Vilanova Artigas continua muito
atual em seus ensinamentos, principalmente sobre o papel social do arquiteto.
Apesar das divergências com os representantes da Arquitetura Nova, Sergio
Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefevre , estarem também na concepção do
projeto em relação ao canteiro de obra ,
tenho a singela impressão que tratava-se não de ruptura, mas também da
transferência da luta fidagal e intensa dentro do próprio Partido Comunista
Brasileiro-PCB com setores mais ativos entre estudantes e próximos de soluções
como a resistência armada ao regime de exceção imposto em 1964. Não podemos
esquecer que as duas concepções assemelham-se as decisões partidárias ou
às suas dissidências.
A defendida pelos arquitetos em volta de
Artigas , uma arquitetura libertadora dos conceitos imperialistas e enraizadas
em alianças com setores médios da
sociedade e ao capital não monopolista
nacional-desenvolvimentista, defendendo o desenho como técnica a serviço
da produção nacional e outra da Arquitetura Nova a posição radical contrária com qualquer forma de
aliança externa ao proletariado e suas formas de opressão, inclusive a
hierarquia da produção e da técnica como referencial do mesmo.
Também deixamos claro que em nenhum documento apresentado pelas duas alas
houveram ataques nominais ao ponto que o
próprio Flávio Império produzir o "Aprendi aprender com você" em 1985
ano do falecimento de Artigas, um ano antes desse primoroso texto auto crítico
e que termina com a homenagem ao Rodrigo.
Elucidador desse momento tão importante de
nossa história, no qual defendo que são posições complementares tirando o
dogmatismo tão presente naqueles tempos.
Cabem aos que ficaram entender e evoluir
esses pensamentos.
Arquiteto e Urbanista Victor Chinaglia
A função social do arquiteto.
Texto datado de 28 de junho de 1.984, de Vilanova Artigas
Para nós, o
Brasil do período pós-45 tinha semelhanças com a década de 20 pós
–revolucionária européia. Havia a oportunidade para fazer uma revolução social
no Brasil, com a queda de Vargas. Talvez tenha sido um idealismo filosófico a
postura que então abracei: conhecer os problemas do povo, consolidar a paz
internacional, contrariamente aos que desejavam que a guerra se prolongasse,
contra a URSS.
É nessa época que participava
politicamente, como militante do PC, desenvolvendo uma prática leninista;
projetava o Edifício Louveira; idealizava o estádio de futebol do São Paulo. O
que mostra que é possível ser cidadão e artista, ao mesmo tempo. É dessa época
também o artigo “Caminhos da Arquitetura”.
Nesse texto, parto da constatação da
impossibilidade de o capitalismo resolver a temática social, e obter a harmonia
entre as necessidades sociais, a arquitetura e o desenvolvimento histórico do
país. Esse artigo é válido até hoje, e o final dele – onde afirmo que até lá,
até que a arquitetura tenha a suma glória de ser discutida nas fábricas e nas
fazendas, não haverá arquitetura popular – também é válido ainda. Afirmo a
necessidade de uma atitude crítica em face da realidade. Mas reservo o direito
do arquiteto pensar utopicamente.
Utopia. Brasília cercada de favelas. De
formulação tipicamente Ville Radieuse, década de 20,
as quatro funções da Carta de Atenas. Mas onde o homem está nelas ? Qual homem ?
O que ele é ?
as quatro funções da Carta de Atenas. Mas onde o homem está nelas ? Qual homem ?
O que ele é ?
A
arquitetura brasileira não tem merecido a atenção dos intelectuais, exceto de
um pequeno grupo que se interessa por arquitetura. Mas há, por exemplo, a bela
análise do filósofo alemão Habermas, Modernidade versus Pós -Modernidade.
Em 1962, fiz o projeto para o edifício da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, minha universidade, campo cultural
onde sempre trabalhei. Este prédio acrisola os santos ideais de então: pensei-o
como a espacialização da democracia, em espaços dignos, sem portas de entrada,
porque os queria como um templo, onde as atividades são lícitas.
Com o golpe de 1964, e vinte anos depois,
os problemas do Brasil são de tal ordem, as cidades que dobrarão de população
em vinte anos, o que significa o dobro de casas, o dobro de empregos, que o
arquiteto exaspera-se, como profissional.
Hoje, sou conservador. Penso que o simples
diálogo casa/ edifício é suficiente para perceber o diálogo cultural de uma
época . Creio que o desenho passa a extravasar o edifício, passa a ser desenho
ambiental. E por isso sou conservador: não se deve demolir, mas conservar o
patrimônio arquitetônico que já temos.
Reafirmo as posições de 1953: só mudanças
profundas, na estrutura em que vivemos, poderão trazer o equilíbrio entre as
formas arquitetônicas.
Desejo
dedicar esta aula a meu discípulo e amigo Rodrigo Lefévre, que morreu
recentemente pela função social do arquiteto brasileiro.



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