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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

da lógica da cidade à lógica do capital:O invasor

  Olhar Urbano é uma seção da Móbile,a Revista do CAU/SP criada para debater a linha tênue entre a arquitetura e a arte , seus suportes e atores. A numero 2 apresenta uma análise sobre o filme O Invasor de Beto Brant e o papel do cinema de reflexão do processo violento de urbanização no Brasil e e a relação com seus habitantes, a burguesia e os trabalhadores muitos deslocados de suas histórias costumes e territórios, verdadeiros invasores .Boa leitura e bom filme.


Arq.e Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile   


O invasor:
                da lógica da cidade
                               à lógica do capital





Kim Wilheim Doria | Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

   A cidade de São Paulo tem sido palco de importantes representações cinematográficas desde os primeiros tempos do cinema realizado no Brasil, em geral produções empenhadas em um elogio da experiência urbana paulistana tomada como sinal de progresso e de modernização do país. Da década de 1950 aos dias atuais, o cinema paulistano apresentou algumas obras notáveis no que diz respeito ao trato das relações de violência e à representação do capital através de uma encenação dos paradoxos urbanos da megalópole e do mundo do trabalho. De São Paulo S/A (Person, 1965) ao cinema de Sérgio Bianchi e Tata Amaral, temos em O invasor, de Beto Brant (2001), obra notável que alegoriza a experiência nacional e os conflitos de classes em um momento de simultânea ‘paulistização’ do país e ‘brasileirização’ do capitalismo global.

  Em um thriller expressionista, dois engenheiros, sócios de uma construtora, encomendam a morte de um terceiro sócio que se contrapunha a um negócio tão rentável quanto ilícito. Após a execução do trabalho, o matador contratado invade o espaço onde não era esperado: desrespeitando as convenções de discrição próprias à prestação desse tipo de serviço, assim como as convenções do gênero cinematográfico (segundo as quais o personagem do assassino de aluguel, secundário, deveria se manter à margem da trama), começa a ultrapassar os limites socialmente estabelecidos entre a sua periferia marginalizada e o centro dos empresários, apropriando-se de um espaço e de uma posição social que lhe foram sempre negados. A grande periferia neoliberal paulistana da Zona Sul invade o Itaim e a Vila Madalena das baladas e grandes negócios para exigir a sua fatia do bolo.

   O filme escancara a distopia do presente, com uma transmutação da luta de classes própria à realidade política que vivemos no país nas últimas duas décadas, em que a base da pirâmide social não almeja a tomada do poder pela revolução, mas o aburguesamento. No lugar da justiça social, própria às narrativas do Cinema Novo e ao horizonte político dos anos 1950/60, procura-se a ascensão social. Assim, os conflitos surgem não da opressão sobre os oprimidos, mas da negação de um lugar ao sol à periferia. A jornada do matador, da periferia ao centro, tem como objetivo a conquista individual do poder de “mandar fazer”, em resposta a anos de modernização conservadora e incentivo ao consumo, que só se acentuou da estreia do filme para cá.

   Este processo transgressor envolve o cortejo pelo assassino da filha de sua vítima. Romeu e Julieta/Adão e Eva (como o próprio casal se define, em uma cena de amor e drogas no topo do morro/Jardim do Paraíso, em plena Heliópolis), que protagonizam uma passagem exemplar do filme: em um deslocamento de carro, há uma sequência de imagens da cidade que parte do espaço social do “bairro nobre” da menina e segue para a “periferia marginal”. Aqui, a montagem elabora uma continuidade  entre os polos que evidencia uma relação incestuosa das classes (nos níveis dramático e discursivo da obra), elaborando uma dinâmica de complexa interconexão entre centro e periferia como forma elementar da cidade e do capitalismo contemporâneos. É na materialidade da experiência social urbana de São Paulo que “O invasor” promove uma análise crítica da sociedade, identificando a lógica da cidade com a do funcionamento do capitalismo.

   O verdadeiro “invasor” do filme, afinal, é o Brasil: a realidade que se impõe à narração e às fórmulas melodramáticas. A experiência nacional toma a cena e subverte as regras narrativas, de forma análoga à busca de protagonismo pelo matador.

   Já dizia o poeta que não há nada mais parecido com uma casa em construção do que uma casa em processo de destruição. Entre prédios sendo erguidos e a favela que tudo cerca, a aporia social é delineada ao som hip hop que anuncia, com traços épicos, que “a bomba vai explodir”.

Não é Sabotagem?!



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