Páginas

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Apoio de Sergio Ferro à Chapa CAU PARA TODOS-UNIÃO E VALORIZAÇÃO




Motivo de orgulho o apoio do prof. Sérgio Ferro à  chapa CAU PARA TODOS que muito contribuímos para sua formação  ampla , democrática e participativa.Tenho certeza que a construção do  CAU  iniciado em 2012 foi fundamental para aproximar os  profissionais da sociedade e gerar um fraterno debate sobre o papel social de nossa profissão e o  fortalecimento da arquitetura e urbanismo na vida do povo,  nas cidades e em defesa de uma nação soberana .


Professor Sergio Ferro,sua luta esta viva e presente , obrigado pela confiança!!  


Arq. Urb. Victor Chinaglia



Foto: Declaração de Apoio de Sérgio Ferro à chapa CAU PARA TODOS

Caros amigos,

Há mais de 40 anos que não voto em nada. Meu título de eleitor foi rasgado na Oban em 1972. “Você nunca mais precisará dele”, foi a explicação. Não me senti lesado. Fiel seguidor de Marx, não acredito em república parlamentar. Segundo ele, trata-se de uma sociedade anônima dos representantes dos diversos setores do capital. Aqui na França isto foi demonstrado pelas cinco repúblicas sucessivas.
Vocês me obrigam a voltar atrás.
Se pudesse, votaria com entusiasmo na Chapa “CAU Para Todos”. O programa me parece conter propostas de alta importância – e de muita generosidade. Sobretudo no que diz respeito aos trabalhadores na construção e ao atendimento das necessidades básicas das camadas sociais mais carentes em questões de arquitetura e urbanismo. 
Mas, como não posso votar (há muito também não sou membro do CREA ou de seu novo substituto para os arquitetos) contem pelo mesmo com meu apoio simbólico e com minha simpatia e amizade.

Sérgio Ferro,
29 de setembro de 2014
_______________________________________________________

Sérgio Ferro é arquiteto e pintor, foi professor da FAU-USP, cassado pela ditadura em 1970, preso, exilado. Na França é professor aposentado pela Escola de Arquitetura de Grenoble. Autor dos livros "O Canteiro e o Desenho" (1979) e "Arquitetura e Trabalho Livre" (2006), entre outros.



Declaração de Apoio de Sérgio Ferro à chapa CAU PARA TODOS



Caros amigos,


Há mais de 40 anos que não voto em nada. Meu título de eleitor foi rasgado na Oban em 1972. “Você nunca mais precisará dele”, foi a explicação. Não me senti lesado. Fiel seguidor de Marx, não acredito em república parlamentar. Segundo ele, trata-se de uma sociedade anônima dos representantes dos diversos setores do capital. Aqui na França isto foi demonstrado pelas cinco repúblicas sucessivas.
Vocês me obrigam a voltar atrás.
Se pudesse, votaria com entusiasmo na Chapa “CAU Para Todos”. O programa me parece conter propostas de alta importância – e de muita generosidade. Sobretudo no que diz respeito aos trabalhadores na construção e ao atendimento das necessidades básicas das camadas sociais mais carentes em questões de arquitetura e urbanismo. 
Mas, como não posso votar (há muito também não sou membro do CREA ou de seu novo substituto para os arquitetos) contem pelo mesmo com meu apoio simbólico e com minha simpatia e amizade.

Sérgio Ferro,
29 de setembro de 2014
_______________________________________________________




sábado, 20 de setembro de 2014

João Whitaker: 41 prédios para habitação social no Centro? Ótima iniciativa, mas tem que ter algo mais




41 prédios para habitação social no Centro? Ótima iniciativa, mas tem que ter algo mais.

João  Whitaker :

Arquiteto e urbanista, professor da FAU (USP) é colaborador da Móbile, a Revista do CAU/SP e escreveu este artigo para originalmente para o blog Cidades para quem?




A prefeitura anunciou recentemente que irá desapropriar 41 prédios vazios na área central da cidade para destiná-los à habitação social (leia aqui). Muitos deles, aliás, já estão ocupados pelos diversos movimentos de moradia, que com isso apontam para a ilegalidade destes edifícios, que não cumprem a sua função social. Manter um prédio vazio em uma área de grande infraestrutura custa caro à sociedade, e é antagônico com a enorme demanda por moradia que nossas cidades apresentam.
A iniciativa é muito positiva, e mostra que a prefeitura conseguiu equacionar a questão dos custos, que nesses casos por der driblada em função das várias dívidas que esses prédios geralmente possuem. Ainda assim, vai gastar demais: é incompreensível o valor a ser gasto de R$ 300 milhões por prédios abandonados - portanto sem interesse de mercado - há décadas. Mostra como, no Brasil, as leis da oferta e demanda não valem nada e o poder do proprietário passa por cima do interesse social. Em muitos países do mundo, notadamente em quase todos da Europa, pre´dias assim teriam sido sumariamente desapropriados há muito tempo. Mas enfim, ainda assim um passo foi dado aqui em São Paulo.
Pretende-se oferecer o apartamento ao usuário cadastrado, em geral os militantes dos movimentos que lutam por moradia no centro ou os inscritos nas listas da COHAB, com o financiamento do MInha Casa MInha Vida e o aporte de recursos estaduais. Corretamente, o Secretário Municipal de Habitação admite que o custo mais alto desses apartamentos - cerca de 200 mil - e relação ao uma casa de outro programa habitacional vale a pena, pois a recuperação desses prédios irá "irradiar uma revitalização sem precedentes na região".
É verdade, mas não é só isso. O preço aparentemente mais alto se dilui se forem computados os gastos em infraestrutura urbana que o governo não terá que fazer, já que ela existe no centro, ao contrário de quando faz conjuntos em periferias distantes e desprovidas de infraestrutura. Essa conta é raramente feita, pois geralmente não interessa à elite argumetos que justifiquem povoar áreas centrais com os mais pobres. Coisas do Brasil, e mais um ponto para a Prefeitura de São Paulo.
Mas ainda há um grande equívoco no ar: neste caso, a decisão de destinar as unidades habitacionais decorrentes da reabilitação desses edifícios ao acesso à propriedade, como é feito tradicionalmente no Brasil em qualquer plano habitacional social, não é uma boa solução.
Justamente por serem caros, os apartamentos resultantes das reformas terão rapidamente forte valor de mercado, e será difícil para a prefeitura garantir a permanência dos beneficiados nesses prédios, face à forte oferta que irá surgir pela sua compra. É claro que é um direito de cada um vender aquilo que é seu, mas neste caso, perderia-se o sentido original da política, que é o de permitir o acesso aos mais pobres nas áreas mais nobres e centrais da cidade.
Como a Prefeitura pagará bastante caro por estes edifícios e os apartamentos reformados, faz sentido que capitalize esse investimento, construindo um parque habitacional próprio, sobre o qual sempre terá o controle e a gestão. Os apartamentos deveriam ser destinados à locação, para as mesmas famílias cadastradas, mas que então os ocupariam como inquilinos da prefeitura, e não como proprietários.
A locação social foi implementada em massa em toda a Europa e na América do Norte a partir do Pós-Guerra, justamente por essa razão: não faz sentido o poder público abrir mão de um capital imobiliário importante, pois com ele pode-se regular, a longo prazo, uma boa política de acesso à habitação para os mais pobres.

Engana-se quem acha que essa modalidade é menos segura para quem vive nos apartamentos. Na locação social, regras são estabelecidas mais claramente: valores de aluguel controlados e reduzidos para ficarem dentro da capacidade der pagamento das famílias, direito de permanência em função da renda baixa, possibilidade de transferência para filhos do direito de aluguel do imóvel, garantias de não-despejo e regras para a inadimplência. Naqueles países, uma vez que tais políticas funcionaram e que os moradores ascenderam na pirâmide social, saíam dos apartamentos em busca de opções de mais alto valor, deixando-os para novos usuários mais pobres.
Por sua vez, o Poder Público zela melhor pela manutenção dos prédios de sua propriedade - um problema recorrente na região central - , mas sobretudo estabelece uma regulação natural dos preços imobiliários na região, uma vez que os imóveis com aluguel tabelado que não podem ser vendidos ao preço de mercado tendem a segurar a valorização geral.
Por isso, não há nenhum sentido em ver a Prefeitura investir pesadamente na reforma desses edifícios para depois perder o importante capital imobiliário público que adquiriu. Eu já havia sugerido isso em artigo neste blog, em setembro de 2013 (clique aqui).
Acredito que a COHAB, por sua vez,m deveria ser completamente remodelada em função dessa nova política habitacional. É tempo de desfazer-se do parque existente, quase todo inadimplente, repassando-o para uma empresa que faça a gestão do repasse definitivo das moradia da Cohab aos seus moradores, negociando o pagamento, e projete e proponha usos diversificados nos terrenos remanescentes dos grandes conjuntos, dando-lhes mais urbanidade.
A COHAB deveria, então, tornar-se a empresa gerenciadora do parque habitacional de locação social da cidade de São Paulo (reincorporando inclusive o importante Parque do Gato, que foi indevidamente abandonado à própria sorte na gestão anterior). Deveria fazer a reforma desses edifícios, e a gestão subsequente da sua locação. Um grande desafio, que poderia simplesmente revolucionar a cara do nosso centro.
Tal proposta não tem nada de extraordinário. É absolutamente comum políticas de locação social pública em áreas centrais, em uma infinidade de países. O Plano Diretor que acaba de ser aprovado na Câmara propõe, aliás, em seu artigo 296, a "constituição de parque imobiliário público, vinculado a programas de locação social e transferência da posse", como parte de um "Serviço municipal de moradia social".
A aquisição desses 41 prédios é uma oportunidade única para começar.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O RETORNO DE SÉRGIO FERRO, texto de Pedro Fiori Arantes




Arquiteto Pedro Fiori Arantes, ativo integrante da Móbile , a Revista do CAU/SP, descreve a importância  do arquiteto Sérgio Ferro no debate sobre o papel social do arquiteto e sua contribuição na construção civil no solo da produção, o canteiro.

Debate esse que aprofundarei nas próximas postagens decorrente da premente pressão social do último ano, quando o grito da terceira geração de trabalhadores   urbanos ganharam as ruas e as plataformas políticas e novas movimentações aparecem com as ocupações organizadas pelos movimentos sociais  de grande vazios urbanos.  

A visão do arquiteto quase sempre é envidraçada e do lado seguro da produção.

O retorno de Sérgio Ferro

O autor de o canteiro e o desenho vai à FAUUSP a convite dos estudantes. Sua crítica às relações de trabalho na construção civil continua atual

Texto original de Pedro Fiori Arantes Au  Edição 115 - Outubro/2003 .



Em fevereiro de 2002, Sérgio Ferro foi convidado pelos estudantes da FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) para uma conversa. Segundo ele, foi a primeira vez que pôde debater na faculdade desde sua demissão, há 32 anos, por suposto "abandono de cargo" - quando, na verdade, esteve impedido de dar aulas, preso pelo regime militar. 

Diante de caras novas e de algumas bem conhecidas (como a do sociólogo e amigo Francisco de Oliveira), Sérgio narrou sua trajetória de vida, recordou as principais idéias do livro O Canteiro e o Desenho e apontou novos caminhos. O roteiro daquela fala improvisada (mas cujo script certamente estava pronto há muito tempo) iniciava-se em Brasília e se encerrava com os movimentos dos sem-terra e dos sem-teto. Um arco histórico de 50 anos no qual as promessas de desenvolvimento deram lugar a uma sociedade cindida, em que os sem-tudo são, a um só tempo, sua trágica expressão e sujeitos potenciais de um outro futuro.

Tratado por tanto tempo "como morto", a aparição de Sérgio Ferro na FAUUSP teve algo de fantasmagórica. O silêncio que se impôs sobre ele no Brasil é, sem dúvida, conseqüência da sua crítica - "suicida", como diz - ao nosso métier. "Não é do agrado de nenhum arquiteto ouvir que colabora para a exploração do operariado, daquele mesmo operariado que ele está tentando defender ao pensar em casa popular, escola, creche."

O entusiasmo que tomou conta dos que lotavam o anfiteatro da faculdade demonstrou que os "velhos temas" de Sérgio são ainda atuais e, mais que isso, os jovens não estavam ali para vê-lo como "peça de museu" e sim para debater com ele sobre como enfrentar as questões contemporâneas, tanto as novas quanto as de sempre, ainda não resolvidas.

Para a geração de Sérgio Ferro, que se formou no início dos anos 60, a reflexão sobre o significado de Brasília e sua construção foi o ponto de chegada e apoteose da arquitetura moderna brasileira. Para ele, ao contrário, esse era o ponto de partida.

Sérgio contou que observou os vários ângulos do nascimento de Brasília e, por isso, aprendeu a desconfiar do que via. Comparava o discurso progressista dos arquitetos, cheio de boas intenções, com o que ouvia "escondido atrás da porta" na casa de seu pai, um político do PSD, nas conversas de Juscelino, Tancredo e Ulysses Guimarães, e ainda com as freqüentes visitas às obras da capital, quando assistia como se dava "o levantar, o sair do chão". 

A imagem de um Brasil novo, retratada nos desenhos "perfeitos, brancos, puríssimos" de Niemeyer, era realizada por uma "massa de gente ultramiserável, ultra-explorada", com greves reprimidas, doenças e muitas mortes (em 1970, Sérgio esteve preso com antigos operários de Brasília que lhe contaram como era a vida naquele imenso canteiro). Esse descompasso entre "o sonho do arquiteto carregado de intenções progressistas" e "a exploração do trabalho no canteiro", observado em grande escala na construção da nova capital, será a base da sua crítica. 

Foi ainda na década de 1960 que Sérgio Ferro adquiriu uma formação capaz de dar consistência ao que já intuía sobre Brasília. Além de ter-se tornado professor de história da FAUUSP em 1962, realizou "ensaios" e experiências em arquitetura com seus companheiros Flávio Império e Rodrigo Lefèvre e estudou a obra de Marx com um grupo da Faculdade de Filosofia (da qual faziam parte Roberto Schwarz, Emir Sader e Marilena Chauí, entre outros). Em 1967, saiu do Partido Comunista Brasileiro junto com Marighella para fundar a ALN. 


Assim, no final dos anos 60, Sérgio estava preparado para escrever sua crítica fundamental à produção da arquitetura, cujo primeiro rascunho foi o texto A Casa Popular, de 1969. No ano seguinte, Sérgio acaba preso pelo regime, passa um ano na cadeia e, ao sair, não pode retornar à FAUUSP. Pressionado pelas circunstâncias políticas e abalado com a expulsão da faculdade, embarca com a esposa e filhos para a França, onde conclui O Canteiro e o Desenho. 

As questões desenvolvidas por Sérgio Ferro no livro partem de uma única e simples constatação, suficiente, porém, para inverter o sinal da crítica: a de que a arquitetura é uma manifestação da "forma-mercadoria", pois "todo e qualquer objeto arquitetônico é um dos resultados do processo de valorização do capital". As questões relativas ao processo artístico envolvido na arquitetura, que dominam o debate corrente, colaborariam, na verdade, para encobrir o fundamental, ou seja, a contradição entre capital e trabalho - ou entre desenho e canteiro. E mais: as chamadas "revoluções nas formas" seriam, antes de tudo, respostas às lutas sociais nos canteiros.

Para Sérgio, não podemos, como arquitetos, mascarar o fato de que o canteiro de obras é um dos lugares privilegiados da exploração do trabalho e fundamental no sistema de produção de mercadorias. A construção civil, explica ele, mesmo relativamente "atrasada", está conectada ao restante da economia moderna, alimentando-a com a enorme massa de mais-valia que produz, de forma semelhante ao que ocorre na relação desigual e combinada entre países periféricos e centrais no sistema capitalista. Essa constatação da complementaridade entre modernidade e atraso é um ponto fundamental da sua crítica (como também da de Chico de Oliveira), oposta às interpretações correntes e dualistas do Brasil. 

A coerção direta e a violência redobrada que ocorre nos canteiros de obra (redobrada apenas porque não conta com o poder de automação das máquinas sobre o trabalho) não é algo marginal, mas, sim, uma fratura exposta que deixa ver as contradições amplas do sistema. Tal como na periferia do capitalismo é possível ver com máxima clareza a verdade do capital.

Defensor de um marxismo que não caiu com o fim do bloco soviético, Sérgio é contundente ao afirmar que "não há uma transformação social positiva e forte sem que as relações de produção concretas sejam alteradas". Para ele, por isso mesmo, mais do que nunca "é preciso fazer ensaios", experimentar, mesmo que restritamente, novas relações de produção. 

Segundo Sérgio, nós arquitetos brasileiros temos, paradoxalmente, uma situação de atraso que seria duplamente favorável. Em primeiro lugar, há a possibilidade de tirar partido da forma de produção relativamente elementar da arquitetura. Em segundo, por estarmos cercados por imensos "bolsões" de pobreza, teríamos a oportunidade de inventar novas práticas junto às organizações populares. 

A primeira depende de uma disposição clara para superar a combinação entre produção e dominação no campo da arquitetura. Nesse caso, a elementariedade produtiva e o atraso relativo do canteiro de obras (que significam aumento da violência no controle da força de trabalho), numa perspectiva emancipadora, tornam-se uma vantagem ao permitir "guardar o sentido experimental da autonomia produtiva" melhor do que outros setores da economia, uma vez que "o controle da produção é mais simples do que o de uma indústria". 

Em O Canteiro e o Desenho, Sérgio descreve esse novo canteiro como relação democrática entre operários, arquitetos e usuários, no qual ressurgiria a consciência da obra. A segurança no trabalho e a preservação do conhecimento, o diálogo aberto para a formulação conjunta de alternativas, o respeito pelos ofícios e suas interseções passam a ser questões fundamentais. 


Do ponto de vista estético, em vez da ideologia do objeto acabado e harmonioso, propõe "o desequilíbrio e a transitoriedade", que abrem espaço à colaboração inteligente do operário. E, por fim, despojar a obra dos revestimentos encobridores, mostrando os rastros do trabalho que a constituiu. 

Nessa experiência, mais intuída do que realizada, modifica-se o canteiro e, necessariamente, o desenho. Em vez de um desenho para a produção (desenho do produto, que impõe uma lógica heterônoma ao canteiro) deveríamos pensar num desenho da produção, que privilegiasse a técnica construtiva e desse liberdade aos produtores para realizar alterações - de certa forma extinguindo o papel do arquiteto como o conhecemos e o desenho como técnica de dominação. 

A outra "vantagem" que poderíamos tirar do nosso atraso, segundo Sérgio, é a possibilidade de experimentação em zonas marginais e "áreas liberadas pelos pobres" (como os assentamentos de reforma agrária). Sua condição de não-inclusão ou ligação frágil com os circuitos de acumulação do capital é, evidentemente, parte do fim de linha a que chegou a sociedade contemporânea, mas também a chance para a invenção de novas formas de organização social e de produção da vida e do espaço.

Para ele, mesmo que estejam aparecendo campos de miséria na Europa e nos Estados Unidos, não há, "nem de longe, algo que possa ser comparado com o MST ou com o movimento dos sem-teto no Brasil". "Nesse sentido", continua Sérgio, "acho que o Brasil é que está na frente. Essas possibilidades de experimentação, de criação, essa maleabilidade das zonas marginais pode ser utilizada, já que ninguém se interessa por elas". 

Há pelo menos duas décadas, um grupo pequeno mas significativo de arquitetos brasileiros vem trabalhando nesse sentido, com os altos e baixos da conjuntura política. As experiências dos laboratórios de habitação em algumas faculdades e dos grupos de assessoria técnica aos movimentos de moradia constituíram uma referência importante sobre os potenciais e limites da ação do arquiteto nessas zonas marginais.

No contexto da luta pela reforma urbana empreendida pelos movimentos de moradia, os mutirões autogeridos representaram um momento único de ação conjunta entre assessorias técnicas (compostas por arquitetos, engenheiros, cientistas sociais, etc.), operários da construção civil e sem-teto. Essas experiências nasceram da falta de alternativas, como a impossibilidade de vislumbrar acesso à maioria dos financiamentos, que exigem renda superior a três salários mínimos. Mas, talvez por isso mesmo, puderam se constituir em lugares de invenção, nos quais o canteiro e o desenho foram redefinidos pela participação popular. 

O mutirão autogerido, ao instaurar o protagonismo dos construtores-usuários, constituiu-se num espaço em que as relações de produção começaram a ser libertadas das relações de dominação e onde trabalho e prazer voltaram a se encontrar (mesmo que de soslaio). São vários os momentos de festa nesses canteiros, como a inauguração do centro comunitário, a comemoração de cada laje concretada ou o içamento de uma torre de escadas. Constrói-se nesses canteiros uma pedagogia da autonomia (no sentido paulo-freireano), uma consciência da obra e um encontro entre produtor e produto, consumado na apropriação que dele farão os mutirantes como futuros moradores. 

Mesmo sendo uma experiência restrita, cheia de ambigüidades, submetida como qualquer outra às pressões da lógica do capital e tentando avançar nas suas brechas, foi capaz de exemplificar como uma forma considerada atrasada - o mutirão popular, de origem rural - pode se constituir numa iniciativa contemporânea, enquanto formas tidas comparativamente como mais modernas - o canteiro capitalista das empreiteiras -, mantêm relações arcaicas de produção e de uso do fundo público.

Sérgio Ferro esteve na obra de um mutirão autogerido, a União da Juta, e reconheceu ali um desenvolvimento das questões que discute desde os anos 60. Mesmo que a parte deliberada e consciente dessa continuidade tenha sido pequena e que os arquitetos dos mutirões mantenham poucas ligações teóricas com o Canteiro e o Desenho, na prática a questão objetiva permaneceu, enfrentada sob novos ângulos de ação abertos por uma situação histórica diferente. Afinal, o contato entre arquitetos e movimentos populares, com suas conseqüências, não chegou a ocorrer para a geração dos anos 60, brecado pelo golpe militar. 

A aproximação dos arquitetos com os sem-terra, por sua vez, é mais recente e exploratória na procura de modelos alternativos de organização territorial e novas relações entre o urbano e o rural nas "áreas liberadas" pela reforma agrária. Sérgio expressou sua admiração pela luta do MST realizando uma série de desenhos que foram reproduzidos no calendário e agenda do movimento para o ano 2001, e que serão expostos na Escola Nacional Florestan Fernandes. 

Estamos hoje diante de um momento histórico no qual as práticas transformadoras em arquitetura poderão deixar de ser marginais e marginalizadas. Aos que delas participam ou pretendem participar, o retorno de Sérgio Ferro é mais do que simbólico: exige de todos uma reflexão sobre o que já se fez e sobre o que se poderá fazer, para que nossos "ensaios" sejam cada vez mais efetivos e criativos como experiências concretas de mudança social. 

Pedro Fiori Arantes é arquiteto e autor de Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. São Paulo, 34 Letras, 2002



sábado, 12 de julho de 2014

Arquitetura é arte?-Ciro Pirondi na Móbile, a Revista do CAU/SP

A Móbile, a Revista do CAU/SP N°1 em sua coluna Debates apresentou os textos dos colegas Hugo Segawa que esta presente na postagem anterior e agora editamos o texto do professor Ciro Pirondi em que apresenta uma refinada definição sobre o tema "Arquitetura é Arte".

Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile 




Arquitetura é arte?


Não pode ser esta uma discussão acadêmica. A tentativa contínua da academia de estabelecer dualidade entre uma coisa ou outra, tem sido ruim.

A arquitetura, aquela que supera sua dimensão apenas física, sempre esteve, no mínimo, inundada de um propósito, uma intenção artística, sem a qual ela é apenas construção.
Para ser arquitetura tem de ser mais que a pedra.

Seria como se disséssemos: a pedra só não basta; a vida só não basta; o abrigo somente é incompleto.

Arquitetura é um conhecimento de fronteiras, como um rio. Multidisciplinar e contraditoriamente específico. Ou melhor, só se completa nas suas contradições, o que motivou Carlo Argan a dizer que sempre projetamos contra... as intempéries; a especulação imobiliária, etc.

A invenção da Humanidade é uma aventura onde ao sobreviver tivemos a urgência de impor o existir, estabelecer relações, arriscarmos e riscarmos novos desenhos, nem sempre possíveis.

Arquitetura é um desenho sobre essas incertezas, entre as aparentes contradições da curva e da reta, do claro e do escuro, onde há o rigor necessário da técnica, sobrepomos o valor humano do sonho. A virtude da beleza.
Vemos, por vezes, a arquitetura adquirir seu real significado quando cessa a função que a gerou: Stonehenge, Panteon, SESC Pompéia, os fortes de São Marcelo e São Jorge. Por isso, para os gregos a dificuldade de evoluírem na técnica tanto quanto eles foram capazes de fazer na filosofia e na arte.

Talvez inventamos a técnica para discursarmos sobre arte. A pauta não é a musica, só pode ser música se ouvida, se preencher o espaço. Uma porta não é só dobradiça e maçaneta. É um rito de passagem seletivo do corpo, um divisor entre mundos. Uma janela, um “vazio”em um muro, provavelmente tenhamos demorado milênios para abrir esses intervalos na pedra, para deixarmos passar nosso olhar, nossos sonhos, ver fora e imaginar...

O Instrumento e a Linguagem - e Arquitetura é uma linguagem - sempre fizeram parte das civilizações conjuntamente com os ritos. Possivelmente por isso seja tão difícil ensinar arquitetura, por ela trabalhar constantemente, e todo seu fazer, somente poder ser nomeado como arquitetura se sintetizar em suas pedras esses elementos constitutivos das civilizações.

Temos de educar os meninos...
 


Ciro Pirondi

Maio 2014

quarta-feira, 9 de julho de 2014

SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA, Arq. Hugo Segawa na Móbile, a Revista do CAU/SP

A Móbile. a Revista do CAU/SP  apresenta a coluna Debates em que dois pontos de vistas sobre um determinado tema é apresentado por dois colegas . O N°1 da Móbile teve como tema " A Arquitetura é arte ?"  onde os professores Hugo Segawa explica sua posição num texto intitulado "SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA". Belo e estimulante início para o que  teremos para os próximos números.

Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile 








SABERES E FAZERES NA ARQUITETURA



Hugo Segawa

Não me recordo do motivo do bate-papo, mas lembro das palavras de Lucio Costa em nossa conversa: “Há uma distinção entre Beaux Arts e Fine Arts. Arquitetura é parte das Beaux Arts; na cultura anglo-saxônica, diz-se Fine Arts and Architecture”. Qualquer dicionário em inglês atual inclui a Arquitetura entre as Fine Arts. Todavia o Dr. Lucio tinha razão. Havia uma contenda entre Fine Arts e Applied Arts que deveria estar vigente nos seus anos formativos, nas primeiras décadas do século 20. Applied Arts como contraponto a Fine Arts porquanto útil, para além de simplesmente evidenciar a criatividade artística. O movimento Arts and Crafts e a Bauhaus estão entre os passos que lentamente dissolveram a querela que despontou com a escalada da indústria na segunda metade do século 19.


Um moderno como Lucio Costa tinha a consciência de seu tempo e de outros tempos. A arquitetura de arquitetos deve ser vista em seus contextos: no Japão, o daiku era o carpinteiro que concebia e executava a obra. Na Idade Média o arquiteto também era maçom (aquele que executa a obra, pedreiro); os arquitetos das catedrais góticas eram hábeis em erguer extraordinárias estruturas que precederam o tirocínio da engenharia do século 19, quando engenheiros e outros práticos construíram arquiteturas que desagradavam os arquitetos arraigados nos cânones Beaux Arts.



A responsabilidade e a complexidade da arquitetura hoje aproxima o arquiteto da concepção renascentista do criador imbuído de educação universal. Ou antes, Vitrúvio escrevia em seu Tratado de Arquitetura: “deverá ser versado em literatura, perito em desenho gráfico, erudito em geometria, deverá conhecer muitas narrativas de fatos históricos. Ouvir diligentemente os filósofos, saber de música, não ser ignorante de medicina, conhecer as decisões dos jurisconsultos, ter conhecimento da astronomia e das orientações da abóbada celeste.” Quem prosseguir na leitura do Livro 1 perceberá que Vitrúvio tratava de saberes que dois mil anos depois têm outras configurações. Mas a semântica fundamental prevalece. O arquiteto vitruviano tem seu lugar no mundo contemporâneo, com mais saberes e fazeres agregados.


Penso que João Filgueiras Lima, o Lelé, é um arquiteto vitruviano. Mas ele tem o perfil do homme d’usine na concepção de Jean Prouvé, ou do master builder pensado por Waltrer Gropius. Lelé também é aquele que oferece aos amigos um CD com músicas de sua composição e interpretação. Recordo de o pianista Marcelo Bratke contar-me de suas conversas com Daniel Libeskind, também um músico. Não caberia no limite deste artigo listar os cineastas, dramaturgos, escritores, artistas plásticos, performers e outros criadores que saíram das escolas de arquitetura, mesmo que nunca tenham realizado arquitetura no sentido convencional. Há um substrato na arquitetura que não se evidencia no edifício, na cidade, mas está imbricado naqueles que os concebem e realizam. Uma imbricação que permite dizer até que arquitetura é arte. Na realidade, arquitetura é arquitetura.


Hugo Segawa é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.