A CONTRIBUIÇÃO DE MARX AO CONHECIMENTO DA ARQUITETURA
Frank Svensson.
Texto publicado em 4/11/2012- frankssvensson.blogspot.com.br
A vasta obra teórica de Marx e Engels, fundadores do materialismo histórico dialético, não inclui nenhum tratado ou texto específico sobre arquitetura. Mas só uma conclusão apressada ignoraria o quanto deixaram sob forma de método para a melhor compreensão dessa área da ação e do conhecimento humano.
É frequente, dentro do pensamento não marxista, a imagem de que Marx e Engels só emitiram, a respeito de arte, literatura e mesmo arquitetura, ocasionais e arbitrárias opiniões pessoais, influenciadas pelo enfoque político dos mesmos. Contestamos esse menosprezo, inclusive por parte de reconhecidos pesquisadores marxistas, para com o enfoque estético de Marx e Engels, não o valorizando devidamente no âmbito geral da produção teórica dos mesmos.1
À primeira vista o conceito de arquitetura, à partir das teorias de Marx, assemelha-se ao de Hegel. Difere, no entanto, por esclarecer objetivamente o conteúdo social da arquitetura. Descrevendo o processo do trabalho, em sua obra O Capital, Marx evidencia a necessidade inerente à vida humana de lugares configurados para a sua presença e as suas atividades. Faz ver que o processo social da produção exige, também, meios indiretos de produção, sob forma de estradas, ruas, canais e fábricas. Um raciocínio que ligado à sua teoria da infra e da superestrutura da Sociedade, leva a incluir também os lugares para a reprodução da produção e para os aparelhos ideológicos e as instituições de sua superestrutura. Para caracterizar tal fato Marx não usa o termo arquitetura, mas empresta do latim uma expressão que traduz de forma muito feliz a essência da mesma: locus-standi, o lugar em que se está, no qual se atua.2
Vimos, antes, ser Hegel quem primeiro reconheceu o espaço como o que dá autonomia à arquitetura como ramo artístico, mas à luz das teorias de Marx e Engels é de se questionar tanto o conceito de espaço, como a limitação da arquitetura à condição de ramo artístico. O conceito de espaço, à partir do marxismo, enunciado claramente por Engels em sua polêmica com o positivista Düring, não é o mesmo de Hegel. Para aquele o conceito de espaço ainda se confunde com o de lugar. Algo tão generalizado que em sua língua, o alemão, ainda hoje se emprega a mesma palavra -- raum -- para ambos os casos. Limitando a arquitetura à configuração de lugares, Hegel não relaciona a mesma à conceituação de totalidade por ele desenvolvida. Com Marx e Engels o espaço, no entanto, passa a ser visto como uma categoria de totalidade.
O conceito de arquitetura, vista como o exercício da configuração do locus-standi, --- como a expressão da síntese entre a vida e seu cenário --- se relatado ao desenvolvimento das forças produtivas, e dos meios e relações de produção ---, implica em reconhecer os assentamentos humanos, como o objeto maior da arquitetura. O lugar, em sua forma e dinâmica de uso, só pode ser visto plenamente se relacionado à forma da cidade como todo maior expresso espacialmente. Intervir e alterar a constituição do lugar específico é, ao mesmo tempo, intervir e alterar a expressão espacial da cidade como um todo.
Por outro lado, a materialidade do espaço não se limita mais à constituição material dos lugares. Ela passa a incluir a presença ativa neles contida, que fundamentalmente os relaciona entre si. Desse modo o seu conhecimento não pode ser reduzido ao da forma sugerida por seu uso imediato, mas forçosamente tem que considerar também as qualidades da totalidade social de que é parte.3 O uso e a presença são parte do modo de produção e do modo de vida maior, da formação socioeconômica vigente bem como das qualidades herdadas de formações anteriores.
Para reconhecer todo o assentamento humano como o objeto da arquitetura, torna-se necessário clareza, também, quanto à essência dessa totalidade, reconhecendo como sua categoria fundamental o fator trabalho. Faz-se necessário reconhecer a condição de ser social como o caráter essencial do ser humano. Os homens socializam-se através do que fazem e reúnem-se em assentamentos humanos fundamentalmente em função de suas atividades. Em seu livro: A condição da classe trabalhadora na Inglaterra, Engels afirma que cada fábrica contém em si o gérmen de uma cidade.
Com o esclarecimento do materialismo histórico cai por terra, também, a possibilidade de ver a arquitetura como um ramo artístico específico. Erro no qual incorre, por exemplo, o pensador Georgy Lukács evidenciando resquícios hegelianos em sua obra sobre estética. Se a arquitetura expressa a relação entre a vida em sociedade e o cenário construído para tanto, só se aproximará de sua plenitude na medida em que expressar arquitetonicamente a realidade social e portanto histórica. Na medida em que expressar a contribuição de todos os homens e portanto do homem todo, desalienado.4
Quanto mais avança historicamente a formação socioeconômica do capitalismo, mais próximo chega da sua transformação num novo tipo de formação. Em sua fase decadente, caracteriza-se pelo mais alto nível de alienação e de dificuldade de leitura da realidade urbana, à partir do imediatamente manifesto. A objetividade do espaço faz dele uma expressão objetiva da realidade em movimento, donde o prioritário é conhecer a realidade para poder compreender as formas pelas quais se expressa.
A fase de capitalismo financeiro que hoje experimentamos, não permite a mesma clareza de leitura possível da conformação urbana na fase do capitalismo industrial, mas nada indica que o enfoque marxista possa ser posto de lado. Uma das reivindicações básicas das massas às quais o capitalismo decadente furta as condições mínimas de cidadania, é a do direito ao trabalho. Negar esse direito às mesmas é contribuir para a desnecessária continuidade do capitalismo, e de suas alienadas manifestações e interpre-tações de arquitetura.
Entre os enfoques conceituais distantes e distintos do marxismo é comum substituir-se a intrínseca relação entre trabalho e socialização, como fator essencial da conformação dos assentamentos humanos, por uma mal definida imagem diretora ---leit motif --- de mera existenciação e convivialidade. Abandona-se o interesse pelo caráter ativo da vida em sociedade, em favor da espacialização dos encontros e do lazer como algo em si mesmo. A realização através do consumo substitui a realização através do trabalho. Uma coisa é reconhecer que, durante a fase monopolista de estado, tanto do capitalismo como das experiências de socialismo havidas, bem como a atual de globalização financeira, a arquitetura das cidades deveria melhor contemplar as diferentes formas de socialização. Outra coisa é querer obter clareza quanto a como resolvê-lo sem relacioná-lo ao modo de produção como base do modo de vida em questão.
Constitui uma forma de reducionismo do exercício da arquitetura na fase decadente do capitalismo o querer limitá-la a objetos de deleite e fruição, enquadrando-os dentro dos limites de um ramo artístico exercido por certo tipo de artista. Hegel reconhecera que para bem conhecer uma obra de arte havia que vê-la à luz da ação recíproca entre o seu objeto e o seu sujeito. Marx acrescenta ao enfoque hegeliano, por força de seu método, uma constatação fundamental: o objeto social da arquitetura tende historicamente a tornar-se, também, o sujeito da mesma. Algo que põe em questão todas as formas operacionais de sua produção até aqui em prática. A prática de um profissional exclusivo da arquitetura tende, historicamente, a participar cada vez mais da práxis de toda a sociedade quanto à mesma.
Na medida em que a materialidade social passa a ser aceita como o componente principal da arquitetura, evidencia-se a contradição fundamental do método dialético herdado de Hegel, entre a parte e o todo. Não só a contradição entre o lugar e a cidade, mas também a contradição entre a cidade e o campo. O homem do campo não é menos merecedor de boa arquitetura que o seu irmão da cidade. Não são necessários grandes argumentos para concluir que, historicamente, essa contradição vai de encontro a sua solução, na medida em que busque tanto a urbanização do campo como a naturalização das cidades, algo que inevitavelmente relaciona as questões de arquitetura com às da regionalização, da micro regionalização, bem como da propriedade do solo urbano.
Do mesmo modo como o corpo teórico de Marx esclarece o caminho para o conhecimento objetivo da espacialidade arquitetônica, o faz, também para o conhecimento objetivo da temporalidade da arquitetura. Em sua análise do trabalho como processo, ele aborda a aptidão do ser humano de intervir na realidade externa ao pensamento, modificando-a e, assim, a si mesmo. É nessa análise que encontramos a sua clássica comparação do arquiteto com a aranha e a abelha:
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade 3
Em seu desenvolvimento, o ser humano conquistou a aptidão de, através do pensa-mento, com ajuda da memória e da sua capacidade de associação, produzir uma imagem mental do que ainda não existe, à partir de seu conhecimento, consciente ou não, daquilo por ele vivenciado. Dessa forma pode produzir um modelo para a sua próxima ação. Trata-se de uma aptidão que está na base de vários fenômenos os quais entre si participam da transformação, -- do tempo como expressão objetiva do movimento -- da realidade concreta, através da intervenção do homem. A previsão por meio de imagens mentais está relacionada com a arquitetura como atividade. Como atividade de proposição, de propostas de intervenção no espaço maior da Natureza, e do tempo maior da História, levando a novas configurações espaciais e temporais.
Em sua análise do trabalho como processo, Marx mede o valor da mercadoria pela quantidade de trabalho necessário à sua produção. Como os participantes de tal produção são muitos, não se trata do tempo pessoal gasto na mesma, mas do tempo socialmente necessário para a produção de uma mercadoria, em condições sociais médias de produção, normalmente nas condições de produção em que se cria a maior quantidade de mercadorias de certo tipo.
Considerados os lugares nos quais a vida se desenvolve como meios indiretos de produção, como o faz Marx, o tempo gasto no uso da cidade, passa a ser objetivamente tão importante como a forma de seus lugares, ou melhor, só se chegará à boa forma dos lugares considerando o tempo de uso dos mesmos. No planejamento urbano moderno, o tempo de uso da cidade passou a ser fator de consideração fundamental. Considerando o tempo gasto entre a habitação e o local de trabalho, entre a moradia e a escola, bem como a distribuição territorial equitativa dos serviços urbanos, tanto como o tempo/espaço garantido ao lazer, passa-se a obter uma qualidade arquitetônica capaz de atender a uma melhor qualidade de vida.
Marx e Engels constataram a cidade como o lugar da História, como o palco do drama das mudanças sociais. A diferença dos enfoques positivistas e psicologizantes da cidade, eles viram ser nela que a burguesia se desenvolve e, durante seu período mais progressista desempenha um papel revolucionário. Viram, do mesmo modo que é na cidade que surge o proletariado e aí desempenha o seu papel de criar as condições para o surgimento e a consolidação do socialismo. Constataram ainda que o processo de proletarização e socialização tende a urbanizar o campo diminuindo as diferenças entre o mesmo e a cidade.
Por fim queremos lembrar que uma alteração fundamental na maneira de entender a arquitetura diz respeito à ação recíproca de seu conhecimento com o de outras áreas disciplinares. O corpo teórico do materialismo histórico apresenta-se como a referência comum maior de todas as áreas disciplinares. De interesse comum a qualquer área disciplinar é situá-la em relação aos interesses das respectivas classes sociais que compõem a sociedade, bem como às contradições entre as mesmas. Dessa forma torna-se indispensável tomar posição quanto ao modo de produção e ao modo de vida dele decorrente, esclarecendo o que seja básico e o que seja superestrutural, e as medidas necessárias ao desenvolvimento histórico dos mesmos.
Dentro desse enfoque interdisciplinar os perfis profissionais dos trabalhadores da arquitetura são relativizados. Variarão segundo o desenvolvimento histórico da produção arquitetônica, respeitando um processo dialético, segundo o qual o objeto social da arquitetura tende, também, a tornar-se o sujeito da arquitetura.
A arquitetura passa a ser produzida em resposta aos interesses dos que trabalham e que assumindo a subjetividade da Sociedade tendem a eliminar a alienação quanto à mesma. O conhecimento histórico sai de sua condição contemplativa para, em destino a uma Sociedade sem classes, resultar da atividade de se fazer História. Também quanto à arquitetura!
N o t a s :
1 Ver de Gunnar Gunnarson: Estética marxista, Edições Alva, Brasília, 1994.
- Ver ainda Mijail Lifschitz: Karl Marx und die Ästhetik (Karl Marx e a estética), VEB Verlag der Kunst, Dresden, 1967.
- Ver Giörgy Lukács: Estética, Grijalbo, Barcelona, 1967, 5 volumes.
2 Ver Karl Marx: O Capital: “O Processo do Trabalho”. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 197 , p. 202.
3. Ibidem.
4 Como principais teóricos a respeito encontram-se: T. Shibutani; P. R. Hofstater; J. L. Moreno; T. Newcomb; V. Alex Inkeles; L. von Wiese; P. Badin; e T. Parsons.
5 Ver Della Volpe n. 14 da Coleção; Grandes Cientistas Sociais. O trecho: “Contradição da estética de Lukács”, pp 51-55. Editora Ática SA, São Paulo, 1979.
Frank Algot Eugen Svensson
1934 - Nasce em Belo Horizonte. MG
1959 – Ingressa no Partido Comunista Brasileiro
1963 – Arquiteto da SUDENE
1970 - Professor da Universidade de Brasília
1973 - Pela lei de exceção 477 é proibido de lecionar no Brasil
1973-1974 - Leciona arquitetura em Estrasburgo e Nancy (França) e milita no Partido Comunista Francês
1974-1975 - Integra a equipe do arquiteto Oscar Niemeyer (Argélia)
1976-1986 - Leciona na Suécia (em Gotemburgo e Lund) e milita no Partido Comunista Sueco; torna-se Phd em Arquitetura na Universidade Chalmers (1986)
1980 – 1982 – Assessor do governo da Republica Popular de Angola para a formação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Agostinho Neto em Luanda.
1988-2002 - Reintegrado à Universidade de Brasília como professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
2003-2006 - Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República
2003-2006 - Pesquisador associado à Universidade de Brasília
Livros publicados
Arquitetura – Criação e Necessidade. EDUNB Brasília, 1991
Visão de Mundo – Arquitetura. Ed. ALVA Brasília, 2001
Livros traduzidos para português
Estética marxista, Gunnar Gunnarson
A visão de mundo do marxismo Gunnar Ljungdal
Marx para apressados, Robert Misik
A arquitetura da relação cidade/campo, Elias Cornell
.jpg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário