A Móbile , a revista do cau/sp apresenta em seu #2 o tema sobre arquitetura pública num momento singular em que o brasil torna-se um grande canteiro de obras com a copa do mundo e olimpíadas, produzindo a arquitetura do espetáculo enquanto milhares de cidadãos são deslocados de suas moradias ,
1/3 da população das grandes metrópoles estão em sub- moradias e OUTROS MILHÕES VIVEM O RACIONAMENTO DE SERVIÇOS BÁSICOS COMO ÁGUA, SANEAMENTO E ENERGIA .
Claro que os objetivos estão expostos, diminuição do papel do estado, fortalecimento da iniciativa privada e a mercantilização de serviços básicos para destinarmos 40% de nosso pib aos bancos e apenas 1% ao Programa minha casa minha vida e destes apenas 15% à comunidades e cooperativas. Os arquitetos e urbanistas em conjunto com a sociedade devem cobrar e intervir e exercer seu papel social, que aqui contribua com essas ações, boa leitura.
arq. e urb. victor chinaglia
coord. da móbile, a revista do cau/sp
ARQUITETURA PÚBLICA
O RITMO De OBRAS PARECE FAZER DO BRASIL UM IMENSO CANTEIRO. MAS
COMO ARQUITETOS E URBANISTAS ESTÃO PENSANDO – E AGINDO – DIANTE DESSE “DESENVOLVIMENTO”?
ACOMPANHE NESSE DOSSIÊ E VEJA O EXEMPLO DE TRÊS ARQUITETOS QUE CONTRIBUIRAM
PARA o pensamento público do país.
Operários
transitam de um lado para o outro. Tapumes por toda a cidade. Estruturas de
metal se erguem abruptamente na paisagem. Tijolo com tijolo se somam em
um intrincado desenho lógico dos espaços públicos.
Os projetos
de infraestrutura ganharam consistência depois da desaceleração da economia
global, provocada pela crise de 2008. O Brasil necessitava assegurar um mercado
mais aquecido. E, de fato, conseguiu. Análise feita pelo Ministério da Fazenda,
intitulada “Economia Brasileira em Perspectiva”, apontou que a economia
avançou, no período 2004 a 2010, a uma média anual de 5%. As bases dessa
expansão são, basicamente, o mercado interno e os investimentos, principalmente
em infraestrutura e construção civil: empreendimentos que somam R$ 90 bilhões.
O país, então, se transforma em um canteiro de obras.
Segundo a Associação Brasileira de Tecnologia
para Equipamentos e Manutenção (Sobratema), haverá, até 2016, 9,5 mil obras de
infraestrutura e na área industrial. Serão mais de R$ 1,22 trilhão em
investimentos. Os números são expressivos. E essa torrente de cifras e dados é
relacionada a um modelo constantemente alcunhado de “neodesenvolvimentista”,
que mescla megaempreendimentos, financiamentos públicos, parcerias com empresas
privadas e programas de distribuição de renda. Mas como os arquitetos podem
auxiliar no controle dessas instâncias do poder público? Como promover projetos
com participação popular - os “desejos conciliados” - para transformá-los em
programas de necessidade social? Acompanhe nesse Dossiê Móbile.
ESPETÁCULO
A
arquitetura pública brasileira passou a viver uma nova fase que pode ser
sintetizada em uma frase, que a princípio soou estranha. Em 2003, o então
presidente Lula anunciou que viveríamos um “espetáculo do crescimento”. O
pronunciamento parecia ter resquícios populistas, evocando nosso célebre
epíteto de “país do futuro”. Porém, nesses doze anos, muitas coisas, de fato,
mudaram.
A mostra
“Brasil: o espetáculo do crescimento”, promovida pela décima edição da Bienal
de Arquitetura de São Paulo, evocava, em texto, que “internamente, a
mecanização da mineração empresarial e da lavoura (agronegócio), somada às
grandes obras estatais de infraestrutura, quer redirecionar o caminho do
crescimento econômico para as Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do país,
com reflexo nas cidades. É um retrato desse novo Brasil urbano, ainda mal
localizado pelos radares do Sudeste e da crítica arquitetônica”.
O arquiteto e urbanista Guilherme Wisnik,
professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
(FAU/USP), foi o curador-geral dessa edição da Bienal. Para ele, ao pensar o
crescimento do Brasil, é preciso ter uma visão dialética. “Sim, o governo fez
grandes obras de infraestrutura, como o ‘Minha Casa, Minha Vida’ (MCMV), as
obras para a transposição do rio São Francisco, o Porto de Suape e a usina
hidrelétrica de Belo Monte. Quer dizer, foram impulsionadas pelo governo, mas
feitas pelo mercado. Por outro lado, esse crescimento é predatório e empodera,
justamente, as grandes forças econômicas do país”, analisa o arquiteto.
Esse
crescimento – olhado com euforia por alguns, com receio por outros – parece que
trouxe à memória a época do “milagre econômico” dos anos 1970, fez surgir uma
nova “classe média” e abriu frentes de expansão urbana com programas como MCMV.
Porém, segundo Wisnik, resta saber se esse crescimento recente trouxe
desenvolvimento real, promovendo melhor justiça social e educação além do
consumismo, ou se reatualiza os velhos contrastes brasileiros na forma de um
inesperado crescimento do espetáculo.
Guilherme
Boulos, no entanto, é cético em relação a esse crescimento. Ele é coordenador
nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que constantemente
leva milhares de pessoas às ruas pedindo mudanças na política habitacional.
Para ele, nunca houve política desenvolvimentista no Brasil, com exceção,
talvez, da era Vargas. “Não há ‘neodesenvolvimentismo’ atualmente porque a
direita é tão possessiva que não aceita nem mesmo concessões dentro do próprio
capital. Esse pensamento privatizante e atrasado ainda impera no Brasil”.
Para o
arquiteto e urbanista Pedro Fiori Arantes, Pró-Reitor adjunto de Planejamento e
coordenador do Escritório Público da Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP), o Estado brasileiro perdeu
grande parte da sua capacidade de definir soluções projetuais para suas
demandas em setores estratégicos, entregando a definição dessas soluções para a
iniciativa privada.
“Isso significa que são tomadas decisões em que os
interesses privados na escolha de tecnologias, sistemas construtivos, localizações,
relações de produção, qualidade de projeto, modo de prestação do serviço
prevalecem em relação aos interesses públicos e dos usuários”, analisa. “São
inúmeros os exemplos de maus projetos em diversas obras urbanas, em habitação,
transportes, drenagem, canalizações, abastecimento, saneamento e disposição de
resíduos sólidos, abertura de vias – são pontes disparatadas, redes de
infraestruturas que não se conectam, conjuntos habitacionais inabitáveis,
distribuição caótica de linhas de transportes decididas por empresas privadas,
estagnação do sistema de reservação de água enquanto as cidades crescem,
desmoronamento em obras de grande porte, piscinões faraônicos que não reduzem
enchentes, um sistema insustentável de recolhimento e aterros de lixo, com cartéis
e máfias tomando conta em áreas decisivas do funcionamento das cidades. A
iniciativa privada comanda decisões estratégicas em relação ao desenvolvimento
urbano, linhas de transporte coletivo, recolhimento e disposição de lixo,
abastecimento de água etc”.
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| Conjunto habitacional pedregulho- Affonso Reidy |
João Sette
Whitaker, professor da FAU/USP e coordenador do Laboratório de Habitação e
Assentamentos Humanos (LabHab), alega que a origem dessa “capitulação” ao
capital privado deve-se à ausência de uma cultura de Estado. “Nunca tivemos
Estado de Bem-Estar Social, sempre fomos patrimonialista: oEstado
voltado para a defesa dos interesses dominantes”, afiança Whitaker. “Ao longo
da história, o Estado nunca incorporou a dimensão da coisa pública”,
diz.
Para o
professor, a burocratização do Estado e a “funcionalidade do projeto” apenas
como mecanismo de responder a interesses políticos levou a uma percepção.
“Hoje, o papel do arquiteto na
administração pública foi resumida em dois itens. O primeiro deles é servir como
facilitador e legitimador da arquitetura privada, que se utiliza do Estado
apenas como organismo legitimador de questões meramente burocráticas e
administrativas. Isso se torna tão grave que, em determinado momento, o Estado
se vê obrigado até mesmo a legalizar a ilegalidade. O segundo item é o
seguinte: ao longo da história da arquitetura dentro do poder, o profissional
se torna mero facilitador e legitimador do projeto político do Estado no
poder”, diz Whitaker. E conclui: “Não há comprometimento com a coisa pública,
mas com governos. Por isso, se criou a expressão ‘arquiteto de fundo de
balcão’, que é aquele profissional que não é mais arquiteto, mas que se
torna um sujeito amarelado pelo café da repartição e cujo papel é apenas
validar plantas e projetos. Há exceções,
claro, mas podemos afirmar que, ao longo da história, se eliminou da política
brasileira a cultura de projeto público”.
Para o
professor Whitaker, é necessário fazer uma refletição: quais são as forças que
constroem as cidades?
DISPUTAS
Muitas empreiteiras – principalmente as maiores do Brasil: Andrade
Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht e Queiroz Galvão – deixaram de ser apenas
construtoras e se transformaram em conglomerados de infraestrutura, atuando em
áreas que vão de petróleo e energia elétrica a telecomunicações e agronegócio.
As cifras
impressionam. As principais obras em andamento hoje no Brasil, ou já
contratadas, nas quais “as quatro irmãs” estão envolvidas, somam R$ 138,7
bilhões. Boa parte dessas obras integram o Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), como saneamento, reurbanização de favelas e construção de
hidrelétricas, entre elas Belo Monte (PA) e as usinas no Rio Madeira (RO). Na
carteira das empreiteiras também estavam reformas dos estádios para a Copa do
Mundo de 2014, como o Maracanã.
Mas a
concorrência vem aumentando. Ano passado, segundo o Portal Transparência da
Controladoria Geral da União, o governo federal gastou R$ 16,1 bilhões com
obras, um orçamento dividido por 5.709 construtoras. Deste total, as quatro
grandes ficaram com R$ 988 milhões. Ainda assim, o setor de construção é muito
concentrado. Um ranking com as 50 maiores construtoras do Brasil, elaborado
pela revista “O Empreiteiro”, mostra que as receitas das quatro principais
empreiteiras com engenharia e construção somavam R$ 18,7 bilhões em 2009, ou
38% do faturamento do total, apesar delas alegarem que hoje dependem muito
menos de contratos públicos.
Há outro
ponto de inflexão quando o assunto é o desenvolvimento do país – principalmente
quando se trata de como desenvolver. Inicialmente para obras da Copa do
Mundo e Olimpíadas 2016, o governo aprovou, em 2011, o polêmico Regime
Diferenciado de Contratação (RDC), que acelera os processos de construção civil
no país. Estudo do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco) em
relação às obras de mobilidade urbana e aeroportuárias ligadas à Copa 2014 e
Olimpíada 2016 com a utilização do RDC mostrou que essa modalidade tem índice
pouco superior a 1% de entrega, isto após até mais de dois anos de sua
contratação. Além disso, renomadas instituições de planejamento e agências de
fomento e desenvolvimento internacionais recomendam que os projetos de
arquitetura e de engenharia sejam contratados de forma independente, antes da
licitação que definirá a construtora que executará a obra. A discussão, calorosa, é fruto da mudança na
Lei de Licitações, a 8.666/93, e vem sendo discutida há quase dois anos no
Congresso.
O professor
Arantes aponta que uma modernização da lei é importante para o país, porém não
pode vir com liberalidades de “contrabando”. “O RDC, como modernização
procedimental da lei 8666/79, é bem vindo, permitindo um prazo de publicação de
15 dias, reduzindo tempo de licitação; possibilidade de utilização de meio
eletrônico e a entrega de papelada; possibilidade de lances, ampliando a
competição; inversão de fases, realizando análise documental apenas do
vencedor, o que reduz em muito o trabalho da administração, entre outras
melhorias”, avalia ele. “O que foi
introduzido de contrabando no RDC, em função da Copa e pressão das
empreiteiras, foi a chamada ‘contratação integrada’, isto é, a contratação
conjunta do projeto executivo e da obra”.
De acordo
com Arantes, se já era questionável a contratação de obras com base em Projeto
Básico, quando o certo é com Projeto Executivo Completo, as coisas pioraram com
a contratação de obra com base em anteprojeto. “E entrega-se para a construtora
a etapa de projeto, quando deveriam ser etapas independentes, pois são
movimentadas por agentes e interesses conflitantes. O projetista defende o interesse
da administração e do usuário das edificações. A construtora procura organizar
a obra e racionalizá-la para obter mais lucro. Um projeto definido por
construtora irá tomar decisões estratégicas em função dos interesses da própria
empresa privada em favorecer sistemas construtivos, tecnologias, acabamentos e
serviços em que a construtora sabe que obtém maiores taxas de lucro”.
Para o
professor, a grande motivação do RDC é o ganho de tempo. “Isso em construção de
Estádios para a Copa e outras obras com calendários apertados foi o fundamento
da justificativa. Mas é, sem dúvida, uma anomalia, pois a contratação de obras
vultuosas com base em anteprojeto resultarão em custos adicionais à
administração, riscos suplementares, com soluções de projeto não orientadas
pela melhor técnica e estética, mas pela lucratividade da empresa construtora.
Enfim, este é mais um sintoma do desmanche do Estado na realização de projetos
e obras de edificações e infraestruturas”, analisa Arantes.
“Esse
discurso do desenvolvimento a todo custo flerta, cada vez mais, com a direita”,
afirma Guilherme Boulos, cujo trabalho no MTST entra frequentemente em choque com grandes
empreiteiras. “Sempre é utilizada a expressão ‘desenvolver’ junto com o
discurso neoliberal, do livre-mercado, da falta de regulação estatal e das
privatizações. Esse discurso é, eminentemente, antipopular. O que está em jogo,
para nós, hoje, é construir uma resistência popular nas cidades brasileiras.
Queremos que nossa cidade seja construída de forma democrática, enfrentando
essa outra cidade excludente que existe, que é a cidade do capital. Os
megaprojetos, as operações urbanas, os consórcios públicos, estão cada vez mais
ligados aos interesses de grandes setores imobiliários, incorporadoras,
empreiteiras, construtoras, proprietários de terra, produzem uma cidade da
exclusão”.
Whitaker
observa que, para entender a construção dessa “cidade da exclusão”, é
necessário separar programas habitacionais das questões de projetos.“A ideia da
separação entre a questão habitacional e a questão urbana e de projetos no
Brasil, por exemplo, foi uma ação da ditadura para propagar a ideia de que
segregação social se resolve com habitação; e nesses projetos se faz qualquer
coisa, porque não há nada de arquitetura”, diz ele. E conclui: “a cidade é
feita de habitação, é elemento estruturador da cidade e do urbanismo público. É
isso que compõe uma visão pública da cidade e é o que precisamos trabalhar”.
Alexandre
Delijaicov, arquiteto da Prefeitura de São Paulo, professor do Departamento de
Projeto da FAU/USP e coordenador dos Grupos de Pesquisa em Projetos de
Arquitetura de Equipamentos Públicos e de Infraestruturas Urbanas Fluviais,
concorda com essa visão pública do espaço. “A cidade como casa é isso: pensar a
biblioteca, a piscina, o teatro, o metrô, um rio limpo, a possibilidade de
caminhar e pedalar como uma casa. É uma difícil arte da construção coletiva da
coisa pública, que mexe com muitos interesses que se apropriaram do Brasil em
500 anos. Estamos em um momento da geração que está em uma fase de relativa
democracia comparada à Ditadura. Porém, a cidade, a mobilidade, a bicicleta, os
“temas transversais”, como dizia o educador Paulo Freire [1921-1997],
têm que ser colocados desde cedo, com a filosofia e crítica do ‘pensar e agir’.
Isso também vem de um projeto de desmantelamento da formação do cidadão, o
saber conviver com as diferenças”. Já o arquiteto e urbanista Cândido Malta
Campos Filho, professor da FAU/USP, afirma que é imprescindível que seja feita
uma distinção entre as forças do capital. “Há o capital produtivo e o capital
improdutivo. Temos que nos aliar com capitalistas que produzem. O capital
produtivo faz o sistema se transformar. Se queremos transformá-lo, temos que
segurar o atraso e fazer com que o capitalismo ande”.
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| CEU Perus exemplo de arquitetura pública de alta qualidade |
Alternativas
Em São Paulo, as empresas de construção civil e do ramo
imobiliário são as que mais doam aos políticos e partidos. Segundo levantamento
do projeto “Arquitetura da Gentrificação”, nas eleições municipais de 2012,
elas foram responsáveis por mais de 57% das doações feitas somente aos
diretórios nacionais de partidos que elegeram os vereadores da cidade.
E a doação de campanha é fator crucial para entender o
desenvolvimento de políticas públicas. Quem doa a um candidato está interessado
nos rumos da cidade, seja pessoa física ou jurídica. E quem está interessado
nesses rumos costuma exigir do seu candidato eleito políticas públicas à altura
daquilo que considera o melhor para a cidade.
A lógica é
simples: esses interessados em conduzir a cidade fazem pressão para terem seus
pedidos atendidos, agindo me maneira “estratégica” na administração pública.
“O mercado
imobiliário, se apoiando na cultura individualista e de consumo, criou um
referencial arquitetônico e urbano segregador”, afiança o professor Whitaker .
“Mas sabemos que a resolução da influência do capital das grandes empreiteiras
na política brasileira é simples: o financiamento público de campanha. Enquanto
isso não acontecer, não vai ter arquitetura nem grandes projetos de
infraestrutura urbana pública no Brasil que sejam voltados para o povo. Serão
sempre uma troca de interesses eleitorais. Hoje em dia, a agenda urbana no
Brasil é determinada pelo compromisso com as grandes empreiteiras. Não tem
discussão de arquitetura e urbanismo participativa. O problema não é existir
grandes empresas – já que elas têm capacidade técnica para grandes obras –, mas
seu poder político. A regulação estatal tem que ser determinada pelo interesse
público. E aí temos no Brasil algumas aberrações como o Rodoanel, que não
contou com nenhuma discussão pública sobre hidroanel, ferroaneal ou modalidade
do transporte de cargas na região metropolitana de São Paulo para
implementá-las de maneira conjunta”.
“Esse é o primeiro passo para combater essa
lógica de conluio de poder público com o setor privado”, também analisa Boulos.
“A reforma política com financiamento público de campanha é crucial para o
país. As empreiteiras, não por acaso, são as maiores financiadoras de campanha
do país. Ninguém vai se voltar contra os interesses de quem pagou a conta da
sua campanha eleitoral. Então, o financiamento público de campanha é o primeiro
passo para começar a se pensar num poder público mais autônomo”.
PROJETO
Como, então, construir um “espaço de satisfação de desejos
coletivos”? Para o professor Arantes, é preciso seguir no combate ao desmanche
da cultura de projeto em nome da terceirização. “É preciso valorizar a
capacidade do Estado em tomar decisões estratégicas e saber desenvolvê-las como
solução de projeto, em termos de concepção, programa, diretrizes, formando
termos de referência e cadernos técnicos consistentes para licitações”,
analisa. E completa: “E, além de saber competentemente caracterizar a demanda
pública, por vezes complexa, com muitas variáveis em jogo, é preciso saber
licitar, contratar, fiscalizar, receber projetos e obras e depois operar
corretamente e manter as edificações e infraestruturas. Para termos
profissionais competentes e estimulados a trabalhar nesses setores de
arquitetura, urbanismo e engenharia, é preciso remuneração compatível com o
mercado, o fortalecimento de uma tecnocracia com autoestima, atualizada
profissionalmente, antenada internacionalmente e capaz de defender o interesse
da população. Hoje, o salário público para arquitetos e engenheiros está de 2 a
5 vezes abaixo do mercado. O funcionalismo público não é valorizado, e para
profissionais que vão contratar e fiscalizar obras de dezenas ou centenas de
milhões de reais, não há como manter e estimular profissionais gabaritados. Os
Escritórios Públicos de Projeto nas prefeituras e órgãos públicos estão sendo
desmanchados e substituídos por gerenciadoras e políticas que entregam
diretamente o projeto para as empresas privadas. Poucos concursos para novos
servidores ocorrem nessa área, com pouco interesse de candidatos. Tudo é feito
para empurrar a Administração Pública para a terceirização, o gerenciamento
privado e licitações prematuras, sem concepção elaborada por corpo técnico
próprio da administração. Isso para não falar das centenas de municípios no
Brasil que sequer contam com um arquiteto ou engenheiro”.
Whitaker
tenta manter o otimismo, apostando que já está em curso no Brasil uma
“revolução geracional”. “A única coisa em comum e coerente entre todas as manifestações
ocorridas em junho do ano passado era o resgate da coisa pública – e a
crítica ao seu mau uso. É uma nova geração no Brasil que não cresceu à sombra
de autoritarismo, mas em um ambiente livre e democrático, percebendo os
anacronismos do Estado. Passou, então, a se levantar contra ele, reclamando do
atraso do país. Essas reivindicações são novas, são sinais de um amadurecimento
da sociedade e também de uma ironia social de acesso às escolas e às
transformações sociais”.
Para o
professor Delijaicov, uma mudança de fato passa pela construção coletiva da
arquitetura da cidade. “A arquitetura que interessa é a arquitetura da cidade.
É a construção coletiva, a autoria coletiva da arquitetura do programa do
lugar”, diz ele. “Osrquitetos participam, dentro dos escritórios públicos de
projetos, da formulação de arquitetura do programa, que é o embrião do termo de
referência, por meio da cultura construtiva da República democrática de fato
participativa com uma comunidade visceralmente envolvida. Isso é uma mão dupla,
porque apreende um Estado de consciência com os verbos mais importantes: como
é que vamos usar; como é que nós, primeira pessoa do plural, vamos
manter a coisa pública, seja os canais ou as pontes, as escolas e hospitais
– já que a coisa mais cara é manter os prédios- e como é que vamos construir,
ou seja, o que vamos fazer juntos aqui nesse lugar? O avaliar é cada vez mais a
lapidação da autoria coletiva da arquitetura pública, por isso o CAU é
importante, para lutar por uma capilaridade nas instâncias de representação de
poder, com a população, com as fábricas públicas de componentes, as
cooperativas comunitárias e as assessorias técnicas”.
André
Takiya, arquiteto da Prefeitura de São Paulo, coordenador dos Grupos de
Pesquisa em Projetos de Arquitetura de Equipamentos Públicos e de
Infraestruturas Urbanas Fluviais da FAU/USP, avalia que é preciso que o Brasil
complete suas obras. “Nós começamos uma coisa e nunca terminamos. Todas as
infraestruturas, como a do metrô, já era para estar terminadas em 1980. Não tem
horizonte. É política de Estado, o gestor se vê na condição de mudar o que está
planejado. É uma questão mais profunda, de que não só o arquiteto que está
faltando nas instâncias de decisão, mas estamos, todos nós, cidadãos, alijados
dessa participação. Sempre começamos e não terminamos. Aqui tem a lógica
pós-democratização de gestões curtas de quatro anos, com autonomia muito grande
dos municípios com o pacto federativo, sem dar condições financeiras do
município assumir, de fato, as suas reais responsabilidades”.
“O CAU/SP
tem uma visão muito clara que o papel estratégico dos arquitetos vem da cadeia
produtiva”, afirma Boulos. “Esse papel é mais do que decisivo porque a disputa
política se dá também na concepção de projeto. Por exemplo, o programa Minha
Casa, Minha Vida, do governo federal. A empreiteira é o agente organizador do
empreendimento e qual é o interesse que está por trás do projeto da
empreiteira? Um projeto barato, que dê lucro, sem criatividade nem reflexão,
padronizado e com a grande possibilidade de criar guetos. É preciso retormar o
compromisso com um projeto, de fato, público de cidade”.
CONCURSO PÚBLICO
Os Concursos Nacionais Públicos de Projetos de Arquitetura sempre
foram importantes para a democratização e consolidação da arquitetura. É um
processo que contribui para o aprimoramento da produção e a prática
arquitetônica, possibilita a solidificação de obras emblemáticas e suscita uma
discussão crítica sobre os fundamentos do exercício profissional. Porém, o
número de concursos realizados no Brasil ainda é muito baixo. O resultado é que
o número de participantes tende a ser alto e a chance de vencer uma concurso é
baixa. Ou seja, grandes esforços para um retorno pequeno.
“Eu estimo
que no Brasil, por ano, devem ser realizados cerca de cinco mil obras
públicas”, analisa Bruno Padovano, professor do Departamento de
Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
“Se a maioria esmagadora fosse realizada por concurso público, isso daria um
campo enorme de trabalho para os arquitetos e aumentaria, em muito, as chances
dos profissionais participantes”.
Padovano também defende que seja feita uma
simplificação dos concursos. “Hoje os concursos, na sua tradição elitistas,
pedem um grande número de desenhos. É um investimento muito grande por parte
dos participantes. É uma dupla elitização: primeiro porque são poucos
concursos, depois só escritórios muito grandes têm chance de participar de
concursos de forma qualificada. Não estou dizendo que esse fato gere somente obras ruins, mas a
tendência é que o concurso sempre revele uma possibilidade mais criativa e
inventiva, criando espaços diferenciados”.
Matéria produzida pelo jornalista Roney Rodrigues





















