Páginas

sexta-feira, 14 de junho de 2013

OS ARQUITETOS E URBANISTAS E AS MANIFESTAÇÕES EM NOSSAS CIDADES


As manifestações que acontecem em várias cidades do Brasil, demonstram claramente que o modelo urbanístico calcado no desenho imposto pelas industrias multinacionais automobilísticas e de ocupação ao gosto do mercado especulativo não funciona mais.

Em São Paulo esse modelo esta sendo  implantado desde a década de 30 iniciado pelo Plano de Avenidas do engenheiro  Preste Maia.Canalizaram  rios e abriram-se  frentes de especulação imobiliária em terras até então dominadas pela natureza, transformando-se em corredores de automóveis sem limites, deslocando milhares de migrantes a "morarem" em periferias distantes desregulamentadas .


A  zona leste de São Paulo é a sua face mais cruel  dessa política urbana concentradora de renda e de espaços.

O transporte individual de 7 toneladas transportando um imbecil de 70 quilos é a  face mais refinada da elite consolidada sob esse modelo.

Do total do solo urbano, 25% esta destinado ao automóvel enquanto 30% da população vivem em favelas e cortiços.  

As políticas públicas de transporte e mobilidade urbana, sempre estiveram a serviço da dupla, indústria multinacional e especulação imobiliária, definindo-se como liberais em oposição ao planejamento da cidade,  vide os bondes da Light, suplantados pelos ônibus a diesel , agora ameaçados pelas peruas e vans,  pelo baixo investimento em metrô e toda a pobreza de repertório tecnológico de alternativas de transportes coletivos de nossas cidades.


Junta-se ao esgotamento dessa  vertente  neoliberal no urbanismo, a falta de clareza de projetos de nossos governantes, hoje não vemos diferenças nas políticas do Maluf, Alckmin, Kassab e Haddad,basta olhar quem compõe seus  palanques e suas fotos na grande imprensa.


Triste ver o governador mais reacionário dos últimos anos com o atual prefeito PTista em Paris, enquanto a cidade pega fogo com manifestações, em discurso uníssono contra a população e a distância coordenam a polícia repressora e pronunciam-se pelos meios de comunicações patrocinados pelo velha dupla, multis e especuladores.

Estive ontem, após  reuniões no Conselho de Arquitetura e Urbanismo de SP, nas manifestações na região central, constatei manipulação dos programas do Datena e do Marcelo Resende, mentindo estarem ao vivo, transferindo o caos urbano, o impedimento do direito de ir e vir e a violência para os manifestantes. O apresentador do boçal  programa Cidade Alerta chegou a manipular a enquete devido a alta adesão da população aos manifestantes.

Manifestantes, esses compostos por estudantes pobres, cansados de se expressarem apenas por grafites e hap e engrossada espontaneamente pelos trabalhadores do centro, como pude constatar pessoalmente.


A sorte desses governantes é que o núcleo dirigente dos manifestantes é pequeno e frágil, incapazes de ampliarem suas demandas   para outras categorias tradicionalmente mais organizadas e com tradições de lutas reivindicatórias .Os trabalhadores da CTPM  efetivaram a paralisação do sistema de transporte de trens metropolitanos , alertando sobre as possibilidades de unificar e ampliar o movimento, principalmente entre os urbanitários.

Os arquitetos e urbanistas não poderão se omitirem frente a essa situação, as nossas entidades devem se pronunciarem e contribuírem para debater e buscar  soluções práticas para nossas cidades e o desenvolvimento solidário  de nossa população.

Consolidar e resgatar sua história de parceiro privilegiado nas lutas sociais urbanas sempre ao lado dos trabalhadores.  

Apoio total as manifestações e pela ampliação das mobilizações em defesa da reforma urbana, mobilidade social e territorial das cidades, fonte matriz do desenvolvimento e bem estar dos trabalhadores.  



    



   




          

domingo, 2 de junho de 2013

LEON FERRARI, O OLHAR DO MUNDO REAL



      Visito frequentemente  o MASP,  relembro a companhia  de meu pai,   contemplo os grandes mestres e divago no tempo, antes de retornar a andar na Av. Paulista .
       Ver arte e andar!!
      Foi lá que conheci fisicamente alguns meses atrás o trabalho de Leon Ferrari. Solitária entre os clássicos da pintura internacional, uma escultura intrigante de aço.  

    Leon Ferrari (Buenos Aires, Argentina 1920) pintor, gravador, escultor, artista multimídia  engajado no movimento cultural e político, viveu em  São Paulo em 1976.
    Mas foi durante a Bienal de Veneza de 2007 que escutei seu nome pela primeira vez , ele reapresentou a "Civilização Cristã e Ocidental" produzida em 1965, e causou espanto e protestos da igreja e de setores retrógrados pelo mundo, que não são poucos, pela figura escultural de Jesus crucificado a um avião militar americano.
    Aproxima o observador do mundo real, no qual ele  não esta identificado.  
     

      De imediato me espantei ao lembrar de meu quadro de 1986 no bojo do final da ditadura e durante meu longos 10 meses  de soldado conscrito no exercito brasileiro, no ano da legalidade do Partido Comunista Brasileiro-PCB e frequentando o segundo ano de Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na PUCCCAMP.


      Ojeriza total nas instituições da ditadura!
    Voltando..... reafirmou meu conceito que toda arte é engajada, seja o abstrato contra o academicismo burguês ou a mais singela manifestação popular carregada de ironia e distante da elite.

     O Leon confirma isso em sua produção e demostra que a resistência em forma de arte, quanto como a  ciência são patrimônios da humanidade e salpicam espontaneamente no planeta, representando o desenvolvimento econômico e social da humanidade, o que o Marx definia como general intellect, a inteligência social ou coletiva, o trabalho imaterial, em oposição ao conceito de propriedade intelectual individualizada.

     Se a arte choca e constrange dentro de uma sala com ar condicionado, o que falar dos horrores da guerra pagos com royalties , daquilo que pertence ao rei  do lixo do consumismo.
         
  


sexta-feira, 31 de maio de 2013

TEATRO DE ARENA ELIS REGINA, ESPAÇO PÚBLICO PARA CULTURA POPULAR.

  
    No ano  2000 assumi a diretoria de urbanismo da prefeitura de Americana e na condição de arquiteto e urbanista elaboramos planos diretores e vários  projetos, escolas, creches, postos de saúde, equipamentos esportivos e mobiliário urbano, enfim um bom escritório público de arquitetura , a Unidade de Desenvolvimento Urbano e Físico- UDFU criou uma cultura de projeto no município e região.

   Entre eles um em especial, o antigo teatro de arena que encontrava-se desativado e abandonado por falta de uma política de cultura popular. 

   Originalmente idealizado pelo educador Wilson Camargo para ser um teatro circo, foi construído sob a responsabilidade do Eng. João D'Amaro e inaugurado em 1981, depois de anos de atividades culturais , foi esquecido  por preconceito quanto a sua concepção.





     Coube ao prefeito Waldemar Tebaldi reativar o espaço e as ideias originais e ao corpo de arquitetos e engenheiros da prefeitura realizar o novo projeto e sua construção e a mim coordenar a equipe e apresentar ao prefeito o projeto final.








     


 Numa área de 10.128,00 m² foi erguida uma estrutura em arco de 43,00 m que recebeu a lona de 1.800,00 m² , com área de projeção de 1.488,30 m² , confeccionada pela empresa tensobras/ Tensotech  Arquitetura Têxtil, nada mais apropriada para a cidade símbolo da industria têxtil sintética do Brasil e maior pólo do setor na América Latina.Sediada em Salvador foi enviado o arquiteto Cândido Denadai para discutir detalhes do projeto e a viabilidade de sua execução.





   


  A estrutura e demais obras foram realizadas pela Obrafort Engenharia e Construções e o calculo estrutural coube a Prisma Engenharia, ambas de Americana.  

   Toda a área foi cercada por estrutura metálica no sentido de expandir a área de atividades do teatro, incluindo uma extensão  do palco interno para a área externa , ganhando alternativa de realização de eventos ao ar livre e com um maior número de espectadores, além dos 1.100 acentos internos, incluindo um  estacionamento e caracterizando o novo espaço como multi-uso. Um pequeno Anhembi.





   


No dia da inauguração em julho de 2004, eu já tinha assumido a Secretaria de Planejamento e o prefeito em exercício,  Erich Hetzl , na fota a eterna primeira dama Luíza Mota Tebaldi, que sempre me apoiou .





     No mesmo ano ganhamos o Prêmio "Ex-Aequo" na categoria obra pública do IAB-SP em cerimonia no auditório do MASP  num juri presidido pelo meu amigo e mestre Joaquim Guedes e que garantiu a participação na Bienal de Arquitetura .




     

AFFONSO REIDY E DRUMMOND, ENCONTRO FANTÁSTICO

    A história brasileira é repleta de grandes encontros, sempre conflitantes  , exemplo que o  destino reservou para   Padre Cícero, Lampião e Luiz Carlos Prestes durante a jornada heroica da Coluna ,  amorosos... Tarcila do Amaral, Oswald de Andrade e Pagú ou intelectual Oscar Niemeyer e Joaquim Guedes, mas esse foi de uma pureza que somente Drummond e Reidy poderiam ser protagonistas, tristeza  que revela mais do que uma linda amizade,  o quanto arquitetura e poesia se confundem e se fundem . 


    “A morte de Affonso Eduardo Reidy desperta-me antes de tudo uma sensação de coisa errada, fora de norma e ritmo.
      Como se ele, cedendo à modéstia, houvesse furado a fila dos mais velhos, que estavam na sua frente, para chegar primeiro.
       Reidy era a distinção, a finura em pessoa, não podia passar à frente de outros.  Tinha um modo tão seu de trabalhar em discrição, como tantos outros trabalham em apoteose.
    Sua vida merecia ter sido longa e protegida dos males cruéis. E depois, apenas um cinqüentão, ele tinha ainda muito que fazer por causa do muito que já fizera.
     Nós, usuários dessa criação, estamos sempre exigindo mais. Nada pedimos aos omissos e aos estéreis, mas de um sutil manipulador de forma e espaço, como Reidy, quanta coisa se podia esperar ainda!”

Carlos Drummond de Andrade , em momento de tristeza pelo falecimento de REIDY.


Tudo isso aconteceu no dia 10 de agosto de 1964, ano do golpe militar no Brasil que matou e prendeu patriotas e  calou nossa cultura por 21 anos.