Móbile,a revista do CAU/SP N° 1 publicou texto de nosso professor e colega Sérgio Ferro para a seção Tapume, espaço para aprofundar os estudos sobre as relações do trabalho no canteiro de obra, no qual nós arquitetos participamos profundamente, cabendo ao profissional entender seu papel e a realidade da luta de classe na cadeia produtiva da construção civil , assim podendo dialogar com a sociedade com a coragem que criamos e formamos nosso conselho, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo.
Arq. Urb. Victor Chinaglia
Coordenador da Móbile
TAPUME
“A
transformação do trabalho em capital é, em si, o resultado do ato de troca entre
capital e trabalho. Esta transformação é posta apenas no processo de produção
mesmo.”
K.Marx.
Para a Critica da Economia Politica, Manuscritos de 1861-1863. Autêntica
Editora, 2010, p 180.
Para os de fora, o tapume provoca um efeito de caixa preta. Lá dentro,
operações misteriosas encaminham os meios de produção na direção do produto
final. Não vemos estas operações. O tapume as oculta apesar de sua função
técnica – proteger o exterior do que pode ocorrer no interior e o interior das
invasões do exterior – não implicar a barragem da visão. Ele impede, portanto,
a observação da produção sem que haja nenhuma razão objetiva para fazê-lo.
Invisível, pouco a pouco, o trabalhador coletivo, sempre numeroso na construção,
da forma e consistência ao “jogo sábio dos volumes sob a luz” e desaparece no fim do processo. Poderíamos
quase destacar um principio que rege a retirada dos tapumes : ela ocorre
quando, recheadas de muita mais-valia, as edificações não deixam mais ver que
são o produto da mão do homem. Ou seja, a edificação somente abandona esta
provisória pele encobridora quando adere definitivamente à mascara do desenho
denegador, quando o tempo de sua gestação é imobilizado pela simultaneidade no
jogo dos volumes. Sob a mascara passageira, não surge a verdade – mas outra
mascara petrificada. E o que foi tempo vivo de produção (oculto) torna-se valor
por um lado, por outro, um fetiche.
O tapume opera como fetiche: encobre o
lugar em que a violência passada reproduz-se. Somente no canteiro a
perversidade da troca aparentemente justa entre salário e força-de-trabalho
revela sua injustiça. Somente então o pressuposto desta troca – a apropriação pelo
capital de todos os meios materiais de produção e a transformação da
força-de-trabalho obrigatoriamente em mercadoria – entra na efetividade. A
subordinação do trabalho vivo, consequência da troca, posta pelo processo
produtivo, desmascara a paz igualitária do ato jurídico: o intercâmbio “justo”
entre trabalho e capital mostra-se como exploração desavergonhada da
força-de-trabalho pelo capital. O momento concreto desta inversão entre a
aparência justa da troca e a desigualdade que pressupõe, este salto entre a
equidade abstrata e a subordinação efetiva seria revelador demais para aparecer
sem mais. Em geral, o zoneamento territorial e a fortificação quase militar das
unidades de produção afastam da vista da coletividade esta passagem à verdade.
Mas a construção não pode ser isolada em zonas
especiais. Ela necessariamente espalha-se pela cidade. O tapume, então,
faz as vezes do impossível zoneamento. Separa o espaço interno da produção do
exterior pelo tempo em que ela dura.
Mas no fetiche o que não deve ser visto contamina o que impede de ver.
Sabemos ou pressentimos que atrás dele há alguma variante da castração. Somos
tentados a procurar o buraco que permitira ver a verdade, como voyeurs. Se há o que esconder, deve
haver alguma coisa sórdida do lado de lá. Mas a verdade não é visível. Nada
exteriormente revela a trapaça. Sob o que impede de ver, não há nada a ver, a
não ser o impedimento de ver: salvo exceção, a violência moderna esta
interiorizada. E o impedimento de ver trai a fobia de deixar ver, com o que
revela que ha algo a não ver. Somente a máscara denuncia o porque da
necessidade de mascarar.
O tapume, em geral, é tosco, elementar – obviamente non-finito. Para a estética oficial indicaria o sublime, o
insimbolizável, o que não tem nome, o real ou coisa do gênero. Muitas vezes,
sobretudo nas obras menos sofisticadas, é mal feito. Le Corbusier poderia apor
a legenda que imaginou para a janelinha
que saiu torta por causa de uma fôrma que cedeu em La Tourette: “por aqui
passou a mão do homem”. A referência explícita ao trabalhador só é admissível
quando ele falha. Expulso da obra pelo projeto encobridor (o qual em geral
desenha uma obra imaginária sobre a real, para que o operário real desapareça
sob um outro imaginário), ele, enquanto dura a produção, é indicado no
exterior, no tapume, por um trabalho sumario, pouco qualificado e obviamente
inadequado se sua função fosse realmente proteger o interior do exterior ou o
exterior do interior. A aparência instável e efêmera do tapume desmente sua
função declarada. Mas sua função latente tem sucesso: no único lugar em que o
trabalho deixa vestígios evidentes sua suposta imperícia fica demonstrada.
Poucos se lembram que, mesmo então, a força de trabalho está sob o regime da
heteronomia. No mais, outros vestígios seus, temporariamente encobertos pelo
tapume, sumirão no fim da obra. Como num passe de mágica, o escondido mostra-se
na coisa encarregada de escondê-lo – mas de tal modo que o escondido, mostrado
como não é, continue escondido sob sua desocultação. Surpresas do sublime.
Do outro lado do tapume, há o outro, um
outro anônimo, sem identidade. Encurralado, enjaulado (às vezes concretamente),
ele nos parece ameaçador. O preso, à priori, tem ar suspeito. Mais ainda
quando, no fim da obra, o tapume desengonçado, frequentemente feito de restos,
é retirado e, com ele, os trabalhadores que passam de ocultos a ausentes. A
obra então sai de seu invólucro obtuso como call-girl
do bolo de aniversário do gangster, bem maquiada e com as rugas colmatadas,
como se fosse novinha em folha, sem nem sinais de uso. Por abdução, o mais
pobre dos automatismos do entendimento, a emergência festiva do produto acabado
do duvidoso invólucro, o sombrio tapume, contrasta a limpeza do resultado visto
como fruto do bom desenho com a sujeira caótica do canteiro, seguramente mal
frequentado. Quando o tapume é retirado e a produção cessa, tudo se passa como
se a ordem e a segurança voltassem a reinar para o bem de todos. E nada parece
mais justo que a evacuação dos trabalhadores do local, agora impróprio para sua
selvageria.
Se não há nada terrível a ver no outro lado do tapume, assim mesmo o que
não vemos tem parentesco com o monstruoso. O cidadão manufatureiro,
teoricamente livre, tem que abdicar de sua liberdade – contrariando o cínico
mandamento das constituições “democráticas” que declaram tal abdicação, a da
enorme maioria da população, inconstitucional. A artimanha transforma o roubado
em culpado pelo roubo. A oligofrenia imposta à força-de-trabalho, pressuposição
para sua exploração, aparece como posta, auto imposta por ela mesma ao aceitar
sua troca por salario, como se houvesse alternativa. A desgraça ganha o reforço
da culpa. A mutilação do cidadão “livre” passa à condição de automutilação. Ele
deve obediência total, surdez a si mesmo, enquanto a organização manufatureira
impõe que escute sua própria competência. Em vez da elegância dramática do “ser
ou não ser”, a questão passa a ser e não ser ao mesmo tempo, paródia de
dialética. Como num lapsus, é esta tortura invisível que o tapume tenta
inutilmente tirar da vista – com o que a indica.
O tapume é um recurso eurístico: permite
que a produção das obras, tal como ela ocorre hoje, se apresente como um processo lógico e necessário
e seus mistérios (porque as obras se fantasiam de outras obras ?) como
sutilezas estéticas. Se seguíssemos a produção passo a passo, sua
irracionalidade faria desconfiar destes argumentos. Nenhum canteiro resiste à
interrogação lúcida. A anormalidade é sua norma. Isto sim, o tapume oculta. O
mágico que serra a moça esconde o lugar em que aparentemente serra numa caixa.
O empreendedor manufatureiro não serra moças. Mas serra o operário, entre a mão
e o cérebro, exigindo, entretanto, que continuem unidos. Ainda isto o tapume
pretende ocultar – mas somente os de dentro, por dentro, sentem o corte. O
amontoado de operações ilegítimas e heteróclitas que requer a subordinação
obriga a prudência de tudo esconder, com ou sem razão. Seria mais um absurdo supor
que a irracionalidade procede sempre racionalmente.
As grandes empresas cuidam da aparência do tapume. Ao contrário das que
visitamos até agora, são mais apuradas e recobrem operários uniformizados com
capacetes e equipamentos de segurança. Querem impressionar com a representação
de progresso no processo de produção. Mas como este progresso limita-se em
geral à passagem somente aparente da subordinação formal à real (na verdade
substituição da manufatura serial pela heterogênea), a aparência é encarregada
de fingir a passagem fictícia. O tapume deixa ver então estes operários
uniformizados e guindastes transportando peças pré-fabricadas – o capital
acredita ainda que todos esperamos o dito progresso das forças produtivas
figurado por estes ersatz de
industrialização. O momento produtivo escondido anteriormente agora aparece
parcialmente em algumas vitrines que sugerem sábia organização de produção avançada.
Uniformes e guindastes ocupam o lugar de máquinas. Mesmo quando deixa ver, o
tapume mascara.
O tapume, como o desenho de arquitetura, serve à denegação da produção.
Ele antecipa seus efeitos. Por isto some quando o desenho cumpre totalmente sua
missão.
Sérgio
Ferro é arquiteto, pintor e
professor da Escola de Arquitetura de Grenoble. Foi professor da FAU USP entre
1962 e 1970. É autor de O Canteiro e o
Desenho (Editora Projeto, 1979) e Arquitetura
e Trabalho Livre (Cosac Naify, 2006) entre outros livros.




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