Móbile, a Revista do CAU/SP n°1 tem como tema "As Cidades" e ninguém menos que o nosso maior arquiteto em atividade para falar sobre o tema. Numa entrevista cheia de bom humor e muitas, mas muitas críticas aos arquitetos desde seus vícios de linguagem originada pela soberba sobre a "criação" das cidades, eu , o jornalista Roney Rodrigues e a equipe de comunicação do CAU/SP tivemos o enorme prazer de realizarmos esse trabalho focado no tema central da Móbile!Novos bate-papos com nossos colegas estarão nos próximos números, aguardem!!!
Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile
SEM ENTRELINHAS
SEM MEIAS PALAVRAS, O VENCEDOR DO PRÊMIO PRITZKER ANALISA A INFLUÊNCIA DO COLONIALISMO NO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL, CRITICA A QUALIDADE DO TRANSPORTE PÚBLICO, O CRESCIMENTO DAS METRÓPOLES E DISPARA: “TEMOS QUE INVERTER A ROTA DE DESASTRE DAS CIDADES”
SEM MEIAS PALAVRAS, O VENCEDOR DO PRÊMIO PRITZKER ANALISA A INFLUÊNCIA DO COLONIALISMO NO DESENVOLVIMENTO DO BRASIL, CRITICA A QUALIDADE DO TRANSPORTE PÚBLICO, O CRESCIMENTO DAS METRÓPOLES E DISPARA: “TEMOS QUE INVERTER A ROTA DE DESASTRE DAS CIDADES”
Buzinas,
gritos, motores roncando, algaravias urbanas. “Para uma conversa sobre São
Paulo, essa música de fundo é bem
apropriada”, afiança o renomado arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, 86
anos, antes de fechar a janela de seu escritório, localizado no centro da
cidade. Com o ambiente silenciado, ele se debruça sobre uma maquete de papel: o
Cais das Artes, na Enseada do Suá, em Vitória, sua cidade natal.
“Olha só, o café do teatro se comunica com essa calçada aqui, você pode frequentar o café mesmo sem espetáculo”, explica o arquiteto. “A técnica só revela uma monumentalidade que já havia”.
“Mas tem que ter sensibilidade para captar”, alguém sugere.
“Não é sensibilidade, meu bem” interpela. “É sabedoria e raciocínio! Assim, você transforma a dimensão artística em uma frescura”.
Com essa “urgência de discurso” – “eu já estou velho”, explica – Mendes da Rocha é incisivo em suas opiniões: acredita que o transporte com carros é uma “tolice”, defende a criação de uma rede hidrográfica para integrar a América Latina e afirma que o arquiteto tem obrigação política de alterar a “rota de desastre” nas cidades.
Mendes da Rocha é considerado um dos maiores arquitetos brasileiros. Vencedor do prêmio Pritzker em 2006, o mais importante da arquitetura mundial, é autor de grandes projetos, entre eles, a reforma e intervenção da Pinacoteca e da Estação da Luz, do pórtico e da cobertura na Praça do Patriarca e do Museu Brasileiro da Escultura (MUBE).
A convite de João Batista Vilanova Artigas [1915-1985], também encabeçou, na década de 1960, a chamada Escola Paulista, que propunha uma nova arquitetura com seus pontos de vista sociais e humanistas, em oposição à arquitetura racionalista.
Hoje, Mendes da Rocha não disfarça o saudosismo. “A vida é muito curta e não se pode pretender fazer nada aos 70 ou 80 anos de vida, portanto, só podemos ter um alento, digamos, no que vai continuar além de nós”, diz ele.
MÓBILE: Como a arquitetura contribuiu para o
processo de civilização?
MÓBILE: Da Europa e da América, por exemplo. O
processo como um todo.
PMDAROCHA: Pode-se dizer que a primeira
manifestação do homem encontrada em arqueologia e em estudos, é a arquitetura,
afinal, é o modo de ficar no lugar. Quando o homem começou a se fixar, teve que
organizar a natureza: ocupou cavernas, empilhou pedras, dominou o fogo. Esse
lugar, essa repetição de atos e manobras que garantam a sua vida, constitui o
que poderíamos chamar de genealogia da construção da cidade e o estabelecimento
de uma linguagem que descreve as coisas. Estamos falando de milhões de anos. Mas
vamos dar um pulo no tempo, senão vai demorar muito. Existe um quadro
famosíssimo [Vulcano ed Eolo maestri
dell'umanità, de Piero di Cosimo, cerca de 1500-1505] e discutido de uma
maneira muito especial por Erwin Panofsky [1892-1968,
crítico e historiador da arte alemão, um dos principais estudiosos em
iconografia], em que ele comenta a passagem da Idade Média para o
Renascimento. Esse quadro é lindo porque, em primeiro plano, há dois velhos
sentados no chão, em torno de uma fogueira, e se percebe que um deles tem a
perna “estropiada”. Mais ao fundo, uma nítida e esquemática construção, como se
fosse uma casinha: dois pilares de madeira, telhado e uma arquitrave em forma
de tesoura. Um burro ao lado. Os dois velhos são Vulcano [deus do fogo], expulso do Olimpo porque ousou usar o fogo como
instrumento, e Éolo [deus do vento],
que juntos produziram a forja. Com o vento e o fogo conseguimos tornar maleável
o ferro e produzir a ferradura para o cavalo. Ou seja: transformamos o cavalo
em máquina. Veja a genealogia da imaginação. É a fábrica, a forja, a máquina, a
casa! É tudo arquitetura. A natureza não é habitável, é uma droga, um inferno com
vulcões e tsunamis. Um de nós não sobrevive 15 dias na floresta. Transformar a
natureza e torná-la habitável: eis a questão da arquitetura. Portanto, a
arquitetura não contribuiu para o processo de civilização, ela é esse processo.
Veja o ensino da arquitetura, as universidades, o país atrasado, a América, o
colonialismo, o rio Amazonas. Temos a obrigação de influir politicamente para
inverter essa rota de desastre e fazer brilhar o êxito da técnica.
MÓBILE: O senhor tocou num ponto interessante em
sua obra: a análise da interferência do colonialismo em nossas vidas. Quais
foram as consequências da colonização em nossa concepção de cidade?
PMDAROCHA: Mencionei o colonialismo porque, na
época em que a América foi descoberta, se dizia que o Sol girava em torno da Terra.
E o senhor Galileu [Galilei, 1564-1642,
cientista italiano] disse que o nosso planeta girava em torno do Sol e foi
condenado à fogueira. Inauguramos algo aqui muito mal inaugurado, não soubemos
fazer a justa réplica às tolices que o colonialismo impunha, tornando o Brasil próspero,
como tinha que ser. Na América não se aplicou o melhor do conhecimento, ao
contrário, foi colonizada com dogmas e princípios tolos, com uma visão
espoliativa de consumir a riqueza do outro. Para falarmos das coisas de hoje, é
preciso lembrar a monumentalidade daquele momento. No Brasil se inaugura o
Ministério das Cidades justamente para fazer com que o governo ouça a voz daqueles
que dizem que temos que providenciar a construção do espaço habitável, não simplesmente
entregá-lo ao mercado, que é a visão colonialista. O êxito da técnica é uma
maravilha e é isso que a cidade deve ser. O CAU e o Ministério das Cidades
existem para que se ouça essa visão política de transformação inexorável para
garantir o nosso futuro e para alimentar a nossa vida. É por isso que contei a
história de Vulcano e Éolo: a coisa é séria para fazer a forja. Um pagou caro e
foi expulso da morada dos deuses.
MÓBILE: Na década 1960, houve um esforço para
pensar o Brasil e a arquitetura teve papel fundamental nesse projeto. No
contexto de hoje - com o desmonte do Estado, a falta de políticas públicas e a
terra ligada ao mercado - como pensar a arquitetura brasileira?
PMDAROCHA: Não precisa abolir a ideia de mercado,
mas não se pode entregar a construção do espaço de uma cidade exclusivamente à
iniciativa privada. O país, a cidade e o espaço precisam ser planejados. O
território brasileiro talvez seja o espaço mais extraordinário em rede
hidrográfica do planeta e possui um projeto antiquíssimo de ligação no miolo do
país, um canal que ligaria a Bacia Amazônica à do Prata, na Argentina. Teríamos
que nos associar com outros países, portanto, seria um instrumento para a paz
na América Latina. Enquanto isso, ainda estamos falando besteiras como quais as
formas de vender apartamento. O Ministério das Cidades tem que sair à frente
com um discurso de valor político, uma consistência política sobre a
transformação desse trabalho, para que ele tenha sucesso e não produza
desastre.
MÓBILE: O senhor poderia falar sobre o fenômeno
da metropolização e os desafios enfrentados pelas cidades?
PMDAROCHA: Eu estou velho e não tenho tempo para
muitas entrelinhas: a metropolização não é fenômeno, é uma ação política feita
pelos homens que têm poder. Os fenômenos não podem ser impedidos e chamar o
crescimento de São Paulo, que em pouco tempo chegou a 20 milhões de habitantes,
nem sequer é metropolização. Foi um projeto que se deixou atrasar tanto que só
havia trabalho aqui. Outra coisa, não precisa ser amarrar em dividas de 20 ou
30 anos para dizer que a “minha vida” é uma casa. É tolice a fixação na
propriedade e na dívida, uma amarração com uma forma vil de capitalismo, embora
não ache oportuno discutir capitalismo ou não capitalismo, porém ele não
precisa ser vil. Esse crescimento desorganizado - ou simplesmente entregue à
especulação do mercado imobiliário - só pode dar desastre. Não sou eu que estou
dizendo: é a fotografia que se pode tirar agora do alto do Edifício Itália, o
helicóptero que está irradiando ou a televisão que sempre diz que “a Marginal
tem 48 quilômetros de congestionamento”. O rio Tietê foi transformado em
esgoto. Porém quem tem dinheiro está livre de qualquer mal e vai aos fins de
semana se divertir nas praias de São Paulo. Mesmo assim, nos últimos fins de
semana, eles têm levado de 12 a 24 horas até a Baixada Santista, que tem menos
de 50 quilômetros de distância de São Paulo. Não te parece uma tolice isso
tudo?
MÓBILE: E como resolver os problemas de
mobilidade urbana?
PMDAROCHA: Por que não se diz transporte público?
Nada se mexe mais do que o universo urbano. Suponhamos que ficássemos três
dias, numa experiência absurda, sem ninguém sair de casa. Não houve, então,
“mobilidade urbana”. É uma expressão ampla, uma forma de abordar uma questão
sem dizer nada. O transporte público foi a melhor maneira que me pareceu,
física e mecânica, de desfrutar do pouco que a cidade já tinha, por que não ia
dar tempo de fazer nada. Hoje, o grande problema da cidade é o transporte
individual, particularmente o automóvel. Um cretino, como nós, pesa 60 quilos,
em média, e um automóvel pesa 700 quilos. É uma estupidez carregar 700 quilos
de lata, queimando petróleo, e dizer que se está transportando alguém. O
transporte individual é uma estupidez, já fazem apartamentos menores que um
automóvel. Nada mais monumental que o sistema - que se poderia dizer brilhante
- de transporte público. Acabo meu trabalho e sei que passa um trem, de três em
três minutos, que me leva pra casa. Encontro você e vamos tomar uma cerveja, um
torneiro mecânico passa e conversamos com ele, outra pessoa diz que há uma peça
maravilhosa e eu ligo para uma amiga vir assistir comigo e voltamos para casa
às onze da noite. É monumental a imagem do transporte público. A cidade é uma
universidade. O êxito da técnica é uma maravilha, não um desastre que não anda
para lá nem para cá.
MÓBILE: E o senhor acredita que, desde as
manifestações de junho, houve mudança nesse panorama da cidade?
PMDAROCHA: Sobre as manifestações já foi dito tudo
o que se tinha que dizer. Coisas, às vezes, muito interessantes, mas também
muita asneira. O único aspecto que não se pode discutir é a ideia de
manifestação em si, porque é a formação de consciência. Quantos estudantes têm
no Brasil hoje, incluindo primário, secundário e universitário? Milhões. Seja
no primário ou na Universidade, muitíssimas horas de aulas são dadas por dia e
o professor tem quarenta cretinos calados por obrigação, prestando atenção no
que ele diz. Já imaginou a monumentalidade dessa manifestação? Podemos tornar
melhor muitas coisas que já existem. Arquitetura, no fundo, é essência do
conhecimento. Não é a arquitetura que desfruta da técnica, mas ela solicita da
técnica - com essas reflexões - aquilo que se deve fazer. É a escola mais importante da Universidade
porque estabelece, no contraponto e na concretude, a um tempo só, arte, ciência e técnica. Não é uma
somatória de conhecimento, é uma forma especifica de conhecimento
arquitetônico. Nossos queridos mestres da FAU/USP diziam sempre: não se pode
ensinar arquitetura, mas pode-se educar um arquiteto.
MÓBILE: E os arquitetos brasileiros estão
preparados para dar essa contribuição tão importante e desejada?
PMDAROCHA: Tomara que não sejam apenas os arquitetos,
coitados (risos). Quem deve resolver esse problema tão sério é toda a população.
A arquitetura é uma forma peculiar de conhecimento que cogita essas questões no
âmbito da Universidade e não são os arquitetos que vão resolver, mas a
política. O arquiteto exerce uma profissão de desenvolvimento de projetos que
tem uma dimensão social, não para resolver como faz ou não uma casa. Inclusive,
nem precisa saber projetar, basta pensar
e ajudar a construir a política que faz a cidade. Fazendo isso, o arquiteto já
faz um trabalho brilhante.
MÓBILE: E o que, apesar de todos esses problemas,
ainda mantém esse desejo das pessoas estarem juntas?
PMDAROCHA: Qual seria o outro desejo, estar
sozinho? Nós temos que estar juntos. Você tem que aplicar a dimensão lírica e
poética do significado das palavras. Necessidade é necessidade, mas você pode desejar o impossível. A
concomitância de necessidades e desejos é que deu a nós, enquanto animais, o
que chamamos de dimensão humana, inclusive na formação de linguagem. Ela nunca
resolve estritamente o desejo, mas concomitantemente exprime também desejos, o
que se chama de altos ideais do gênero
humano. Mais ou menos tentamos compreender o que somos. A vida é muito
curta e não se pode pretender fazer nada aos 70 ou 80 anos de vida, portanto,
só se pode ter um alento, digamos, no que vai continuar além de nós e, para nos
exprimir, introduzimos a dimensão dos desejos, as visões utópicas e falamos do
curso de nossas vidas. Isso quer dizer que sabemos que vamos morrer. Mas você
poderia me perguntar: “por que, então, você está tão entusiasmado e animadinho?”.
É porque sabemos também que não nascemos para morrer, mas para continuar. Essa
é a essência da minha urgência do discurso. Eu não passo de um pobre
capixaba...






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