Ano 1997 em seu mês de maio, fui
morar na cidade de Americana para trabalhar como assessor parlamentar e presidir o
Partido Comunista do Brasil-PCdoB que tinha elegido seu primeiro vereador na
cidade.
Assumindo a nova tarefa partidária fui
apresentado ao prefeito Waldemar Tebaldi, muito solicito e vendo minha tenra idade,
me pôs a contar histórias sobre a resistência à ditadura militar e entre várias,
uma me aparentava conhecida e relatada por um velho comunista, que falava-me
durante minha infância ter sido preso nessa triste época, quando de seu
interrogatório, o milico entre porradas
e humilhações afirmava ser ele comunista
desde 1936 e portanto conhecedor de sua
ficha , com firmeza e uma certa dose de humor impensável naquele momento corrige-o a data ,
sendo 1933 sua entrada ao PCB e indicando
ter participado do levante de 35. Provocação de corajosos.
Foi quando perguntei ao prefeito se ele
tinha conhecido Victorio Chinaglia, ele iniciou um choro contido e afirmou “esse
homem que te falo é o seu avô”.
Daí a diante sempre tive as portas abertas de seu gabinete numa gratidão
que nunca deixei de respeitar, até por que esse vínculo de amizade com ele não foi
iniciado e realizado por mim.
Dentro desse relacionamento intenso com ele,
uma história é curiosa e marcante.
Quando recebi os cartões de visita da
Câmara Municipal algo que me incomodava era o brasão da cidade que continha à
bandeira dos confederados.
Estávamos saindo das olimpíadas de
Atlanta, a primeira sem os estados socialistas da Europa, mas que a população
resistente obrigou os governantes do Estado da Geórgia a mudar sua bandeira por
referir-se a dos antigos Confederados e que em nossos dias ainda é usada pomposamente
como símbolo de grupos racistas e claro fascistas de todas as denominações.
Americana não era a cidade dos Confederados
derrotados que vieram se estabelecer no Brasil escravocrata.
Nascemos de núcleos urbanos em 1875, um deles
em torno da estação ferroviária da Cia. Paulista que fazia o entroncamento para
a cidade de Santa Barbara e que ficou conhecido como vila dos americanos
decorrente do comercio realizado pelos americanos que lá moravam e o outro pela
fábrica têxtil Carioba de propriedade de alemães que instalaram uma vila operária
com iluminação e asfalto nas ruas, comercio, igreja e cine teatro alimentada
pela energia de uma usina hidroelétrica e pela força de trabalho de centenas de
imigrantes, a maioria europeia.
Para contar-me essas e outras histórias
apareceu a figura emblemática de um senhor com forte sotaque italiano chamado
Hercule Giordano, narrador da historia de Americana sob o ponto de vista do
operário da Villa Carioba.
Ele simplesmente fez o trabalho de informar-me
sobre a cidade que eu estava escolhendo para viver.
Textos escritos por ele no mais antigo
jornal da cidade a mim foram entregues para cópia, além de centenas de horas de
conversa em que eu fluía bem no seu edialeto.
Foi entre essas e outras, comentei sobre o
horroroso brasão que tanto me incomodava, quando ele contou-me que havia existido
uma comissão indicada por decreto que concluiu os trabalhos apresentando um desenho
do brasão que o prefeito anterior não acatou e ainda apresentando à Câmara
Municipal outro projeto que aprovado, ele sancionou tal despautério heráldico.
Com minha prepotência jovial lhe propus uma
aposta, caso conseguisse mudar o brasão e a bandeira ele entraria no Partido, ironizando
- me e dizendo ser quase impossível ele aceitou.
Ao perguntar ao Hercule quem eram as
pessoas que estavam no decreto da comissão, ele citou uma geração muito
respeitada e que incluía um pai do presidente da época da Câmara e cujo passado
era de militância do PCB. Um prato cheio.
Pedi para o vereador que assessorava e outro
parlamentar para acompanhar-me em uma audiência com o prefeito Waldemar Tebaldi.
Quando expliquei a motivação de nossa
reunião e no meio de meus argumentos, o velho Tebaldi levantou e retirou a
bandeira que estava atrás de sua cadeira e queria já joga-la fora, assustado eu
lhe disse que havia uma comissão que concluiu seus trabalhos que não foi
encaminhado à Câmara para aprovação, ele mandou reeditar o decreto para aprovar
a decisão da Comissão e revogando os dispositivos anteriores.
Uma nova luta foi nos círculos
conservadores capitaneado pelo jornal opositor que insuflava que o brasão era
para perpetuar o” T” de Tebaldi tão usado como logomarca de suas vitoriosas
campanhas e que as machadinhas cruzadas e o fundo vermelho representava o
comunismo.
O “T” é a cruz tau que representam franciscanos e por tabela Santo
Antônio o padroeiro da cidade e as machadinhas alusivo ao cidadão Machado
senhoril donatário das terras que formaram um terceiro núcleo que viria a
formar Americana e que ninguém citava sua existência.
Apelaram os reacionários à bancada
evangélica que argumenta ser contra ao brasão da comissão por conter a cruz que
representaria apenas os católicos, foi quando alertei-os que a bandeira
confederada era composta pela cruz de Santo André.
Discernidas as dúvidas e com a presença da
grande maioria de velhos trabalhadores dos três núcleos da cidade que compunham
a ”Comissão para a Realização de Estudos Visando a Adequação dos Símbolos do Município
e a Instituição do Hino Municipal” reorganizada pelo meu amigo Hercule
Giordano, constringiram os vereadores do atraso presentes em plenário,
inclusive o filho do antigo militante comunista e a mudança foi aprovada.
Entre a cruz e a espada, foi aprovado o
novo brasão!
Hercule era do tempo que bastava o fio de
bigode para garantir a palavra e veio-me pedir para não cobra-lo da dívida, afirmando
ser católico praticante e para tanto seria impossível ser filiado á um partido comunista,
eu neto de marxista nunca cobraria nada advindo de aposta e serviu-me como
lição de dignidade.
Tebaldi por cinco anos teve-me
como seu diretor de urbanismo e fazendo do PCdoB um dos maiores partidos da
cidade e região.
Fui seu interlocutor com Oscar
Niemeyer durante o projeto do paço municipal e seu representante no Conselho de
Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas. A última atividade
política dele já acamado e doente em janeiro de 2006 foi uma visita minha em
sua casa no qual assinou uma carta para ser entregue ao Oscar Niemeyer e ao
despedir-se, desejou-me saúde!
Hercule escreveu sua biografia aos 82
anos num livro de 151 páginas, sendo três delas de um capítulo em que fui
citado sobre nossa amizade e referindo-se ao projeto do parque municipal
projetado por mim e aprovado durante a gestão Tebaldi com seu nome em vida.
Hercule Giordano nasceu em 25 de março de
1922, ano de fundação do Partido Comunista no Brasil. Faleceu em 22 de setembro
de 2009.
Oscar Niemeyer atendeu a solicitação de seu
camarada Tebalbi, mas ao retornar após 15 de janeiro de 2006 não mais pude informa-lo.
Tremularam as novas bandeiras á meio pau, assopradas pelos ventos das
mudanças!







































