Muitas pessoas me chamam de
camarada, por saber que sou comunista, ora por simpatia, ora por ironia, mas
quando referida num contexto de militância política, daí a coisa fica mais
séria.
Reclamam alguns colegas o lado
solene, quase uma etiqueta, mas que na verdade serve para agilizar nossa
leitura da participação política dos presentes em determinado momento e local de
reunião ou plenário. Não determina de forma mecânica, mas ajuda bastante.
Numa das reuniões
permanentes que realizamos toda terça feira numa determinada entidade, criou-se
um clima negativo e atritoso entre colegas em determinado momento em relação ao
termo companheiro. Coube ao meu amigo Ricardo Orlando, vice-presidente da entidade
dar uma aula sobre a origem da palavra companheiro que seguirá aqui sua
explicação, mas principalmente me alertou para que eu aproveitasse sua aula de latim
e principalmente sua polidez política para mostrar as diferenças entre as
palavras tão usadas por mim e meus pares.
As palavras têm, de fato,
sentidos muito próximos uma das outras. A principal diferença está na situação
em que são usadas e na carga histórica que lhes são associadas. Assim, “camarada”,
que significou “pessoa que vive no mesmo quarto ou câmara que outra”, acabou
por se aplicar a um “soldado da mesma companhia, regimento, divisão” e como
sinal de militância política aplicado inicialmente na Alemanha em 1875, com o
estabelecimento dos Trabalhadores socialistas' .
Originalmente, o termo
carregava uma forte conotação militar. Depois da Revolução Russa de 1917, os
comunistas empregaram-no profusamente como alternativa igualitária à forma de
tratamento "senhor" e outras palavras similar pelo Partido Operário
Social-Democrata (b) Russo , Tovarich camarada em russo e que ficou associado aos
militantes comunistas do mundo com raras exceções.
Formando parte do
estereótipo dos comunistas, como retratados nos filmes e séries de televisão de
forma provocativa e irônica, o uso da palavra "camarada" não era tão
comum, reservado a ocasiões formais ou oficiais, assim como nas forças armadas.
Companheiro é praticamente
sinónimo de camarada, mas tem uma história um pouco diferente: deriva de uma
tradução em baixo latim (‘cum’ + ‘panis’), corrente na antiga Gália (hoje, a
França), de uma expressão germânica, "gahlaiba", composta de “ga”
(«com») + “hlaiba” («pão») – cf. Dicionário Houaiss. Por outras palavras, companheiro,
que se referia àquele com quem se comia o pão, passou a significar simplesmente
o que faz companhia na trajetória militante. Para os comunistas é usado quando
fora do contexto partidário, dentro das entidades de classe ou de movimentos
sociais, para demostrar amplitude e respeito aos presentes e principalmente à autonomia da entidade.
Finalmente, “colega” relativo
ao “colégio” é um termo derivado do latim “colega”, por via culta, e designa “indivíduo
que, em relação a outro, faz parte da mesma comunidade, corporação, profissão»
(ver José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa), ou seja, em
termos atuais, é a pessoa que trabalha na mesma atividade ou no mesmo lugar que
nós e no qual nos referimos entre pares nas entidades profissionais e
associados a entidades de classe.
Nada impeça que a mesma
pessoa seja camarada e colega, companheiro e colega ou mesmo camarada e
companheiro, mas ser camarada significa que além de compartilhar a mesma
ideologia, esta fechado com você em tarefas que exige desprendimento, dedicação
e hierarquia para a ação, portanto trata-se da pessoa da mais alta confiança
mutua. Para esse uso como falou o camarada Ricardo Zarattini na última quinta
feira dia 29 durante sessão do Cine Clube Vladimir Herzog, tem que ser
comunista testado.
E o teste é exatamente na luta, e esses meus Ricardos tem de
sobra e sem solenidade são meus camaradas!


