A Móbile , a Revista do CAU/SP no seu N° 1 debate as cidades, espaço de convívio de 87% dos brasileiros. O CAU deve ser a referência sobre esse tema e a Móbile servir de suporte para esse debate intenso e muitas vezes caloroso, vide as jornadas de manifestações de junho de 2013. Em entrevista realizada pelo jornalista Roney Rodrigues os professores e arquitetos e urbanistas Ermínia Maricato, Alexandre Delijaicov e Ciro Pirondi falam sobre a situação atual e indicam o caminho democrático de viver nas metrópoles contemporâneas.
Arq. e Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile, a Revista do CAU/SP
www.causp.org.br a Móbile, a Revista do CAU/SP na integra
CIDADES
O QUE NOS UNE ?
CAÓTICA.
DESIGUAL. COSMOPOLITA. VIBRANTE. HOJE 44% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA VIVE NAS
METRÓPOLES. E ESSE PRIMEIRO DOSSIÊ
MÓBILE DISCUTE COMO ANDAM AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS CIDADES, APRESENTA
SUAS CONTRADIÇÕES E CONSTRASTES E QUESTIONA: PODEMOS EVITAR O DESASTRE?
São
Paulo é uma cidade de contrastes. Ao cair da tarde, enquanto milhares de
executivos deixam seus escritórios, localizados em espelhados arranha-céus das
avenidas Berrini e Paulista, um exército com cerca de 1,128 milhão de
desempregados paulistanos, segundo o Dieese, retorna para casa sem perspectiva
de trabalho. Um contraste que permite que a economia de São Paulo gire 388
bilhões de dólares por ano - o que corresponde a uma fatia de 11,5% do PIB
nacional – e, ao mesmo tempo, também seja a capital dos “aglomerados
subnormais”, com dois milhões de pessoas vivendo em favelas e outros
assentamentos irregulares, o equivalente a 11% de sua população.
São
Paulo é, também, uma cidade motorizada. A aquisição de carros cresce em uma
velocidade 8,6 vezes maior que a da população e os sete milhões de veículos que
já circulam diariamente pela cidade matam, proporcionalmente, três vezes mais
pessoas que o trânsito de Nova York. Além dos congestionamentos quilométricos, essa
cultura automobilística tem outras implicações no cotidiano: em média, o
paulistano demora, sem contar a volta, 43 minutos para chegar até o trabalho -
tempo 31% maior do que nas outras metrópoles brasileiras - e um terço da
população é obrigada a se deslocar a pé por falta de dinheiro.
Ao
caminhar por suas ruas, logo se percebe que a maior metrópole da América Latina
é palco de constantes disputas, com pontas nunca atadas da organização do
espaço. Enquanto na Vila Conceição o metro quadrado atinge os 14 mil reais e,
em toda a cidade, desde 2008, segundo o Índice Fipe/Zap, a especulação
imobiliária inflaciona os aluguéis em 93%, 130 mil famílias não têm onde morar.
Além
de tudo isso, São Paulo é, também, uma cidade que adoece. A olho nu pode não se
perceber, porém, em todo o estado, a poluição do ar mata duas vezes mais que os
acidentes de trânsito, os espaços verdes não são democraticamente distribuídos
e os lodacentos rios Tietê e Pinheiros correm como esgotos a céu aberto pelas
entranhas da cidade, recebendo, diariamente, toneladas de lixo e desejos.
Essa
é a metrópole: caótica e desigual, mas, ao mesmo tempo, cosmopolita e vibrante.
Uma cidade partida em que forças hegemônicas desenham por suas ruas e avenidas
uma antieuclidiana “ordem
desordenada”.
Mas
essa lógica não se restringe somente à São Paulo. Hoje o Brasil tem 40 regiões
metropolitanas, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
abrigando 44% da população brasileira e 11% dos municípios. Algumas dessas
regiões são contrastantes, como São Paulo – com 19 milhões de habitantes – e a
metrópole de Tubarão (SC), onde residem menos de 130 mil pessoas.
Essa
multiplicidade metropolitana cria alguns problemas. Formular políticas públicas
comuns de desenvolvimento urbano talvez seja o maior deles, já que dessas 40
regiões apontadas pelo Ipea, apenas oito têm um quadro institucional completo,
com uma lista de funções públicas comuns, conselhos metropolitanos e fundo para
investimentos.
Com
todos os problemas de mobilidade, especulação imobiliária e de ausências de
políticas públicas, é de se imaginar que as cidades estão em um rota de desastre com a precariedade – ou
mesmo ausência – de projetos urbanísticos, o que levaria as metrópoles a um
verdadeiro caos.
“Não
podemos nos iludir: as metrópoles não são caóticas em nada”, rebate o arquiteto
e urbanista Alexandre Delijaicov. Ele é professor da FAU/USP há 14 anos e,
entre seus projetos de maior repercussão, estão os CEUs, os Centros
Educacionais Unificados de São Paulo, prédios construídos em bairros da
periferia da cidade e que concentram creches, escolas, teatros e espaços esportivos.
“Tudo
ainda está por se fazer”, continua ele. “Essa é a lógica do capital: causar o desequilíbrio
do tecido urbano. E as metrópoles precisam ter esse caráter físico-espacial
para perpetuar a opressão sobre os outros. O caos é muito bem planejado”.
“Como
diz Mike Davis [teórico urbano americano],
até merda já virou mercadoria”, lembra
Ermínia Maricato, professora aposentada da FAU/USP. “Devido à desregulamentação
das políticas públicas e o assédio das multinacionais, o capital já transformou
serviços públicos como saneamento, transporte, coleta de resíduos, iluminação -
tudo mesmo - em mercadoria”. E conclui: “a política urbana é desenhada pelo clientelismo e pelos capitais que tomam
conta da cidade”.
Mas
como as cidades foram mercantilizadas, as diferenças sociais aprofundadas e
muitas políticas públicas desmanteladas? Acompanhe no primeiro Dossiê Móbile.
CIDADE DE CABEÇA PRA BAIXO
A
notícia já era prevista: em 2007, pela primeira vez na história mundial, a
população urbana superava a rural. Mais do que representar a imagem de pessoas
compartilhando um mesmo espaço, os dados simbolizavam um prenúncio de colapso
nas metrópoles. Talvez, mais que isso: o surgimento da “era das megalópoles”.
O
alarme não é para menos. Estimativas apontam que, em 2015, coexistirão 33
megalópoles situadas, em sua maioria, nos países do chamado Terceiro Mundo e
que, em 2025, a Terra possuirá cinco bilhões de habitantes urbanos. O movimento
em direção a isso não para: a cada semana, 1,2 milhão de pessoas se mudam do
campo para a cidade, um processo particularmente comum na Ásia e na África. Em quarenta
anos, o mundo precisará de mais mil metrópoles de três milhões de habitantes.
A
urbanização não é novidade para o Brasil, que já conta com 80% da população vivendo
em cidades, porém essa “era das megalópoles” é, sim, algo novo: um estudo da
Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), com base em imagens
de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que São
Paulo já atingiu o patamar de macrometrópole, a primeira do hemisfério sul. O
trecho de 102 quilômetros que liga a cidade à Campinas já é uma mancha urbana que
une 65 municípios e abriga 12% da população brasileira.
No
restante do país, o crescimento das regiões metropolitanas é evidente e, com
isso, surgem problemáticas e crises que já deixam
de cabelo em pé os administradores
urbanos – e principalmente a população. Mas como as cidades chegaram a esse
patamar de crescimento – e desorganização espacial?
“A
forma como fomos colonizados deixa até hoje suas marcas na cidade”, responde Ciro
Pirondi, diretor da Escola da Cidade. “O sistema de colonização instalado na
América espanhola e portuguesa, é, por natureza, extremamente predatório e constituiu
cidades somente a partir da ideia de mercadoria e de especulação do valor do
terreno”, analisa. Segundo ele, as consequências são trágicas e “o colonialismo
colocou as cidades brasileiras em uma rota
de colisão”.
“Foram
500 anos de hemorragia inclemente dos
recursos naturais e de vampirização das cidades”, destaca Delijaicov sobre como
as cidades foram erguidas. “E ficou o ‘olhar do colonizador’. Dessa forma, as
metrópoles foram construídas de forma estúpida:
dentro de um modelo mercantilista e rodoviário e, sempre, em torno do exército
industrial de reserva, promovendo o desencontro e o medo. É a lógica do vencedor
e do perdedor e, hoje, somos todos perdedores”.
Gestão pública metropolitana
Nos
anos 1970, durante a Ditadura, a administração da metrópole envolveu algumas
empresas de desenvolvimento metropolitano e um órgão específico de
planejamento. Pouco se avançou, porém essa ação é considerada um pequeno
princípio de gestão metropolitana.
A
partir da Constituição de 1988, os municípios brasileiros fortaleceram seu
papel de gestores de políticas públicas com um significativo aumento de suas
participações na receita fiscal, que saltou de 9,5%, em 1980, para 16,9%, em
1992.
Essa
“descentralização fiscal” representou a ampliação – embora desproporcional - das
competências municipais em setores sociais - como educação, saúde e habitação
-, mas também uma intensificação da vida política local. A década de 1990
representou, portanto, o fortalecimento da autonomia local, o que incrementou processos
de reforma no setor público. Porém, também nascia um problema: a falta de ações
para integrá-las, especialmente em temas nevrálgicos, como mobilidade e
saneamento, que não podem ser tratados isoladamente por cada município.
A
grande dificuldade das metrópoles – e que persiste até hoje – era conseguir
montar uma gestão para superar essas diferenças políticas.
“Foi
uma crise fortíssima, aprofundada pelo neoliberalismo e pelas privatizações”, avalia
Maricato, recordando-se dos desafios da época, quando, inclusive, foi secretária
de Habitação e Desenvolvimento Urbano do município de São Paulo, entre 1989 e
1992, no governo Luiza Erundina. “Passamos, praticamente, as décadas de 1980 e 1990
sem políticas públicas nacionais e estaduais. Até o final dos anos 1990, a
proposta de Reforma Urbana era central, tinha representantes no Congresso, nas
Câmaras Municipais, nas Assembleias, elegemos muitos prefeitos, vereadores,
lideranças sociais fortes, pesquisadores, professores. A partir do momento em
que os investimentos retornam para áreas como saneamento e transporte, as coisas
retrocedem. Mas, desde junho de 2013, esse quadro mudou completamente”.
Cidade para se desfrutar
A
mudança que a professora Ermínia Maricato se refere - quando manifestações
tomaram conta das ruas e da pauta política do país - ficou mundialmente
conhecida como “Jornada de Junho”. Na época – e até hoje – muitos procuravam
sentido para tais “fenômenos”, porém havia um consenso na interpretação das
manifestações: o direito de acessar a metrópole.
“O
capital tomou o comando da cidade: a riqueza toda vai para a especulação imobiliária,
os automóveis entopem, literalmente, a cidade e o transporte coletivo permanece
em ruínas”, aponta Maricato. “A partir de junho, se assume o transporte urbano
como questão fundamental para a vida das pessoas”.
A
professora defende a seguinte ideia: o tema da mobilidade urbana, que atinge
todas as classes, é reflexo direto da organização da cidade, com as longas
distâncias entre trabalho e moradia. Mas, mais que isso, significa o direito de
acessar a cidade. “As pessoas até aceitam morar no fim do mundo, mas querem
chegar aos seus empregos. Hoje a jornada do transporte cansa mais do que o próprio trabalho. Além
disso, sempre ouço dos jovens da periferia: ‘no meu bairro, à meia-noite o
transporte é suspenso e não tem nada para fazer’”.
E
o tema passou, realmente, a “bombar” nos últimos tempos. Um levantamento do jornal
O Estado de São Paulo mostra que o tempo de deslocamento de casa para o
trabalho é até 163% maior na periferia da capital paulista. Aproximadamente 20%
dos trabalhadores das regiões metropolitanas brasileiras gastam mais de uma
hora por dia no deslocamento de casa para o local de trabalho. Ao mesmo tempo,
desde 2001, a quantidade de automóveis dobrou, passando de 24,5 milhões para os
50,2 milhões (2012).
Há,
ainda, o problema dos deslocamentos entre municípios que, segundo o Censo 2010,
nas 12 principais metrópoles, é uma realidade para 13 milhões de pessoas que se
deslocam, diariamente, entre os municípios para trabalhar ou estudar.
“Mobilidade
é uma questão eminentemente de projetos urbanos”, explica Pirondi. “Se aliarmos
competência técnica com vontade política teremos boas cidades. Temos que
inverter a equação de hoje e colocar, em primeiro lugar, o pedestre, depois os
veículos não motorizados e os mecanizados coletivos. O carro viria por último.
Em
seguida, ele preanuncia: “no futuro, vão pensar que não batíamos bem da cabeça. Colocamos pessoas para viver a 20 quilômetros
do trabalho, depois construímos um sistema de transporte embaixo da terra que
custa um milhão de dólares o metro para trazermos eles para esse mesmo local. Fizemos
rios ficarem retos e, não contentes, invertemos o fluxo das águas, sempre para
mercantilizar o espaço urbano. Vão pensar: esse povo do passado era estúpido!”.
Debaixo do afasto
O
que há abaixo do asfalto? A resposta, para muitas das principais vias de São
Paulo, é: rios. Durante o processo de crescimento e urbanização, muitos rios
foram canalizados e cederam espaço para a corredores importantes como a Avenida
23 de Maio e a Avenida 9 de Julho.
Um
dos primeiros exemplos foi a construção do Viaduto do Chá, sobre o Vale do
Anhangabaú. Depois, vieram outras obras de modificação, canalização e
retificação de rios. Os problemas decorrentes disso são sentidos diariamente
pelos paulistanos: rios poluídos e sem vida, enchentes e congestionamentos quilométricos.
O
autor de projetos como esse foi Prestes Maia, então prefeito, que, na década de
1930, iniciou as obras do seu plano de avenidas, baseado em modelos de cidades europeias,
porém sem combinar outras modalidades de transporte que não fossem
roadoviaristas. A partir daí, o carro foi tratado como peça-chave para a
modernização do país.
“Como
deixamos isso acontecer se mais de um terço das viagens nas regiões metropolitanas
são feitas a pé porque a população não tem dinheiro?”, questiona Delijaicov. No
entanto, tem a resposta na ponta da
língua: “é a injustiça social da perversa distribuição de renda”.
Delijaicov
é considerado, por muitos, como o “inimigo número um dos carros”, considerando
os automóveis uma arma e os motoristas,
por consequência, assassinos em potencial.
Cita as mortes no trânsito – 22,5 para cada 100 mil habitantes, a maior taxa
desde que os dados começaram a ser contabilizados – e vaticina: “nós não precisamos
de carros. Se houvesse pontos de emprego e de trabalho distribuídos pela cidade
- até uma distância de 20 ou 30 minutos de caminhada, pedalada ou transporte
sobre trilhos – teríamos um melhor índice de urbanidade e de melhora coletiva
na vida das pessoas”, afirma ele.
Delijaicov
propõe uma solução para desafogar o tráfego: utilizar os rios. Com importantes
projetos para a mobilidade urbana - como a construção de um anel hidroviário de
600 quilômetros de extensão, ligando os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí e
as represas Billings, Guarapiranga e Taiaçupeba – o arquiteto sugere: “o
hidroanel de São Paulo seria a retomada da navegação fluvial, a partir do
transporte de cargas e do transporte alternativo de passageiros. Isso existiu
durante séculos nas cidades e foi interrompido na década de 20”, diz ele.
Na periferia
Usufruir
a cidade é uma possibilidade para poucos, dada a redistribuição de territórios que
formou as periferias e ressignificou os espaços urbanos pelo mercado
imobiliário.
Porém,
apesar de ressignificadas, o modelo ainda é colonial, como descreveram Pirondi
e Delijaicov. Se antes havia a distinção entre a “Casa Grande” e a “Senzala”,
hoje essa lógica foi substituída por “centro” e “periferia” e, cada vez mais,
cresce o número de espaços particulares que diferenciam e separam as classes
com maiores e menores condições financeiras, como os condomínios fechados.
Ao
mesmo tempo, um total de 11.425.644 de pessoas - o equivalente a 6% da
população do país - ou pouco mais de uma população inteira de Portugal ou mais
de três vezes a do Uruguai - vive, atualmente, em aglomerados subnormais. A
maioria esmagadora desses domicílios está concentrada em um grupo de 20 Regiões
Metropolitanas (RMs) - são 88,6%, ao todo.
Moradia
Desde
a extinção do Banco Nacional de Habitação (BNH), em 1986, a habitação social não
avançou na agenda das políticas sociais e, com isso, os problemas habitacionais
se agravaram.
A
Fundação João Pinheiro estimou que, em 2008, o déficit habitacional brasileiro estava em cerca de 5,5 milhões de
unidades, sendo 1,5 milhão nas regiões metropolitanas. Desses totais, 90%
correspondem a famílias em situação de pobreza, com renda familiar de até três salários
mínimos.
Esse
déficit, claro, é apenas uma parte dos
problemas de moradia, porque os domicílios existentes apresentam graves
situações de precariedade. O IBGE estima que os domicílios em áreas de favelas somam
um total de 3,2 milhões.
Maria
das Graças Xavier é coordenadora da União Nacional por Moradia Popular (UNMP) e
fazia parte dessas estatísticas. Morava na Vila Oliveira, periferia da Zona Sul
de São Paulo, ganhava salário mínimo e precisava, com o parco salário, pagar
aluguel e todas as contas de casa. No final do mês, sempre estava no vermelho e precisava tomar uma cruel
decisão: pagar o aluguel ou comprar comida. “Assim é com inúmeras famílias no
Brasil”, conta ela. “Porém, nossa Constituição garante que temos direito à
moradia digna, com infraestrutura básica com esgoto, água e serviços de coleta
de lixo. Não é um pedido, é um direito constitucional”.
Para
isso, ela defende que os governos implantem moradia social, direito concedido a
pessoas de baixa renda a uma casa ou apartamento por meio de doação ou
financiamento com valores mensais módicos que não comprometam o orçamento das
famílias. Mas, para isso, segundo ela, ainda é preciso muita luta. “E é aí que
vem o nosso papel, de movimento social. Quando colocamos um feijão em uma panela
de pressão, ele cozinha mais rápido que em uma panela normal. Sabemos que, mais
dia, menos dia, o feijão vai cozinhar,
ou seja, teremos moradia popular. Mas nosso movimento é botar pressão para que o governo agilize as políticas públicas para
moradia”. Somente em 1996, a Constituição finalmente incluiu o Direito à
Moradia como um dos direitos sociais. Do ponto de vista das responsabilidades
governamentais, o texto de 1988 já havia estabelecido a habitação como
"competência comum" a União, estados, municípios e Distrito Federal.
Hoje,
pesquisas apontam mais de 30 milhões de pessoas sem teto no Brasil, enquanto,
só na capital paulistana, cerca de 290 mil imóveis não são habitados, segundo
dados preliminares do Censo 2010.
Porém,
de acordo com Graça Xavier, os movimentos por moradia têm avançado na resolução
dos problemas. “Hoje os movimentos sociais por moradia conseguem incidir nas
políticas públicas”, afirma. “Não é mais só reivindicações, já apresentamos
propostas concretas junto aos governos. Eu diria que o movimento avançou na
liquidez das políticas públicas; não esperamos mais, corremos atrás e
apresentamos nossas propostas”.
UMA METRÓPOLE DESENHADA
A
descentralização das políticas sociais, durante a década de 1990, avançou mais
em algumas áreas - como saúde, educação e assistência social - do que em outras
- saneamento ambiental e habitação, por exemplo. Também avançou com a criação
de espaços de participação social.
A
partir de 2003, há mudanças significativas nos arranjos de gestão em torno da
política de desenvolvimento urbano, já que antes os conselhos envolvendo
políticas urbanas eram inexistentes em grande parte dos municípios e não havia
nenhum conselho de âmbito nacional ligado a políticas urbanas.
A
criação do Ministério das Cidades, a realização da I Conferência das Cidades,
em 2003, e a institucionalização do Conselho das Cidades, em 2004, deram início
a um processo de construção da política nacional de desenvolvimento urbano
envolvendo conferências municipais e estaduais, e a adoção de estruturas
normativas representativas, em acordo com os princípios defendidos
historicamente pelos movimentos nacionais pela reforma urbana.
“As
cidades sumiram da agenda depois da criação do Ministério das Cidades”, afirma a
professora Maricato. Segundo a urbanista, o Ministério das Cidades conduz a
política urbana como se fosse uma soma de obras. “Hoje seria fundamental ter um
organismo metropolitano com autoridade entre os municípios. Então, a partir de
2013, os temas relativos à cidade vêm ganhando mais visibilidade”.
Para
suprir a falta de regulamentações referentes à metrópole, hoje se discute o
Projeto de Lei nº 3.460/2004, denominado “Estatuto das Metrópoles”, que
reavivou os debates que envolvem as Regiões Metropolitanas, pois, embora
previstas na Constituição Federal de 1988, ainda carecem de definição mais
precisa.
“É
preciso primeiramente desenhar a cidade e, somente depois, escrever em lei”,
avalia Pirondi sobre a formação desse Estatuto. “Todas as nossas iniciativas
anteriores eram assim: construir leis para o desenho da cidade. Precisamos
tentar diferente, fazendo essa inversão, ouvindo a população e a universidade para,
assim, representar o anseio popular. A cidade é o artefato humano mais
engenhoso que somos capazes de construir”.
A
construção desse Estatuto articularia redes que ultrapassariam as fronteiras de
um município, pois, hoje dificilmente uma cidade isoladamente tem força
política para determinar a estratégia de investimentos e gestão destas
infraestruturas. No entanto, algumas iniciativas caminham para construir essas
redes.
Os consórcios
A
associação de municípios em consórcios públicos – principalmente os pioneiros
consórcio do ABC e do rio Piracicaba - foi uma das respostas que emergiram,
recentemente, para enfrentar os limites da ação puramente municipal. São
inúmeros os exemplos no Brasil de associativismo temático, como lixo, saúde e
transportes, agregando setores que ultrapassam os limites das cidades. Em Minas
Gerais, por exemplo, 92% dos municípios estão envolvidos em Consórcios
Intermunicipais de Saúde.
“Contraditoriamente,
quando a lei de colaboração federativa é criada, em 2005, ela entra em declínio.
Tínhamos na década passada alguns ensaios, mas aquela energia que se colocava
na discussão dos consórcios desaparece: quando a esfera federal assume mais
protagonismo, o protagonismo municipal cai”, analisa Maricato.
Entretanto,
embora os Consórcios representem um passo importante para a construção de uma
cooperação horizontal entre municípios, seu caráter essencialmente monotemático
e a não participação da comunidade, os tornam limitados enquanto alternativa de
gestão efetivamente cooperativa e amplamente democrática.
A
gestão dos recursos hídricos, que avançou na construção de novas formas de
gestão com a organização dos Comitês de Bacias Hidrográficas envolvendo a
comunidade, é outra forma contemporânea de gestão supralocal. Os Comitês de
Bacias têm por base experiências de associação e de consorciamento que partem
dos próprios municípios envolvidos e afetados por problemas comuns, mas que,
por sua natureza, extrapolam o nível local.
Transformações
Uma
paulatina dúvida perpassa a cabeça de grande parte dos moradores das metrópoles:
é possível manter o otimismo e transformar os espaços em que vivemos?
“A
minha geração aposta sempre em uma visão holística e numa transformação que é
reforma ou revolução”, responde Maricato. “Já hoje se aposta em uma
participação direta. Os jovens da periferia, por exemplo, têm um motivo pra
revolta, já o jovem de classe média tem um motivo que é mais individual. Mas as
mudanças que aconteceram a partir de junho, como suspender o aumento da tarifa de
ônibus em 100 cidades, já mostram uma transformação”.
Pirondi
também já vê algumas transformações, o que mantém em pé seu otimismo. Uma
delas, segundo o arquiteto, é que nos últimos 25 anos cresceu a consciência
ecológica, fato arraigado às novas gerações. Outro fator é a ideia de que a
cidade pode – “e deve” - ser desenhada, não autoritariamente, mas em uma grande
e incessante obra coletiva.
“A
palavra desenho vem do latim, designare,
que significa desejo”, explica ele, didaticamente. “Esse desejo de desenhar uma
cidade para todos é um desejo que já está em todas as manifestações, o que me
leva a crer que cada vez mais encontraremos caminhos para sairmos dessa rota de
colisão. É um desejo que não está vinculado a uma pessoa, ideologia ou parte,
mas a todo um processo construtivo de uma sociedade mais digna. É uma tomada de
decisão humana que mostra que da forma que estávamos, provocaríamos um desastre
irreversível”.
Delijaicov
defende que construir uma cidade policêntrica é urgente, o que ajudaria na
constituição de uma estrutura ambiental metropolitana com maior bem-estar
individual e coletivo. “Na construção de uma coletividade territorial, uma visão
sistêmica de que podemos construir em conjunto a cidade é importante. A coisa
mais importante para a arquitetura é a cidade. Esse projeto é de autoria
fundamentalmente coletiva, dentro de um alicerce ético, uma estrutura estética,
buscando uma dimensão das virtudes e da arte de viver com as diferenças”.
Para
o arquiteto, cada pessoa pode construir uma cidade melhor: “as cidades precisam
promover pontos de encontro, uma capilaridade de esquinas culturais. A cidade
policêntrica vai desde a retomada da rua para encontros e convivências das
diferenças e a retoma da qualidade de vida, mas passa fundamentalmente pela
infraestrutura da construção coletiva das coisas públicas, que é uma arte da República
democrática de fato participativa sem
jogo de cena”.
“A
cidade também é a construção de um processo educacional”, afiança Pirondi. “É
algo muito importante para estar nas mãos de uma categoria profissional ou
política. Ela deve ser uma construção coletiva, que deveria começar junto aos
pequenos na escola primária, com uma disciplina que chamaria história das cidades, acompanhando até a
formação, o que ajudaria a construir um processo afetivo pela cidade: você gostar dela. Afinal, as cidades
representam esse anseio humano: estarmos
juntos.”
















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