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domingo, 2 de junho de 2013

LEON FERRARI, O OLHAR DO MUNDO REAL



      Visito frequentemente  o MASP,  relembro a companhia  de meu pai,   contemplo os grandes mestres e divago no tempo, antes de retornar a andar na Av. Paulista .
       Ver arte e andar!!
      Foi lá que conheci fisicamente alguns meses atrás o trabalho de Leon Ferrari. Solitária entre os clássicos da pintura internacional, uma escultura intrigante de aço.  

    Leon Ferrari (Buenos Aires, Argentina 1920) pintor, gravador, escultor, artista multimídia  engajado no movimento cultural e político, viveu em  São Paulo em 1976.
    Mas foi durante a Bienal de Veneza de 2007 que escutei seu nome pela primeira vez , ele reapresentou a "Civilização Cristã e Ocidental" produzida em 1965, e causou espanto e protestos da igreja e de setores retrógrados pelo mundo, que não são poucos, pela figura escultural de Jesus crucificado a um avião militar americano.
    Aproxima o observador do mundo real, no qual ele  não esta identificado.  
     

      De imediato me espantei ao lembrar de meu quadro de 1986 no bojo do final da ditadura e durante meu longos 10 meses  de soldado conscrito no exercito brasileiro, no ano da legalidade do Partido Comunista Brasileiro-PCB e frequentando o segundo ano de Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na PUCCCAMP.


      Ojeriza total nas instituições da ditadura!
    Voltando..... reafirmou meu conceito que toda arte é engajada, seja o abstrato contra o academicismo burguês ou a mais singela manifestação popular carregada de ironia e distante da elite.

     O Leon confirma isso em sua produção e demostra que a resistência em forma de arte, quanto como a  ciência são patrimônios da humanidade e salpicam espontaneamente no planeta, representando o desenvolvimento econômico e social da humanidade, o que o Marx definia como general intellect, a inteligência social ou coletiva, o trabalho imaterial, em oposição ao conceito de propriedade intelectual individualizada.

     Se a arte choca e constrange dentro de uma sala com ar condicionado, o que falar dos horrores da guerra pagos com royalties , daquilo que pertence ao rei  do lixo do consumismo.
         
  


sexta-feira, 31 de maio de 2013

TEATRO DE ARENA ELIS REGINA, ESPAÇO PÚBLICO PARA CULTURA POPULAR.

  
    No ano  2000 assumi a diretoria de urbanismo da prefeitura de Americana e na condição de arquiteto e urbanista elaboramos planos diretores e vários  projetos, escolas, creches, postos de saúde, equipamentos esportivos e mobiliário urbano, enfim um bom escritório público de arquitetura , a Unidade de Desenvolvimento Urbano e Físico- UDFU criou uma cultura de projeto no município e região.

   Entre eles um em especial, o antigo teatro de arena que encontrava-se desativado e abandonado por falta de uma política de cultura popular. 

   Originalmente idealizado pelo educador Wilson Camargo para ser um teatro circo, foi construído sob a responsabilidade do Eng. João D'Amaro e inaugurado em 1981, depois de anos de atividades culturais , foi esquecido  por preconceito quanto a sua concepção.





     Coube ao prefeito Waldemar Tebaldi reativar o espaço e as ideias originais e ao corpo de arquitetos e engenheiros da prefeitura realizar o novo projeto e sua construção e a mim coordenar a equipe e apresentar ao prefeito o projeto final.








     


 Numa área de 10.128,00 m² foi erguida uma estrutura em arco de 43,00 m que recebeu a lona de 1.800,00 m² , com área de projeção de 1.488,30 m² , confeccionada pela empresa tensobras/ Tensotech  Arquitetura Têxtil, nada mais apropriada para a cidade símbolo da industria têxtil sintética do Brasil e maior pólo do setor na América Latina.Sediada em Salvador foi enviado o arquiteto Cândido Denadai para discutir detalhes do projeto e a viabilidade de sua execução.





   


  A estrutura e demais obras foram realizadas pela Obrafort Engenharia e Construções e o calculo estrutural coube a Prisma Engenharia, ambas de Americana.  

   Toda a área foi cercada por estrutura metálica no sentido de expandir a área de atividades do teatro, incluindo uma extensão  do palco interno para a área externa , ganhando alternativa de realização de eventos ao ar livre e com um maior número de espectadores, além dos 1.100 acentos internos, incluindo um  estacionamento e caracterizando o novo espaço como multi-uso. Um pequeno Anhembi.





   


No dia da inauguração em julho de 2004, eu já tinha assumido a Secretaria de Planejamento e o prefeito em exercício,  Erich Hetzl , na fota a eterna primeira dama Luíza Mota Tebaldi, que sempre me apoiou .





     No mesmo ano ganhamos o Prêmio "Ex-Aequo" na categoria obra pública do IAB-SP em cerimonia no auditório do MASP  num juri presidido pelo meu amigo e mestre Joaquim Guedes e que garantiu a participação na Bienal de Arquitetura .




     

AFFONSO REIDY E DRUMMOND, ENCONTRO FANTÁSTICO

    A história brasileira é repleta de grandes encontros, sempre conflitantes  , exemplo que o  destino reservou para   Padre Cícero, Lampião e Luiz Carlos Prestes durante a jornada heroica da Coluna ,  amorosos... Tarcila do Amaral, Oswald de Andrade e Pagú ou intelectual Oscar Niemeyer e Joaquim Guedes, mas esse foi de uma pureza que somente Drummond e Reidy poderiam ser protagonistas, tristeza  que revela mais do que uma linda amizade,  o quanto arquitetura e poesia se confundem e se fundem . 


    “A morte de Affonso Eduardo Reidy desperta-me antes de tudo uma sensação de coisa errada, fora de norma e ritmo.
      Como se ele, cedendo à modéstia, houvesse furado a fila dos mais velhos, que estavam na sua frente, para chegar primeiro.
       Reidy era a distinção, a finura em pessoa, não podia passar à frente de outros.  Tinha um modo tão seu de trabalhar em discrição, como tantos outros trabalham em apoteose.
    Sua vida merecia ter sido longa e protegida dos males cruéis. E depois, apenas um cinqüentão, ele tinha ainda muito que fazer por causa do muito que já fizera.
     Nós, usuários dessa criação, estamos sempre exigindo mais. Nada pedimos aos omissos e aos estéreis, mas de um sutil manipulador de forma e espaço, como Reidy, quanta coisa se podia esperar ainda!”

Carlos Drummond de Andrade , em momento de tristeza pelo falecimento de REIDY.


Tudo isso aconteceu no dia 10 de agosto de 1964, ano do golpe militar no Brasil que matou e prendeu patriotas e  calou nossa cultura por 21 anos.






domingo, 26 de maio de 2013

1° CONFERÊNCIA ESTADUAL DE ARQUITETOS E URBANISTAS



Um caminho democrático:
a nossa 1 ª Conferência

COMISSÃO DA VERDADE -ARTE , O OBJETO E O DESENHO.

      Em dias de depoimentos e pressões populares sobre a Comissão da Verdade, que investiga os crimes cometidos nos tempos de ditadura militar, eu passei e ainda passo, parte dessa história digna de suspense, aventura e amor.
     Meu avô paterno, Victorio Chinaglia, era um militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro-PCB, segundo fontes desde 1933, após uma militância anarquista na Liga Anticlerical.
     Numa das várias prisões de sua vida, ele ao sair depois de dias e  meses nos idos de 1975, trouxe consigo um dos cobertores da alcova e, este permaneceu escondido na casa de meus pais por longos anos.  

     Por receio ou medo lá ficou, no alto do maleiro de um guarda roupa, eu  então menino perguntava por que não podia mexer ou mesmo usá-lo e com o tempo, transformou-se em objeto demonstrativo  da firmeza daquele senhor, em suportar torturas e privações em nome da liberdade e de seu  povo.
     Sempre que podia ,Victorio  ia  a São Paulo  ver  seu filho e dormia no meu quarto , lá nesse pequeno convívio,  me ensinou geografia, história e claro política, na minha tenra infância era uma enorme aventura cujo o herói estava presente e mais, era meu avô!!!
      Cresci,  estudei conforme combinado com ele, posteriormente  fui morar em sua casa em Campinas, no período da faculdade de arquitetura entre  1985 e 1990.
       No mesmo ano de minha chegada, o PCB  legalizou-se , ele seu presidente municipal e eu membro da Juventude Comunista, militante estudantil e seu camarada de partido.Tudo!!!
     Ele faleceu em 1991, logo após minha formatura, resolvi então dar vida ao objeto clandestino, melhor..transformar em uma tela, cujo o suor e o sangue do martírio ali estavam, um sacro do materialismo.
        O quadro foi pintado em 1995 na minha ida a São José dos campos a serviço da militância.
                                 Oportunidade de  reencontra-lo  na história.