quando expliquei a motivação de nossa reunião e no meio de meus argumentos, o velho Tebaldi levantou e retirou a bandeira que estava atrás de sua cadeira e queria já joga-la fora, assustado eu lhe disse que havia uma comissão que concluiu seus trabalhos que não foi encaminhado à Câmara para aprovação, ele mandou reeditar o decreto para aprovar a decisão da Comissão e revogando os dispositivos anteriores.

    Uma nova luta foi nos círculos conservadores capitaneado pelo jornal opositor que insuflava que o brasão era para perpetuar o” T” de Tebaldi tão usado como logomarca de suas vitoriosas campanhas e que as machadinhas cruzadas e o fundo vermelho representava o comunismo.

   O “T” é a cruz tau que representam franciscanos e por tabela Santo Antônio o padroeiro da cidade e as machadinhas alusivo ao cidadão Machado senhoril donatário das terras que formaram um terceiro núcleo que viria a formar Americana e que ninguém citava sua existência.
    Apelaram os reacionários à bancada evangélica que argumenta ser contra ao brasão da comissão por conter a cruz que representaria apenas os católicos, foi quando alertei-os que a bandeira confederada era composta pela cruz de Santo André.
    Discernidas as dúvidas e com a presença da grande maioria de velhos trabalhadores dos três núcleos da cidade que compunham a ”Comissão para a Realização de Estudos Visando a Adequação dos Símbolos do Município e a Instituição do Hino Municipal” reorganizada pelo meu amigo Hercule Giordano, constringiram os vereadores do atraso presentes em plenário, inclusive o filho do antigo militante comunista e a mudança foi aprovada.
    Entre a cruz e a espada, foi aprovado o novo brasão!
    Hercule era do tempo que bastava o fio de bigode para garantir a palavra e veio-me pedir para não cobra-lo da dívida, afirmando ser católico praticante e para tanto seria impossível ser filiado á um partido comunista, eu neto de marxista nunca cobraria nada advindo de aposta e serviu-me como lição de dignidade.  
       Tebaldi por cinco anos teve-me como seu diretor de urbanismo e fazendo do PCdoB um dos maiores partidos da cidade e região.

       Fui seu interlocutor com Oscar Niemeyer durante o projeto do paço municipal e seu representante no Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas. A última atividade política dele já acamado e doente em janeiro de 2006 foi uma visita minha em sua casa no qual assinou uma carta para ser entregue ao Oscar Niemeyer e ao despedir-se, desejou-me saúde!
      Hercule escreveu sua biografia aos 82 anos num livro de 151 páginas, sendo três delas de um capítulo em que fui citado sobre nossa amizade e referindo-se ao projeto do parque municipal projetado por mim e aprovado durante a gestão Tebaldi com seu nome em vida.

    Hercule Giordano nasceu em 25 de março de 1922, ano de fundação do Partido Comunista no Brasil. Faleceu em 22 de setembro de 2009.
    Oscar Niemeyer atendeu a solicitação de seu camarada Tebalbi, mas ao retornar após 15 de janeiro de 2006 não mais pude informa-lo.
   Tremularam as novas bandeiras á meio pau, assopradas pelos ventos das mudanças!