Arquiteto Pedro Fiori Arantes, ativo integrante da Móbile , a Revista do CAU/SP, descreve a importância do arquiteto Sérgio Ferro no debate sobre o papel social do arquiteto e sua contribuição na construção civil no solo da produção, o canteiro.
Debate esse que aprofundarei nas próximas postagens decorrente da premente pressão social do último ano, quando o grito da terceira geração de trabalhadores urbanos ganharam as ruas e as plataformas políticas e novas movimentações aparecem com as ocupações organizadas pelos movimentos sociais de grande vazios urbanos.
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| A visão do arquiteto quase sempre é envidraçada e do lado seguro da produção. |
O retorno de Sérgio Ferro
O autor de o canteiro e o desenho vai à FAUUSP a convite dos estudantes. Sua crítica às relações de trabalho na construção civil continua atual
Texto original de Pedro Fiori Arantes Au Edição 115 - Outubro/2003 .Em fevereiro de 2002, Sérgio Ferro foi convidado pelos estudantes da FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) para uma conversa. Segundo ele, foi a primeira vez que pôde debater na faculdade desde sua demissão, há 32 anos, por suposto "abandono de cargo" - quando, na verdade, esteve impedido de dar aulas, preso pelo regime militar.
Diante de caras novas e de algumas bem conhecidas (como a do sociólogo e amigo Francisco de Oliveira), Sérgio narrou sua trajetória de vida, recordou as principais idéias do livro O Canteiro e o Desenho e apontou novos caminhos. O roteiro daquela fala improvisada (mas cujo script certamente estava pronto há muito tempo) iniciava-se em Brasília e se encerrava com os movimentos dos sem-terra e dos sem-teto. Um arco histórico de 50 anos no qual as promessas de desenvolvimento deram lugar a uma sociedade cindida, em que os sem-tudo são, a um só tempo, sua trágica expressão e sujeitos potenciais de um outro futuro.
Tratado por tanto tempo "como morto", a aparição de Sérgio Ferro na FAUUSP teve algo de fantasmagórica. O silêncio que se impôs sobre ele no Brasil é, sem dúvida, conseqüência da sua crítica - "suicida", como diz - ao nosso métier. "Não é do agrado de nenhum arquiteto ouvir que colabora para a exploração do operariado, daquele mesmo operariado que ele está tentando defender ao pensar em casa popular, escola, creche."
O entusiasmo que tomou conta dos que lotavam o anfiteatro da faculdade demonstrou que os "velhos temas" de Sérgio são ainda atuais e, mais que isso, os jovens não estavam ali para vê-lo como "peça de museu" e sim para debater com ele sobre como enfrentar as questões contemporâneas, tanto as novas quanto as de sempre, ainda não resolvidas.
Para a geração de Sérgio Ferro, que se formou no início dos anos 60, a reflexão sobre o significado de Brasília e sua construção foi o ponto de chegada e apoteose da arquitetura moderna brasileira. Para ele, ao contrário, esse era o ponto de partida.
Sérgio contou que observou os vários ângulos do nascimento de Brasília e, por isso, aprendeu a desconfiar do que via. Comparava o discurso progressista dos arquitetos, cheio de boas intenções, com o que ouvia "escondido atrás da porta" na casa de seu pai, um político do PSD, nas conversas de Juscelino, Tancredo e Ulysses Guimarães, e ainda com as freqüentes visitas às obras da capital, quando assistia como se dava "o levantar, o sair do chão".
A imagem de um Brasil novo, retratada nos desenhos "perfeitos, brancos, puríssimos" de Niemeyer, era realizada por uma "massa de gente ultramiserável, ultra-explorada", com greves reprimidas, doenças e muitas mortes (em 1970, Sérgio esteve preso com antigos operários de Brasília que lhe contaram como era a vida naquele imenso canteiro). Esse descompasso entre "o sonho do arquiteto carregado de intenções progressistas" e "a exploração do trabalho no canteiro", observado em grande escala na construção da nova capital, será a base da sua crítica.
Foi ainda na década de 1960 que Sérgio Ferro adquiriu uma formação capaz de dar consistência ao que já intuía sobre Brasília. Além de ter-se tornado professor de história da FAUUSP em 1962, realizou "ensaios" e experiências em arquitetura com seus companheiros Flávio Império e Rodrigo Lefèvre e estudou a obra de Marx com um grupo da Faculdade de Filosofia (da qual faziam parte Roberto Schwarz, Emir Sader e Marilena Chauí, entre outros). Em 1967, saiu do Partido Comunista Brasileiro junto com Marighella para fundar a ALN.
Assim, no final dos anos 60, Sérgio estava preparado para escrever sua crítica fundamental à produção da arquitetura, cujo primeiro rascunho foi o texto A Casa Popular, de 1969. No ano seguinte, Sérgio acaba preso pelo regime, passa um ano na cadeia e, ao sair, não pode retornar à FAUUSP. Pressionado pelas circunstâncias políticas e abalado com a expulsão da faculdade, embarca com a esposa e filhos para a França, onde conclui O Canteiro e o Desenho.
As questões desenvolvidas por Sérgio Ferro no livro partem de uma única e simples constatação, suficiente, porém, para inverter o sinal da crítica: a de que a arquitetura é uma manifestação da "forma-mercadoria", pois "todo e qualquer objeto arquitetônico é um dos resultados do processo de valorização do capital". As questões relativas ao processo artístico envolvido na arquitetura, que dominam o debate corrente, colaborariam, na verdade, para encobrir o fundamental, ou seja, a contradição entre capital e trabalho - ou entre desenho e canteiro. E mais: as chamadas "revoluções nas formas" seriam, antes de tudo, respostas às lutas sociais nos canteiros.
Para Sérgio, não podemos, como arquitetos, mascarar o fato de que o canteiro de obras é um dos lugares privilegiados da exploração do trabalho e fundamental no sistema de produção de mercadorias. A construção civil, explica ele, mesmo relativamente "atrasada", está conectada ao restante da economia moderna, alimentando-a com a enorme massa de mais-valia que produz, de forma semelhante ao que ocorre na relação desigual e combinada entre países periféricos e centrais no sistema capitalista. Essa constatação da complementaridade entre modernidade e atraso é um ponto fundamental da sua crítica (como também da de Chico de Oliveira), oposta às interpretações correntes e dualistas do Brasil.
A coerção direta e a violência redobrada que ocorre nos canteiros de obra (redobrada apenas porque não conta com o poder de automação das máquinas sobre o trabalho) não é algo marginal, mas, sim, uma fratura exposta que deixa ver as contradições amplas do sistema. Tal como na periferia do capitalismo é possível ver com máxima clareza a verdade do capital.
Defensor de um marxismo que não caiu com o fim do bloco soviético, Sérgio é contundente ao afirmar que "não há uma transformação social positiva e forte sem que as relações de produção concretas sejam alteradas". Para ele, por isso mesmo, mais do que nunca "é preciso fazer ensaios", experimentar, mesmo que restritamente, novas relações de produção.
Segundo Sérgio, nós arquitetos brasileiros temos, paradoxalmente, uma situação de atraso que seria duplamente favorável. Em primeiro lugar, há a possibilidade de tirar partido da forma de produção relativamente elementar da arquitetura. Em segundo, por estarmos cercados por imensos "bolsões" de pobreza, teríamos a oportunidade de inventar novas práticas junto às organizações populares.
A primeira depende de uma disposição clara para superar a combinação entre produção e dominação no campo da arquitetura. Nesse caso, a elementariedade produtiva e o atraso relativo do canteiro de obras (que significam aumento da violência no controle da força de trabalho), numa perspectiva emancipadora, tornam-se uma vantagem ao permitir "guardar o sentido experimental da autonomia produtiva" melhor do que outros setores da economia, uma vez que "o controle da produção é mais simples do que o de uma indústria".
Em O Canteiro e o Desenho, Sérgio descreve esse novo canteiro como relação democrática entre operários, arquitetos e usuários, no qual ressurgiria a consciência da obra. A segurança no trabalho e a preservação do conhecimento, o diálogo aberto para a formulação conjunta de alternativas, o respeito pelos ofícios e suas interseções passam a ser questões fundamentais.
Do ponto de vista estético, em vez da ideologia do objeto acabado e harmonioso, propõe "o desequilíbrio e a transitoriedade", que abrem espaço à colaboração inteligente do operário. E, por fim, despojar a obra dos revestimentos encobridores, mostrando os rastros do trabalho que a constituiu.
Nessa experiência, mais intuída do que realizada, modifica-se o canteiro e, necessariamente, o desenho. Em vez de um desenho para a produção (desenho do produto, que impõe uma lógica heterônoma ao canteiro) deveríamos pensar num desenho da produção, que privilegiasse a técnica construtiva e desse liberdade aos produtores para realizar alterações - de certa forma extinguindo o papel do arquiteto como o conhecemos e o desenho como técnica de dominação.
A outra "vantagem" que poderíamos tirar do nosso atraso, segundo Sérgio, é a possibilidade de experimentação em zonas marginais e "áreas liberadas pelos pobres" (como os assentamentos de reforma agrária). Sua condição de não-inclusão ou ligação frágil com os circuitos de acumulação do capital é, evidentemente, parte do fim de linha a que chegou a sociedade contemporânea, mas também a chance para a invenção de novas formas de organização social e de produção da vida e do espaço.
Para ele, mesmo que estejam aparecendo campos de miséria na Europa e nos Estados Unidos, não há, "nem de longe, algo que possa ser comparado com o MST ou com o movimento dos sem-teto no Brasil". "Nesse sentido", continua Sérgio, "acho que o Brasil é que está na frente. Essas possibilidades de experimentação, de criação, essa maleabilidade das zonas marginais pode ser utilizada, já que ninguém se interessa por elas".
Há pelo menos duas décadas, um grupo pequeno mas significativo de arquitetos brasileiros vem trabalhando nesse sentido, com os altos e baixos da conjuntura política. As experiências dos laboratórios de habitação em algumas faculdades e dos grupos de assessoria técnica aos movimentos de moradia constituíram uma referência importante sobre os potenciais e limites da ação do arquiteto nessas zonas marginais.
No contexto da luta pela reforma urbana empreendida pelos movimentos de moradia, os mutirões autogeridos representaram um momento único de ação conjunta entre assessorias técnicas (compostas por arquitetos, engenheiros, cientistas sociais, etc.), operários da construção civil e sem-teto. Essas experiências nasceram da falta de alternativas, como a impossibilidade de vislumbrar acesso à maioria dos financiamentos, que exigem renda superior a três salários mínimos. Mas, talvez por isso mesmo, puderam se constituir em lugares de invenção, nos quais o canteiro e o desenho foram redefinidos pela participação popular.
O mutirão autogerido, ao instaurar o protagonismo dos construtores-usuários, constituiu-se num espaço em que as relações de produção começaram a ser libertadas das relações de dominação e onde trabalho e prazer voltaram a se encontrar (mesmo que de soslaio). São vários os momentos de festa nesses canteiros, como a inauguração do centro comunitário, a comemoração de cada laje concretada ou o içamento de uma torre de escadas. Constrói-se nesses canteiros uma pedagogia da autonomia (no sentido paulo-freireano), uma consciência da obra e um encontro entre produtor e produto, consumado na apropriação que dele farão os mutirantes como futuros moradores.
Mesmo sendo uma experiência restrita, cheia de ambigüidades, submetida como qualquer outra às pressões da lógica do capital e tentando avançar nas suas brechas, foi capaz de exemplificar como uma forma considerada atrasada - o mutirão popular, de origem rural - pode se constituir numa iniciativa contemporânea, enquanto formas tidas comparativamente como mais modernas - o canteiro capitalista das empreiteiras -, mantêm relações arcaicas de produção e de uso do fundo público.
Sérgio Ferro esteve na obra de um mutirão autogerido, a União da Juta, e reconheceu ali um desenvolvimento das questões que discute desde os anos 60. Mesmo que a parte deliberada e consciente dessa continuidade tenha sido pequena e que os arquitetos dos mutirões mantenham poucas ligações teóricas com o Canteiro e o Desenho, na prática a questão objetiva permaneceu, enfrentada sob novos ângulos de ação abertos por uma situação histórica diferente. Afinal, o contato entre arquitetos e movimentos populares, com suas conseqüências, não chegou a ocorrer para a geração dos anos 60, brecado pelo golpe militar.
A aproximação dos arquitetos com os sem-terra, por sua vez, é mais recente e exploratória na procura de modelos alternativos de organização territorial e novas relações entre o urbano e o rural nas "áreas liberadas" pela reforma agrária. Sérgio expressou sua admiração pela luta do MST realizando uma série de desenhos que foram reproduzidos no calendário e agenda do movimento para o ano 2001, e que serão expostos na Escola Nacional Florestan Fernandes.
Estamos hoje diante de um momento histórico no qual as práticas transformadoras em arquitetura poderão deixar de ser marginais e marginalizadas. Aos que delas participam ou pretendem participar, o retorno de Sérgio Ferro é mais do que simbólico: exige de todos uma reflexão sobre o que já se fez e sobre o que se poderá fazer, para que nossos "ensaios" sejam cada vez mais efetivos e criativos como experiências concretas de mudança social.
Pedro Fiori Arantes é arquiteto e autor de Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. São Paulo, 34 Letras, 2002















